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Ex-CEO da Patagonia deixou carreira empresarial para recuperar áreas selvagens e ajudou a transformar milhões de hectares de terras no Chile e na Argentina em parques destinados permanentemente à conservação
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 19/08/2026 às 14:24
Atualizado em 19/08/2026 às 14:28
Meio Ambiente
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Kristine Tompkins deixou o comando da Patagonia em 1993, mudou sua rotina para a América do Sul e transformou a conservação de grandes áreas naturais em um projeto de vida que continuou mesmo após a morte do marido
Durante anos, Kristine Tompkins esteve ligada ao crescimento de uma das marcas de roupas para atividades ao ar livre mais conhecidas do mundo.
Mas, em 1993, sua trajetória tomou outro rumo.
Kristine deixou o cargo de CEO da Patagonia e passou a concentrar sua vida na conservação da natureza ao lado de Douglas Tompkins, empresário que havia participado da criação da The North Face e da Esprit.
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A mudança não significava apenas trocar o escritório por uma propriedade rural.
O casal desenvolveu uma estratégia ambiciosa: adquirir grandes extensões privadas, reunir propriedades vizinhas, recuperar ecossistemas e trabalhar para que essas áreas fossem posteriormente transformadas em parques nacionais.
Décadas depois, a Fundação Rewilding Chile afirma que Kristine, Douglas e organizações parceiras ajudaram a proteger aproximadamente 15 milhões de acres de áreas de parques no Chile e na Argentina, o equivalente a cerca de 6 milhões de hectares.
Kristine deixou a Patagonia e mudou sua vida em 1993
A relação de Kristine Tompkins com a Patagonia começou muito antes de sua mudança para a América do Sul.
Ela trabalhou com Yvon e Malinda Chouinard e chegou ao comando da companhia, permanecendo na empresa até 1993.
Naquele ano, deixou a carreira empresarial e seguiu para o sul do Chile, onde Douglas Tompkins já havia começado a direcionar sua vida e seus recursos para projetos de conservação.
Os dois se casaram e passaram a trabalhar juntos na construção de uma estratégia que teria a Patagônia chilena e regiões da Argentina como seus principais territórios de atuação.
A própria Kristine explicou à National Geographic que o casal observava a expansão das atividades industriais e a degradação de paisagens naturais durante suas viagens.
A ideia que ganhou força foi comprar grandes propriedades privadas, reuni-las e posteriormente devolvê-las aos países na forma de parques nacionais.
Grandes propriedades começaram a formar áreas contínuas de conservação
O modelo desenvolvido pelos Tompkins dependia de escala.
Em vez de proteger apenas pequenas propriedades isoladas, o objetivo era adquirir terrenos suficientemente extensos — inclusive áreas contíguas — para recuperar paisagens inteiras e formar grandes territórios destinados à conservação.
Um dos exemplos mais conhecidos aconteceu em Pumalín, no Chile.
Douglas começou a adquirir terras na região no início dos anos 1990. Nos anos seguintes, por meio de uma fundação sem fins lucrativos, o projeto reuniu aproximadamente 280 mil hectares de propriedades contíguas para formar a área de Pumalín.
A proposta ia além da simples compra das terras.
As áreas precisavam ser protegidas, restauradas e preparadas para uma finalidade que ultrapassava a propriedade privada: tornar-se patrimônio natural protegido em escala nacional.
Terras privadas foram transferidas para formar parques nacionais
Esse é um dos pontos que diferencia o projeto conduzido por Kristine e Douglas Tompkins.
As propriedades não eram compradas simplesmente para permanecer indefinidamente sob controle particular.
A estratégia envolvia trabalhar com os governos para incorporar essas terras aos sistemas públicos de áreas protegidas.
Um caso concreto ocorreu em Yendegaia, na Terra do Fogo chilena.
Kristine e Douglas conheceram a antiga propriedade pecuária em 1998 e participaram de sua aquisição naquele mesmo ano por meio de uma organização sem fins lucrativos e com apoio de outros filantropos.
Anos depois, aproximadamente 94 mil acres — cerca de 38 mil hectares — foram doados para contribuir com a formação do Parque Nacional Yendegaia, criado em 2013, com a transferência das terras privadas concluída posteriormente.
A iniciativa se repetiria, em diferentes formatos e escalas, em outros territórios.
Morte de Douglas não interrompeu o projeto
A trajetória do casal sofreu uma mudança abrupta em dezembro de 2015.
Douglas Tompkins morreu após um acidente de caiaque na Patagônia chilena, deixando Kristine diante da tarefa de continuar um trabalho desenvolvido conjuntamente durante décadas.
O projeto, porém, não terminou.
Kristine permaneceu à frente da Tompkins Conservation e continuou negociando e desenvolvendo iniciativas relacionadas à criação de parques, restauração de ecossistemas e recuperação da fauna.
Hoje, ela é presidente e cofundadora da Tompkins Conservation e preside o conselho da Fundação Rewilding Chile.
A continuidade do trabalho após a morte de Douglas transformou Kristine em uma das principais responsáveis por consolidar o legado iniciado pelo casal.
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Chile recebeu uma das maiores doações privadas de terras para conservação
Um dos momentos mais importantes dessa etapa ocorreu depois da morte de Douglas.
Em 2017, o governo chileno avançou no processo relacionado à chamada Rota dos Parques da Patagônia, iniciativa associada à doação de terras da Tompkins Conservation.
O acordo colocou em andamento procedimentos para a criação de novos parques e ampliação de áreas protegidas existentes.
Segundo a própria organização, o processo representou a maior doação privada de terras da história do Chile destinada à conservação.
O resultado não dependia apenas das propriedades adquiridas pelos Tompkins.
A estratégia combinava as terras privadas doadas com áreas pertencentes ao Estado, permitindo formar unidades de conservação muito maiores.
Assim, propriedades que anteriormente estavam sob domínio particular passaram a integrar um sistema público destinado à proteção permanente da natureza.
Trabalho passou da proteção das terras para a recuperação dos animais
Com o avanço dos projetos, a atuação também passou a enfatizar o chamado rewilding, conceito relacionado à recuperação de ecossistemas e de populações de animais que desapareceram ou sofreram forte redução em determinadas regiões.
A conservação deixou, portanto, de significar apenas impedir a destruição da vegetação.
Passou também a envolver a tentativa de devolver espécies aos ambientes dos quais haviam desaparecido.
Entre os animais envolvidos em programas ligados às organizações estão onça-pintada, arara-vermelha, ariranha, ema-de-Darwin e huemul, espécie de cervo ameaçada encontrada na região andino-patagônica.
Essa abordagem procura recuperar não apenas a paisagem, mas também as relações ecológicas necessárias para que esses ambientes voltem a funcionar com maior autonomia.
Trabalho ajudou a criar e ampliar parques no Chile e na Argentina
Ao longo de três décadas, a dimensão do projeto cresceu significativamente.
A National Geographic registra que Kristine se dedicou à recuperação das áreas selvagens do Chile e da Argentina, enquanto a Rewilding Chile afirma que ela e Douglas participaram de uma iniciativa que alcançou escala continental.
Segundo a Fundação Rewilding Chile, mais de 14 milhões de acres foram protegidos ao longo de pouco mais de 25 anos de trabalho conjunto com governos e outros filantropos.
Em outra contabilização divulgada pela própria organização, considerando a atuação da Tompkins Conservation e de seus parceiros, o número chega a aproximadamente 15 milhões de acres de áreas de parques, algo próximo de 6 milhões de hectares.
A National Geographic Documentary Films informa ainda que Kristine ajudou na criação ou ampliação de 15 parques nacionais no Chile e na Argentina, incluindo dois parques nacionais marinhos.
No Chile, sete novos parques foram criados e outros três ampliados
Parte desse legado pode ser observada especificamente no território chileno.
A Tompkins Conservation informa que, desde o início dos grandes projetos de conservação desenvolvidos por Douglas e Kristine na década de 1990, a Fundação Rewilding Chile ajudou a criar sete novos parques nacionais e ampliar outros três.
Essas áreas passaram a integrar a visão da Rota dos Parques da Patagônia, formando um extenso corredor de territórios protegidos no sul do país.
O modelo demonstra como propriedades originalmente privadas podem assumir outra função quando conservação, restauração e políticas públicas são articuladas em torno do mesmo território.
Três décadas depois, projeto iniciado como mudança de vida ganhou escala continental
Quando Kristine Tompkins deixou a Patagonia em 1993, a decisão significava abandonar uma carreira consolidada para iniciar uma trajetória completamente diferente.
Mais de três décadas depois, aquela escolha está associada a uma das maiores iniciativas privadas de conservação transformadas em patrimônio público nas Américas.
Terras foram compradas, propriedades foram reunidas, ambientes degradados passaram por processos de restauração e enormes extensões acabaram incorporadas ou vinculadas à criação e ampliação de parques nacionais.
Mesmo após a morte de Douglas, Kristine continuou conduzindo esse trabalho.
Hoje, a escala ajuda a dimensionar o resultado: aproximadamente 15 milhões de acres de áreas de parques protegidos no Chile e na Argentina por meio do trabalho da Tompkins Conservation e organizações parceiras, segundo a Rewilding Chile.
O que começou como a decisão de deixar o comando de uma empresa tornou-se, assim, um projeto de décadas para fazer justamente o caminho inverso da privatização da paisagem: comprar terras particulares, recuperar a natureza e trabalhar para que grandes parcelas desses territórios permanecessem protegidas como parques para as gerações futuras.
E você, acredita que o modelo de comprar propriedades privadas, restaurar os ecossistemas e posteriormente transformar essas áreas em parques públicos poderia ser aplicado em maior escala em outros países, inclusive no Brasil?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

