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Duas belugas deixam aquário após anos em cativeiro, percorrem quase 10 mil km em 30 horas dentro de um Boeing 747 e cruzam caminhões e balsa até chegar ao primeiro santuário marinho aberto do mundo
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 20/08/2026 às 10:12
Atualizado em 20/08/2026 às 10:13
Ciência e Tecnologia
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Little Grey e Little White deixaram um aquário em Xangai e percorreram cerca de 9.650 km em uma operação de 30 horas com caminhões, Boeing 747 e balsa até o primeiro santuário marinho aberto para belugas, na Islândia.
Duas baleias-beluga que viviam em um aquário de Xangai protagonizaram em junho de 2019 uma das operações mais complexas já realizadas para transportar grandes mamíferos marinhos. Little Grey e Little White percorreram cerca de 6 mil milhas, aproximadamente 9.650 km, em uma jornada de cerca de 30 horas, usando caminhões, um Boeing 747 cargueiro e uma balsa até a ilha de Heimaey, na Islândia.
Segundo o SEA LIFE Trust, o destino era o primeiro santuário marinho aberto criado especificamente para belugas, instalado na baía de Klettsvík, nas ilhas Westman. A operação exigiu tanques construídos sob medida, macas adaptadas individualmente às dimensões das baleias, guindastes, equipes veterinárias e um Boeing 747-400ERF cedido pela Cargolux.
Little Grey e Little White haviam sido retiradas das águas russas ainda muito jovens
A história das duas belugas começou muito antes do gigantesco voo entre China e Islândia. Um relatório da Whale and Dolphin Conservation informa que Little White e Little Grey foram capturadas ainda muito jovens na região de Sakhalin-Amur, no mar de Okhotsk, no extremo leste da Rússia, por volta de 2008. Depois disso, permaneceram no Arctic Circle Dive Center, na Carélia.
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Em 2011, foram transferidas para o Changfeng Ocean World, em Xangai. O complexo foi adquirido pela Merlin Entertainments no ano seguinte, e a empresa passou a procurar uma alternativa para manter os animais em um ambiente mais próximo das condições naturais.
Cada beluga pesava mais de uma tonelada antes da viagem
Transportar uma baleia já seria uma operação delicada. Nesse caso, eram duas. O próprio santuário informa que Little Grey pesa aproximadamente 1.100 kg e mede cerca de 3,95 metros.
Little White é ligeiramente maior, com aproximadamente 1.200 kg e 3,97 metros. Ambas nasceram aproximadamente em 2007, segundo as estimativas mantidas pela instituição.
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Somadas, portanto, as duas belugas representam cerca de 2,3 toneladas de animais vivos, sem considerar água, equipamentos, estruturas de transporte e equipes de acompanhamento.
Elas também precisavam continuar respirando normalmente durante todo o percurso, já que belugas são mamíferos e sobem à superfície para respirar.
Macas e tanques foram construídos especialmente para cada baleia
A viagem começou em 19 de junho de 2019 no Changfeng Ocean World. Cada beluga foi colocada sobre uma maca desenvolvida especificamente de acordo com suas características físicas. Em seguida, os animais foram acomodados em tanques de transporte construídos especialmente para a operação.
Depois, guindastes levantaram as estruturas para colocá-las em dois caminhões.
Não era apenas uma questão de impedir que os animais se movessem. Durante todo o transporte, especialistas precisavam controlar conforto, temperatura, condições físicas e comportamento das baleias.
O planejamento envolveu profissionais com experiência em deslocamento de mamíferos marinhos e equipes veterinárias que acompanharam as duas belugas ao longo da jornada.
Dois caminhões levaram as belugas pelas ruas de Xangai até o aeroporto
A primeira etapa aconteceu por terra. Little Grey e Little White deixaram o aquário em dois caminhões separados e seguiram até o Aeroporto Internacional de Pudong, em Xangai.
Lá estava esperando a parte mais impressionante da operação: um cargueiro Boeing 747.
O avião havia sido preparado pela Cargolux especialmente para a missão e recebeu inclusive uma pintura relacionada às duas baleias. A empresa forneceu a aeronave, o voo e sua experiência em operações de carga complexas.
O modelo utilizado foi um Boeing 747-400ERF, versão cargueira do famoso jumbo quadrimotor.
Boeing 747 carregou duas belugas de Xangai até a Islândia
O avião deixou Xangai às 10h50 no horário local, segundo o SEA LIFE Trust. A bordo não estavam apenas Little Grey e Little White. Equipes responsáveis pelos animais, especialistas veterinários e um engenheiro da Cargolux acompanharam o voo para monitorar simultaneamente o bem-estar das baleias e as exigências operacionais da aeronave.
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O destino era o Aeroporto Internacional de Keflavík, na Islândia.
O Boeing pousou aproximadamente às 13h40 no horário local, encerrando a maior etapa aérea da transferência. Mas o pouso não significava que a viagem havia terminado.
Depois do avião, ainda havia caminhão e uma travessia de balsa
Após chegarem à Islândia, as duas baleias foram novamente transferidas para caminhões individuais.
Os veículos seguiram até Landeyjahöfn, onde embarcaram em uma balsa destinada à ilha de Heimaey. A travessia marítima levou cerca de 35 minutos.
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Ao desembarcarem, os caminhões ainda percorreram a curta distância restante até Klettsvík Bay.
Somente então Little Grey e Little White foram levadas para uma instalação terrestre do santuário, onde entraram em uma piscina especial de cuidados e passaram por avaliações após a viagem.
Da saída do aquário em Xangai até a chegada a Heimaey, haviam se passado aproximadamente 30 horas.
Quase 9.650 km separavam o aquário do novo destino
A organização descreve a distância total como 6 mil milhas, aproximadamente 9.650 km.
Essa escala ajuda a explicar por que o transporte envolveu tantos modais diferentes. Não existia uma rota simples capaz de levar duas belugas de um aquário urbano no leste da China até uma baía natural em uma ilha do Atlântico Norte.
A jornada precisou conectar aquário, estrada, aeroporto, transporte aéreo intercontinental, estrada novamente, porto, balsa e outra etapa rodoviária.
Além da distância, havia outro fator fora do controle humano: o clima islandês.
A operação originalmente prevista para abril de 2019 precisou ser adiada justamente porque condições severas do tempo e do mar impediam a etapa final até Heimaey.
Baía possui 32 mil metros quadrados e profundidade de até 11 metros
O destino escolhido oferece uma escala muito diferente de um tanque convencional.
Klettsvík Bay possui aproximadamente 32 mil metros quadrados e chega a cerca de 11 metros de profundidade, segundo o SEA LIFE Trust. A organização compara a área à de aproximadamente 17 quadras de tênis.
A intenção era permitir que as belugas experimentassem elementos naturais que não existiam da mesma maneira no ambiente de um aquário: água do mar, correntes, mudanças de profundidade, fauna local e condições climáticas externas.
O santuário não equivale, porém, a uma soltura completa na natureza. As baleias continuam recebendo alimentação, monitoramento veterinário e cuidados humanos permanentes.
Retorno efetivo ao mar aconteceu somente em agosto de 2020
Embora as duas belugas tenham chegado à Islândia em junho de 2019, a transferência para a parte marítima exigiu mais tempo de preparação.
Em 8 de agosto de 2020, Little Grey e Little White chegaram às piscinas de cuidado instaladas junto à baía. Segundo a organização, foi a primeira vez que voltaram ao mar desde que haviam deixado um centro russo em 2011.
A adaptação precisava ocorrer gradualmente.
Temperatura da água, correntes, vento, profundidade e sons naturais representavam estímulos diferentes daqueles experimentados pelas baleias durante anos de vida em instalações artificiais.
A equipe passou então a acompanhar continuamente alimentação, comportamento e adaptação das duas.
Em setembro de 2020, elas nadaram pela primeira vez na parte ampla da baía
O marco seguinte ocorreu em setembro de 2020.
Little Grey e Little White foram liberadas para explorar pela primeira vez a área mais ampla de Klettsvík Bay, sob monitoramento dos especialistas.
A experiência fazia parte de um programa gradual chamado de “Little Steps”, criado justamente porque a adaptação a um ambiente natural não poderia ser tratada como uma simples mudança de endereço.
As baleias mergulharam, exploraram a vegetação e tiveram contato com as características naturais da baía.
Mas o projeto também revelou que cada animal reagia de maneira diferente à nova realidade.
Viagem de 30 horas virou referência para uma discussão muito maior
O SEA LIFE Trust apresenta o santuário como uma alternativa possível para belugas que não podem simplesmente ser devolvidas à natureza.
Segundo a instituição, existem mais de 3 mil baleias e golfinhos mantidos em instalações tradicionais sob cuidados humanos ou utilizados em apresentações ao redor do mundo. O objetivo declarado do projeto islandês é demonstrar que santuários podem oferecer outra opção para pelo menos parte desses animais.
Little Grey e Little White transformaram essa ideia em um experimento concreto.
Para isso, foi necessária uma operação que começou em um aquário de Xangai, colocou duas baleias de mais de uma tonelada em estruturas construídas sob medida, atravessou continentes dentro de um Boeing 747-400ERF e terminou, cerca de 9.650 km e 30 horas depois, em uma pequena ilha diante da costa sul da Islândia.
A viagem terminou em 2019. A tentativa de descobrir qual é a melhor forma de adaptar duas belugas criadas durante anos em cativeiro a um ambiente marinho muito mais natural continua até hoje.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

