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Aos 14 anos, jovem do Rio começou uma favela em miniatura de 450 metros quadrados, usou tijolos reaproveitados, bonecos, tinta e virou referência em arte, cinema e atração internacional
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 18/08/2026 às 20:42
Atualizado em 18/08/2026 às 20:43
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Construída com tijolos reaproveitados, tinta e bonecos, a cidade em miniatura reproduziu becos, casas, comércio e relações sociais do Pereirão, ganhou produções audiovisuais e chegou a museus e exposições fora do Brasil.
Casas coloridas se sobrepõem no barranco. Entre elas, ruas inclinadas, becos apertados e pequenas escadarias conduzem bonecos até a escola, o comércio, o campo de futebol e a quadra de samba. À primeira vista, a cena parece mostrar uma favela real vista de longe.
A construção, porém, é o Projeto Morrinho, uma enorme favela em miniatura criada no alto da comunidade do Pereirão, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O trabalho ocupa cerca de 450 metros quadrados ao ar livre e reproduz diferentes cenas da vida urbana.
Tudo começou em 1998, quando Cirlan Souza de Oliveira tinha 14 anos. A história foi publicada pela Contemporary And (C&), revista dedicada à arte contemporânea internacional.
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A cidade que começou no quintal de dois irmãos
Cirlan e seu irmão Maycon, então com 8 anos, começaram a montar uma pequena favela no quintal da família. Eles aproveitaram tijolos quebrados, tinta e objetos simples para reconstruir os espaços que conheciam no Pereirão.
A brincadeira logo chamou a atenção de outras crianças da comunidade. O vizinho Ranieri decidiu participar e levou mais cinco jovens. Assim surgiu o grupo de oito criadores que deu origem ao Morrinho.
Cada participante ajudava a construir ruas, casas e espaços coletivos. A cidade foi crescendo pelo terreno, entre árvores e desníveis naturais, até se transformar em uma criação feita pelos próprios moradores da favela.
O tamanho não era o único destaque. O projeto começou a reunir personagens, situações e conflitos inspirados na rotina da comunidade, permitindo que os jovens representassem a cidade a partir do próprio olhar.
Tijolos e bonecos passaram a contar a vida no Pereirão
Os tijolos quebrados formaram casas, muros, escadarias e construções sobrepostas. As cores ajudaram a separar bairros e territórios. Já os bonecos de Lego ganharam vozes, personalidades, profissões e histórias.
No Morrinho, existem estudantes, comerciantes, músicos, agentes públicos e outros personagens. Há ainda escola de samba, creche, pequeno comércio, campo de futebol e diferentes pontos de convivência. Cada detalhe possui uma função dentro da narrativa criada pelos jovens.
As brincadeiras também seguem regras. Os bonecos não podem voar, saltar alturas impossíveis ou correr mais rápido do que um carro. Um participante acompanha as ações e interfere quando alguém rompe os limites da realidade.
Essa preocupação aproxima o Morrinho de um documento urbano em movimento. A maquete não copia apenas casas e ruas. Ela mostra como as pessoas circulam, trabalham, estudam, convivem e enfrentam conflitos naquele espaço.
TV Morrinho levou a brincadeira para o audiovisual
A transformação da cidade em linguagem audiovisual ganhou força em 2001, durante a produção do documentário “Morrinho, Deus sabe tudo, mas não é X 9”, dirigido por Fábio Galvão e Markão Oliveira.
O trabalho foi acompanhado por uma oficina de vídeo. Os participantes aprenderam a usar câmeras e passaram a transformar as histórias encenadas com bonecos em produções próprias. Desse processo nasceu a TV Morrinho.
Assista o vídeo
Os vídeos possuem aproximadamente cinco minutos e misturam situações reais, humor e ficção. As gravações acontecem dentro da maquete, enquanto os jovens movimentam os personagens e criam as vozes.
A Contemporary And (C&), revista dedicada à arte contemporânea internacional, registra que essa linguagem surgiu dentro da própria comunidade, em vez de ser levada ao local por pessoas de fora.
Oficinas ampliaram o alcance da criação coletiva
A experiência com vídeo abriu espaço para oficinas e atividades culturais. Os integrantes passaram a compartilhar conhecimentos sobre construção de maquetes, criação de personagens, narrativa e produção audiovisual.
O Morrinho tornou visível uma forma diferente de comunicação. Em vez de aparecer apenas como cenário de reportagens feitas por visitantes, a comunidade passou a produzir suas próprias imagens e histórias.
As oficinas também mantiveram o caráter coletivo do projeto. Não existe um único olhar controlando toda a cidade. Cada integrante participa da construção, das regras, dos personagens e das cenas apresentadas ao público.
Por isso, o trabalho não pode ser reduzido a uma história sobre materiais descartados. Os tijolos reaproveitados são parte da construção, mas o centro do projeto está na autoria dos jovens e na maneira como eles decidiram representar o lugar onde vivem.
Morrinho chegou a museus e exposições internacionais
O projeto começou a ser convidado para construir versões da maquete em outros espaços. Uma delas apareceu no Rio Design Center, em 2002. Outra foi apresentada no Museu de Arte do Rio, em 2013.
Os criadores também realizaram exposições na Europa, nos Estados Unidos e na América do Sul. Em 2007, o grupo levou uma versão do Morrinho aos jardins da 52ª Bienal de Arte de Veneza, uma das principais exposições internacionais de arte.
No mesmo ano, o vídeo “O Saci no Morrinho” recebeu o prêmio de melhor filme no Festival Visões Periféricas, no Rio de Janeiro. “Acadêmicos do Morrinho” também foi premiado no Festival Internacional de Curtas de São Paulo.
A presença nesses espaços confirmou que a construção poderia ser observada como arte urbana, registro social e ferramenta de comunicação. Sua força está tanto no resultado visual quanto nas histórias criadas dentro dela.
O Projeto Morrinho nasceu de uma brincadeira no quintal, cresceu com a participação de outros jovens e se tornou uma cidade em miniatura com cerca de 450 metros quadrados. Mais do que reproduzir a aparência de uma favela, ele apresenta relações, personagens e experiências da comunidade.
Ao ocupar telas, oficinas, museus e exposições internacionais, o trabalho preservou seu ponto essencial: moradores contando a própria cidade com liberdade, humor e autoria coletiva.
Você acredita que uma maquete criada por jovens pode revelar sobre uma cidade aquilo que mapas e reportagens nem sempre conseguem mostrar? Compartilhe sua opinião nos comentários.
Fonte
Contemporary And (C&)
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

