7 min de leitura
Ted Turner acumulou cerca de 809 mil hectares de terras nos Estados Unidos e transformou seus ranchos em laboratórios de conservação, recuperando bisões e criando programas para proteger espécies ameaçadas
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 19/08/2026 às 14:01
Curiosidades
Canal
2 pessoas reagiram a isso.
Prefira o CPG no Google
Fundador da CNN chegou a administrar aproximadamente 2 milhões de acres em oito estados, manteve dezenas de milhares de bisões e colocou grandes propriedades particulares a serviço de projetos de recuperação da fauna nativa
Conhecido mundialmente pela criação da CNN e por construir um dos maiores impérios da televisão norte-americana, Ted Turner também deixou uma trajetória diretamente ligada à conservação ambiental em uma escala difícil de comparar com a de outros proprietários privados.
Ao longo de décadas, o empresário reuniu aproximadamente 2 milhões de acres de terras nos Estados Unidos, o equivalente a cerca de 809 mil hectares, distribuídos por oito estados.
A dimensão colocou Turner entre os maiores proprietários privados de terras do país. Mas parte importante de sua história não esteve apenas na quantidade de território acumulado.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Seus ranchos passaram a funcionar simultaneamente como propriedades produtivas, áreas de conservação e locais utilizados em projetos de recuperação de espécies nativas.
Reportagem da Associated Press publicada pelo Los Angeles Times após a morte do empresário, em maio de 2026, descreveu aproximadamente 3.125 milhas quadradas de ranchos como verdadeiros “laboratórios vivos” de conservação, onde atividades econômicas passaram a conviver com restauração de habitats e recuperação da fauna.
Empresário chegou a administrar cerca de 809 mil hectares
A escala das propriedades ajuda a dimensionar o projeto construído por Turner.
Segundo a própria Turner Enterprises, empresa responsável pela administração de seus negócios e propriedades, o empresário chegou a manter cerca de 2 milhões de acres distribuídos por oito estados norte-americanos.
Convertida para o sistema métrico, essa extensão representa aproximadamente 809 mil hectares.
Uma reportagem da Exame, publicada em maio de 2026, destacou que Turner começou a adquirir terras durante a década de 1980 e já havia ultrapassado a marca de 2 milhões de acres em meados dos anos 2000.
Parte expressiva desse território estava concentrada em grandes ranchos no oeste dos Estados Unidos.
As propriedades ligadas à operação de bisões estavam distribuídas principalmente por Colorado, Kansas, Montana, Nebraska, Novo México e Dakota do Sul. Ao todo, a Turner Enterprises informa a existência de 13 ranchos relacionados à operação comercial desses animais.
Bisões substituíram parte do gado nas propriedades
Entre as iniciativas mais conhecidas de Turner estava justamente a recuperação do bisão-americano, animal que chegou próximo do desaparecimento após décadas de caça e transformação de seu habitat.
Turner adquiriu seus primeiros bisões ainda na década de 1970.
Com a expansão de suas propriedades, os animais passaram a ocupar grandes áreas anteriormente destinadas principalmente ao gado.
O projeto cresceu até formar um rebanho com mais de 45 mil bisões, descrito pela Turner Enterprises como o maior rebanho comercial da espécie na América do Norte.
A estratégia não significava simplesmente abandonar a atividade econômica.
Pelo contrário.
Turner defendia que conservação e geração de receita poderiam funcionar simultaneamente, conceito que passou a associar ao chamado “eco-capitalismo”.
Nos ranchos, atividades como criação de bisões, turismo, recreação, pesca e outras operações econômicas foram combinadas com programas de recuperação ambiental.
Ranchos se tornaram laboratórios de conservação
O tamanho das propriedades abriu uma possibilidade pouco comum para pesquisadores e conservacionistas: trabalhar com recuperação de ecossistemas em áreas privadas de enorme extensão.
Segundo a Associated Press, aproximadamente 3.125 milhas quadradas de ranchos ligados a Turner foram utilizadas durante décadas em trabalhos de conservação.
Essas áreas permitiram desenvolver projetos que iam muito além dos bisões.
Havia iniciativas envolvendo restauração de cursos d’água, recuperação de pastagens, manejo de habitats e reintrodução ou fortalecimento de populações de espécies nativas.
A filosofia adotada era utilizar as propriedades como ambientes nos quais conservação, pesquisa e manejo pudessem ocorrer em escala territorial ampla.
Fundo criado em 1997 ampliou trabalho com espécies ameaçadas
Essa atuação ganhou uma estrutura própria em junho de 1997, quando Ted Turner, sua família e o biólogo Mike Phillips criaram o Turner Endangered Species Fund (TESF) e o Turner Biodiversity Divisions.
O objetivo era concentrar esforços na preservação da biodiversidade, especialmente por meio da recuperação de espécies ameaçadas ou em declínio e de seus habitats, com forte utilização de terras privadas.
A organização passou a trabalhar em parceria com agências estaduais e federais, universidades e outras instituições privadas.
Os projetos alcançaram mamíferos, aves, peixes, répteis, anfíbios, insetos e plantas.
Entre as espécies contempladas ao longo dos anos aparecem lobo-mexicano, furão-de-patas-pretas, tartaruga-de-Bolsón, carneiro-selvagem-do-deserto, falcão-aplomado, cães-da-pradaria, borboletas-monarca e diferentes populações de trutas nativas, além dos próprios bisões.
Propriedades foram utilizadas para recuperar trutas nativas
Os cursos d’água existentes nos ranchos também entraram na estratégia ambiental.
Um dos programas do Turner Endangered Species Fund envolve a recuperação de populações da truta-cutthroat do Rio Grande e da westslope cutthroat trout, espécies nativas afetadas pela introdução de peixes não nativos, degradação de habitats e outros fatores.
As propriedades Flying D, Snowcrest, Vermejo e Ladder possuem grandes trechos de habitats de água fria dentro das áreas historicamente ocupadas por essas trutas.
Um dos exemplos mais expressivos está no Flying D Ranch, em Montana.
O projeto de recuperação de Cherry Creek envolve aproximadamente 100 quilômetros de habitat fluvial, além de área lacustre adequada às trutas nativas.
O trabalho começou a ser planejado em 1997 e posteriormente envolveu remoção de espécies não nativas e reintrodução dos peixes originais da região.
Falcões também fizeram parte dos programas
No Novo México, o Armendaris Ranch foi utilizado em uma tentativa de restabelecer populações do falcão-aplomado.
A espécie havia sofrido forte redução populacional em sua distribuição histórica e foi classificada como ameaçada de extinção nos Estados Unidos em 1986.
A partir de 1997, o fundo ligado a Turner passou a colaborar com o Peregrine Fund e o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos em iniciativas para tentar recuperar a espécie nas pastagens do deserto de Chihuahua.
Entre 2006 e 2011, 112 falcões foram soltos no Armendaris Ranch.
O resultado, porém, mostra que conservação nem sempre produz o desfecho esperado.
Apesar de algumas aves terem sobrevivido inicialmente e três casais terem estabelecido ninhos, o programa não conseguiu formar uma população autossustentável no local e o trabalho de campo específico com a espécie terminou em 2013.
Lobo-mexicano encontrou espaço dentro de outro rancho
Outra iniciativa importante ocorreu no Ladder Ranch, também no Novo México.
Desde 1997, uma instalação existente na propriedade participa do programa de recuperação do lobo-mexicano, uma das populações de lobos mais ameaçadas da América do Norte.
Segundo o Turner Endangered Species Fund, a estrutura tornou-se uma das principais instalações do programa destinadas à manutenção e reprodução seletiva de lobos antes da soltura na natureza.
O trabalho demonstra como propriedades originalmente adquiridas como ranchos particulares acabaram incorporadas a projetos coordenados com autoridades ambientais.
Conservação também gerou críticas
A estratégia adotada por Turner não foi recebida sem resistência.
A substituição de parte do gado por bisões, a defesa da recuperação de predadores e principalmente o apoio a programas envolvendo lobos provocaram críticas de setores ligados à pecuária no oeste norte-americano.
Criadores temiam, entre outras questões, que animais reintroduzidos pudessem atacar rebanhos.
Também houve controvérsias envolvendo grandes aquisições de terras e propriedades mantidas pelo empresário na Argentina.
Mesmo assim, Turner manteve durante décadas a ideia de que grandes propriedades privadas poderiam participar diretamente da recuperação de ecossistemas.
Recomendado para você
Curiosidades
Aos 62 anos, Lenny Kravitz mantém uma fazenda de 400 hectares no interior do Rio, onde restaurou casarão de 1850, preserva plantações orgânicas, produz alimentos retirados da terra e mantém cavalos, bovinos, estúdio musical, heliponto e estrutura para receber até 26 pessoas
Lenny Kravitz mantém uma fazenda em Duas Barras, no interior do Rio de Janeiro, onde 400 hectares reúnem plantações orgânicas, alimentos retirados da terra, cavalos, bovinos, casarão colonial de 1850,…
Caio Aviz
35
De magnata da televisão a um dos maiores proprietários de terras dos Estados Unidos
Ted Turner morreu em 6 de maio de 2026, aos 87 anos, deixando uma trajetória normalmente associada à transformação da televisão.
Foi fundador da CNN, criou outros canais, participou do mercado esportivo e construiu uma das figuras empresariais mais conhecidas dos Estados Unidos.
Paralelamente, porém, acumulou uma quantidade de terras equivalente a aproximadamente 809 mil hectares e transformou parte desse patrimônio em uma estrutura de conservação em escala continental.
Ao reunir grandes rebanhos de bisões, financiar programas para espécies ameaçadas, permitir projetos científicos e utilizar ranchos privados na restauração de habitats, Turner transformou propriedades rurais que poderiam ter permanecido exclusivamente produtivas em áreas onde atividade econômica e conservação passaram a dividir o mesmo território.
Décadas depois do início das primeiras iniciativas, projetos associados ao Turner Endangered Species Fund continuam envolvendo espécies nativas e ecossistemas que ocupam algumas das maiores propriedades particulares dos Estados Unidos.
A dimensão de suas terras chamou atenção durante anos. Mas o que aconteceu dentro delas acabou se tornando uma parte igualmente importante de seu legado.
E você, acredita que grandes propriedades rurais privadas podem ter um papel decisivo na recuperação de espécies ameaçadas e de ecossistemas naturais?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

