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Depois de 70 anos no fundo do Oceano Índico, empresa resgata secretamente 60 toneladas de prata de naufrágio da Segunda Guerra, leva o tesouro ao Reino Unido e vê a África do Sul reivindicar as 2.364 barras de US$ 43 milhões e vencer na Suprema Corte
Escrito por Ana Alice
Publicado em 19/08/2026 às 23:54
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Uma operação em águas profundas recuperou toneladas de prata desaparecidas desde a Segunda Guerra Mundial e desencadeou uma disputa internacional sobre propriedade, salvamento marítimo e imunidade estatal que terminou na mais alta corte britânica.
Durante mais de sete décadas, milhares de barras de prata permaneceram dentro dos destroços de um navio afundado no Oceano Índico durante a Segunda Guerra Mundial.
O carregamento estava a aproximadamente 2,5 quilômetros abaixo da superfície, profundidade suficiente para tornar sua recuperação praticamente impossível durante boa parte do século 20.
A tecnologia acabou mudando essa história.
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Em 2017, a empresa britânica Argentum Exploration conduziu uma operação de salvamento que atravessou seis meses do calendário e retirou do fundo do mar 2.364 barras de prata, equivalentes a cerca de 60 toneladas do metal.
A operação ocorreu entre 29 de janeiro e 23 de junho daquele ano, segundo documentos da Suprema Corte do Reino Unido.
O tesouro foi levado posteriormente para Southampton, na Inglaterra.
Em valores estimados em 2020, a carga chegava a aproximadamente US$ 43 milhões, ou £34 milhões.
Parecia o final de uma operação extraordinária de exploração em águas profundas.
Na prática, porém, foi apenas o começo de uma disputa judicial que chegou à Suprema Corte britânica e terminou com uma vitória jurídica do governo da África do Sul.
SS Tilawa levava 60 toneladas de prata durante a Segunda Guerra
A história começa em novembro de 1942.
O SS Tilawa, navio comercial de passageiros e carga, deixou Bombaim, atual Mumbai, com destino a Durban, na África do Sul.
Entre o que transportava estavam milhares de barras de prata compradas pelo governo da então União da África do Sul junto ao governo da Índia.
O destino principal do metal era a Casa da Moeda sul-africana.
Segundo a Suprema Corte britânica, a maior parte da prata havia sido adquirida para ser transformada em moedas da União da África do Sul, enquanto uma parcela estava relacionada à produção de moeda para o Egito.
O carregamento nunca chegou ao destino.
Em 23 de novembro de 1942, o Tilawa foi atingido por dois torpedos disparados por um submarino japonês no Oceano Índico, nas proximidades das Seychelles.
O naufrágio matou cerca de 280 pessoas, segundo o The Guardian, e levou para o fundo do mar passageiros, cargas e a enorme quantidade de prata transportada pelo navio.
As barras permaneceriam ali por mais de 74 anos.
Naufrágio estava a 2,5 quilômetros de profundidade
Encontrar um navio nesse ambiente é apenas parte do problema.
Recuperar dezenas de toneladas de metal a cerca de 2,5 quilômetros de profundidade exige embarcações especializadas e equipamentos capazes de operar onde mergulhadores convencionais não conseguem chegar.
A Argentum Exploration foi criada justamente para explorar naufrágios valiosos situados em profundidades que historicamente dificultavam operações de salvamento.
A recuperação do Tilawa foi realizada pelo navio especializado MV Seabed Worker.
De acordo com o julgamento da Suprema Corte, a retirada das barras começou em 29 de janeiro de 2017 e continuou até 23 de junho.
O Guardian descreveu a operação como secreta e informou que a empresa passou seis meses trabalhando no resgate antes de levar a carga para o Reino Unido.
Pouco a pouco, barras que haviam permanecido no fundo do Oceano Índico desde a Segunda Guerra começaram a subir novamente à superfície.
Ao final, 2.364 barras haviam sido recuperadas.
Assista o vídeo
Prata recuperada foi levada para Southampton
Retirar o metal do fundo do mar não encerrou a complexa logística da operação.
Em 3 de setembro de 2017, segundo a Suprema Corte, as barras foram transferidas do MV Seabed Worker para outra embarcação, o MV Pacific Askari, em uma zona marítima próxima à costa sul-africana.
Dali, seguiram para o Reino Unido.
A carga finalmente chegou a Southampton em 2 de outubro de 2017.
Depois do desembarque, a Argentum declarou oficialmente a descoberta ao Receiver of Wreck, autoridade britânica responsável por lidar com bens recuperados de naufrágios.
Havia, porém, um problema que transformaria aquelas toneladas de prata em assunto para tribunais.
A Argentum acreditava inicialmente que o metal pertencia ao governo britânico.
Não pertencia.
África do Sul reivindicou a propriedade das barras de prata
Os documentos históricos apontavam para outro dono.
A prata havia sido comprada pelo governo da União da África do Sul durante a Segunda Guerra Mundial e continuava pertencendo ao Estado sul-africano.
A África do Sul então reivindicou seus direitos sobre o carregamento.
Em 2019, a Argentum iniciou uma ação judicial buscando inicialmente uma declaração de propriedade sobre as barras ou, alternativamente, uma recompensa pelo salvamento.
Ao longo da disputa, a empresa acabou aceitando que a África do Sul era a proprietária da prata.
A briga passou, então, para outra pergunta.
Depois de localizar e recuperar voluntariamente dezenas de toneladas de metal a quilômetros de profundidade, a empresa teria direito a receber uma recompensa pelo trabalho?
Direito marítimo entrou no centro da disputa
O pedido da Argentum se apoiava em um princípio tradicional do direito marítimo.
Uma empresa que voluntariamente recupera um navio ou uma carga em perigo pode, em determinadas circunstâncias, pedir uma recompensa de salvamento, mesmo sem ter sido previamente contratada pelo proprietário.
A lógica incentiva o resgate de embarcações e bens que poderiam ser perdidos.
No caso do Tilawa, o argumento ganhava uma dimensão incomum.
A Argentum havia localizado uma carga que permanecera inacessível durante décadas e realizado uma operação tecnicamente complexa para recuperá-la.
A África do Sul, entretanto, apresentou uma defesa baseada em imunidade estatal.
Esse argumento acabaria decidindo o caso.
Finalidade da prata virou questão decisiva no processo
A questão central chegou a um ponto bastante específico: para que finalidade aquela prata estava sendo usada quando o Tilawa afundou em 1942?
O navio era utilizado comercialmente para transportar passageiros e mercadorias.
Isso não estava em discussão.
O problema era definir se a própria prata também estava sendo utilizada ou destinada a uma finalidade comercial.
A Argentum defendia que sim.
A carga havia sido comprada por meio de uma transação e estava sendo transportada sob um contrato comercial.
Tribunais inferiores aceitaram essa interpretação.
Tanto a primeira decisão quanto a maioria do Tribunal de Apelação haviam entendido que a conexão com contratos comerciais retirava da África do Sul a imunidade reivindicada.
A Suprema Corte enxergou a situação de outra maneira.
Suprema Corte decidiu por unanimidade a favor da África do Sul
Em 8 de maio de 2024, cinco ministros da Suprema Corte britânica decidiram de forma unânime acolher o recurso apresentado pela África do Sul.
Para o tribunal, transportar a prata dentro de um navio comercial não significava que o próprio metal estivesse sendo utilizado comercialmente.
Seu destino predominante era outro.
A maior parte seria transformada em moedas pela Casa da Moeda da África do Sul, uma finalidade considerada soberana, e não simplesmente comercial.
Com isso, a exceção prevista na legislação britânica sobre imunidade estatal não se aplicava ao caso.
A África do Sul podia invocar sua imunidade contra a ação movida sobre a prata.
A decisão reverteu o resultado obtido anteriormente pela Argentum nas instâncias inferiores.
Resgate de US$ 43 milhões não significava direito automático ao tesouro
O caso também mostra por que localizar um tesouro no fundo do mar não significa automaticamente se tornar seu proprietário.
Quando as barras chegaram à Inglaterra, a Argentum não pôde simplesmente vendê-las e ficar com o dinheiro.
A empresa declarou formalmente o material recuperado e a disputa sobre propriedade e salvamento avançou pelos tribunais britânicos.
Em valores de 2020, as 2.364 barras eram avaliadas em aproximadamente US$ 43 milhões.
Essa avaliação, porém, não representa necessariamente o preço atual da prata nem o valor pelo qual a carga eventualmente poderia ser comercializada.
Trata-se da estimativa utilizada durante o período em que a disputa judicial ganhou repercussão.
O que estava em jogo era quem poderia exercer direitos sobre aquele patrimônio e se a empresa responsável pelo salvamento tinha direito a receber uma recompensa.
Acordo confidencial surgiu antes da decisão final
Há ainda um detalhe incomum no encerramento da história.
Pouco antes de a Suprema Corte divulgar sua decisão, África do Sul e Argentum chegaram a um acordo confidencial.
Mesmo assim, as partes pediram que o tribunal publicasse o julgamento.
A Suprema Corte considerou apropriado fazê-lo porque a discussão trazia consequências jurídicas mais amplas sobre imunidade de Estados e operações de salvamento marítimo.
Os termos do acordo não foram divulgados.
Por isso, não é possível afirmar publicamente quanto a Argentum recebeu, se houve alguma compensação ou qual foi o destino financeiro definitivo acertado entre as partes.
O sigilo também impede que o desfecho seja resumido simplesmente como uma transferência imediata das 60 toneladas sem qualquer negociação entre empresa e governo.
O que está público é a decisão jurídica: a Suprema Corte deu razão à África do Sul na questão da imunidade estatal.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

