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Jardineiro baiano virou o “Gaudí brasileiro” após sair da roça, trabalhar como servente e viajar 34 horas até São Paulo, comprou aos poucos seu espaço em Paraisópolis e transformou uma ideia para proteger plantas em um castelo de concreto, pedras e objetos que passou a atrair visitantes estrangeiros
Escrito por Carla Teles
Publicado em 20/08/2026 às 19:04
Atualizado em 20/08/2026 às 19:06
Construção
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Estevão Silva da Conceição, conhecido como Gaudí brasileiro, construiu em Paraisópolis a Casa de Pedra ao combinar técnicas aprendidas na construção civil com concreto, ferro, arame, pedras, plantas e objetos reutilizados, criando um jardim suspenso iniciado a partir da necessidade de proteger uma roseira e ampliado continuamente por décadas artesanalmente.
O Gaudí brasileiro nasceu longe dos grandes projetos arquitetônicos que mais tarde seriam usados para comparar sua obra. Estevão Silva da Conceição cresceu em Santo Estevão, na Bahia, trabalhou na roça com os pais e, aos 18 anos, seguiu para Salvador como servente de pedreiro. Ainda naquele ano, enfrentou uma viagem de ônibus de 34 horas até São Paulo e começou uma trajetória profissional ligada diretamente à construção civil.
A história foi retomada pelo São Paulo Secreto em 9 de maio de 2024, ao apresentar a Casa de Pedra, em Paraisópolis, como obra de um artista conhecido pelo apelido de Gaudí brasileiro. O perfil de Estevão reunido por Oscar D’Ambrosio detalha sua trajetória profissional, a compra gradual dos espaços da propriedade e as técnicas utilizadas na construção, enquanto um guia de arquitetura paulistana registra a casa em um terreno de aproximadamente 75 m².
Da roça na Bahia para os canteiros de obras de São Paulo
Estevão nasceu em 4 de setembro de 1957, no município baiano de Santo Estevão. Na infância, participou do trabalho agrícola da família, plantando e colhendo no campo. Após estudar até a quarta série do antigo primário, deixou sua cidade aos 18 anos e passou seis meses em Salvador trabalhando como servente.
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A mudança seguinte foi muito maior. Ele embarcou com um amigo rumo a São Paulo e chegou depois de 34 horas de viagem. Primeiro viveu em alojamento de obra e trabalhou em uma construção em Guarulhos, onde ampliou os conhecimentos adquiridos anteriormente na Bahia. A experiência prática com cimento, ferro e estruturas seria decisiva décadas depois na formação da Casa de Pedra.
Construção civil levou Estevão por diferentes cidades
Antes de se estabelecer como jardineiro, Estevão passou por uma sequência de atividades ligadas ao trabalho manual e à construção. Atuou em depósito de materiais, como vigia e como montador, chegando a trabalhar em projetos no Rio de Janeiro, Araraquara, Campo Grande, Teodoro Sampaio, Serra Negra, Bragança Paulista, Osasco e Guarulhos.
Entre os trabalhos descritos estão montagem de estruturas, construção de caixas-d’água, participação em uma vila de casas, execução de um teto de grande altura e atuação em uma ponte. Esse percurso reuniu conhecimentos práticos de montagem que mais tarde apareceriam reinterpretados na arquitetura espontânea do Gaudí brasileiro.
Emprego como jardineiro aproximou construção e plantas
Em 1991, surgiu a oportunidade de trabalhar como jardineiro em um prédio. Como já gostava de plantas, Estevão assumiu a função e passou a dedicar mais atenção ao cultivo ao mesmo tempo em que continuava utilizando conhecimentos adquiridos nos canteiros.
A combinação das duas atividades se tornou central para entender a obra. O Gaudí brasileiro não separou construção e jardinagem: transformou ferro, concreto e vegetação em partes de uma mesma estrutura, criando caminhos, galhos artificiais e espaços para plantas na parte superior da residência.
Espaço em Paraisópolis foi comprado pouco a pouco
Entre 1977 e 1985, Estevão havia vivido principalmente em alojamentos de obras. Quando conseguiu estabelecer uma residência própria, mudou-se para Paraisópolis. A propriedade, porém, não surgiu pronta sob seu controle: segundo o perfil de Oscar D’Ambrosio, o espaço pertencia a diferentes donos e foi sendo adquirido gradualmente por Estevão.
Um guia dedicado à arquitetura de São Paulo registrou posteriormente a Casa de Pedra em um terreno de aproximadamente 75 m², com arcos cobertos por pedras, paredes tomadas por objetos e pequenos corredores que levam ao terraço. O mesmo material destaca as semelhanças visuais com a arquitetura de Antoni Gaudí.
Roseira levou à ideia de fazer o jardim subir
A transformação não começou com um plano para criar uma atração arquitetônica. Estevão inicialmente modificou o espaço para organizar plantas e proteger uma roseira que sofria danos. A partir dali surgiu a ideia de levar o jardim para cima, utilizando estruturas que imitavam galhos.
O que começou como uma solução ligada às plantas se expandiu verticalmente e passou a alterar toda a residência. O resultado acabou dividido em espaços como a Casa de Pedra, onde ficam sala e jardim, e a Casa das Estrelas, feita em madeira e utilizada como área mais reservada da família.
Madeira deu lugar a ferro, tela, cimento e pedras
Os primeiros trançados usados no jardim suspenso eram de madeira. Estevão depois removeu esse material e passou a trabalhar com ferros cruzados, tela de arame, cimento e areia, formando estruturas semelhantes a raízes e galhos.
Pedras foram incorporadas posteriormente, tanto para modificar a cobertura quanto para ajudar a criar um ambiente mais protegido para as plantas. A técnica artesanal do Gaudí brasileiro transformou materiais comuns da construção civil em formas curvas inspiradas visualmente na natureza.
Pratos quebrados e objetos usados passaram a revestir paredes
A ornamentação avançou quando um prato azul quebrado foi colocado na parede. Depois vieram canecas, bolinhas de gude, miniaturas, telefones, celulares, cerâmicas, relógios, garrafas e diversos outros objetos presos à argamassa.
Parte dessas peças foi encontrada em bazares, enquanto outros materiais vinham de diferentes pontos da cidade. O perfil relata compras de pedras no Ceasa, bolinhas de gude na região da Rua 25 de Março e ferro e cimento em Paraisópolis. Assim, materiais de origens distintas foram sendo incorporados continuamente à construção.
Comparação com Antoni Gaudí apareceu depois que a obra já existia
Um ponto importante da história é que Estevão não começou a Casa de Pedra tentando reproduzir conscientemente Antoni Gaudí. Segundo o perfil consultado, ele conheceu melhor o trabalho do arquiteto catalão apenas em 2000, quando uma estudante de arquitetura visitou sua casa e mostrou livros apontando semelhanças.
A comparação ganhou outra dimensão no ano seguinte. Organizadores ligados às comemorações dos 150 anos de nascimento de Gaudí localizaram trabalhos semelhantes ao redor do mundo e chegaram a Estevão. A obra do Gaudí brasileiro acabou registrada para um documentário espanhol, e o artista foi posteriormente convidado a Barcelona para conhecer pessoalmente construções do catalão.
Parque Güell mostrou semelhanças que Estevão não havia planejado
Durante a viagem, Estevão conheceu as obras de Gaudí e identificou maior proximidade com o Parque Güell. Entre os pontos em comum estavam estruturas artificiais que imitam elementos naturais, formas curvas e o uso de pedras sobre superfícies construídas.
Essa sequência altera a leitura da própria Casa de Pedra. As semelhanças que deram origem ao apelido Gaudí brasileiro foram identificadas quando o projeto de Paraisópolis já estava em desenvolvimento, em vez de resultarem de uma decisão inicial de copiar a arquitetura catalã.
Casa de Pedra entrou no roteiro arquitetônico de São Paulo
Com o passar dos anos, a residência deixou de chamar atenção apenas dentro de Paraisópolis. Um guia dedicado aos atrativos de São Paulo incluiu a Casa de Pedra entre as referências arquitetônicas da capital e registrou seus arcos, paredes ornamentadas e corredores internos.
O São Paulo Secreto também relata visitas de escolas e turistas internacionais, enquanto o perfil de Oscar D’Ambrosio menciona registros deixados por visitantes espanhóis, italianos e japoneses. Uma construção iniciada para acomodar plantas acabou se tornando um ponto procurado por pessoas interessadas em arquitetura, arte popular e soluções construtivas incomuns.
Obra continua crescendo sem projeto convencional de encerramento
A Casa de Pedra é descrita nas fontes como uma obra em processo. Estevão continuou incorporando materiais, plantas e objetos, fazendo com que a residência mudasse à medida que novas ideias eram executadas.
A história do Gaudí brasileiro mostra uma construção desenvolvida de forma incremental, na qual experiências de servente, montador, pedreiro e jardineiro convergiram para produzir uma arquitetura própria em Paraisópolis. O que mais chama sua atenção nessa obra: a técnica feita com materiais comuns, a transformação de um jardim em estrutura vertical ou o fato de as comparações com Gaudí terem surgido somente depois? Deixe sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

