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Artistas holandeses chegaram a uma favela do Rio, trabalharam com moradores e transformaram cerca de 7 mil metros quadrados de casas, ruas e escadarias do Santa Marta em uma gigantesca obra de arte urbana
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 20/08/2026 às 21:57
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Projeto O Morro cobriu fachadas e espaços da Praça Cantão com faixas coloridas, envolveu moradores na execução e transformou 34 construções do Santa Marta em partes de uma composição artística vista de diferentes pontos do Rio de Janeiro
Faixas amarelas, verdes, azuis, vermelhas e laranjas atravessam fachadas que parecem se encaixar umas nas outras. Vistas separadamente, são casas, muros, ruas e escadarias. Observadas à distância, porém, as construções passam a formar uma única composição colorida espalhada pelo morro.
A paisagem fica na comunidade de Santa Marta, no Rio de Janeiro, onde os artistas holandeses Jeroen Koolhaas e Dre Urhahn, conhecidos como Haas&Hahn, desenvolveram uma das intervenções mais conhecidas do projeto Favela Painting.
Em 2010, artistas e moradores trabalharam na transformação da Praça Cantão e de 34 construções ao redor, cobrindo aproximadamente 7 mil metros quadrados com um desenho de grandes faixas coloridas.
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O trabalho recebeu o nome de O Morro, ou The Hill, e transformou a própria arquitetura da comunidade em suporte para uma obra de arte urbana em escala monumental.
A história começou durante a produção de um documentário
A ligação de Jeroen Koolhaas e Dre Urhahn com as comunidades cariocas começou alguns anos antes da intervenção no Santa Marta.
Em 2005, os dois estavam no Brasil trabalhando na produção de um documentário sobre hip-hop nas favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo.
O contato com esses espaços despertou uma ideia diferente. Em vez de produzir obras destinadas somente a galerias, a dupla começou a imaginar grandes intervenções artísticas realizadas diretamente sobre construções e espaços públicos das comunidades.
Nascia a proposta que seria desenvolvida pelo Favela Painting.
O princípio era transformar áreas urbanas por meio da pintura, mas com um elemento fundamental: os próprios moradores participariam da realização das obras.
Vila Cruzeiro recebeu as primeiras grandes intervenções
Antes de chegar ao Santa Marta, Haas&Hahn desenvolveram projetos na Vila Cruzeiro, na Zona Norte do Rio.
Um dos primeiros trabalhos foi Boy with Kite, um mural de grandes proporções realizado com participação de jovens da comunidade.
Depois veio Rio Cruzeiro, intervenção ainda maior realizada sobre uma extensa estrutura de concreto destinada ao controle da água das chuvas.
Esses projetos ajudaram os artistas a testar algo que depois seria levado a outra escala: utilizar superfícies existentes na favela como partes de uma composição que ultrapassava os limites tradicionais de um mural.
O passo seguinte seria transformar não apenas uma parede ou estrutura, mas um conjunto inteiro de construções.
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Caio Aviz
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Santa Marta virou uma enorme tela ao ar livre
A área escolhida para essa nova experiência foi a Praça Cantão, no Santa Marta.
A comunidade ocupa uma encosta da Zona Sul do Rio e pode ser observada de diferentes pontos da cidade. Foi nesse cenário que Haas&Hahn começaram a planejar uma composição capaz de atravessar diferentes superfícies.
Em vez de cada fachada receber uma pintura independente, o desenho foi pensado para funcionar em conjunto.
As grandes faixas coloridas atravessaram paredes, contornaram janelas, avançaram por construções vizinhas e acompanharam os diferentes níveis da arquitetura do morro.
Assim, 34 construções e os espaços ao redor passaram visualmente a integrar uma única obra.
O resultado ocupou aproximadamente 7 mil metros quadrados, criando uma composição que muda conforme o ponto de observação.
Moradores participaram da transformação das próprias casas
A execução não ficou apenas nas mãos dos dois artistas holandeses.
Moradores foram contratados e treinados para trabalhar na pintura, transformando a participação comunitária em uma parte central do projeto.
Houve orientação sobre aplicação de diferentes tipos de tinta e também sobre procedimentos de segurança para trabalhos realizados em andaimes.
Dessa forma, pessoas que viviam naquele espaço participaram diretamente da transformação das fachadas e áreas de circulação que faziam parte de sua rotina.
Esse envolvimento ajudou a diferenciar O Morro de uma intervenção artística simplesmente instalada por visitantes.
A obra passou a ser construída com a participação de quem vivia entre aquelas casas, ruas e escadarias.
Casas separadas passaram a formar uma única composição
O impacto visual está justamente na escala.
Uma casa pintada isoladamente poderia ser observada como uma fachada colorida. No Santa Marta, porém, a repetição e a continuidade do desenho fizeram dezenas de estruturas funcionarem juntas.
As linhas atravessam diferentes alturas e volumes da comunidade.
Telhados, paredes, janelas, escadas e passagens interferem no desenho e, ao mesmo tempo, tornam-se elementos dele.
A arquitetura irregular do morro deixou de funcionar apenas como suporte e passou a determinar a aparência final da pintura.
Por isso, a obra não pode ser entendida da mesma maneira que um mural tradicional. O próprio conjunto urbano se tornou parte da composição artística.
Projeto buscava fortalecer pertencimento e orgulho comunitário
O Institute for Public Art registra O Morro como uma experiência de arte pública realizada com participação comunitária e destaca elementos como esperança, orgulho da comunidade e sentimento de pertencimento.
A proposta também procurava alterar a maneira como aquele espaço era observado de fora.
Em vez de reduzir a comunidade às imagens normalmente associadas à pobreza e à violência, o projeto apresentava outra possibilidade de representação: um território reconhecido também pela criatividade de seus moradores e por uma intervenção artística construída coletivamente.
A pintura não eliminou os problemas sociais existentes nem tinha capacidade de substituir políticas públicas.
Seu papel estava em outra dimensão: utilizar a arte para modificar visualmente o espaço e criar uma imagem produzida a partir da colaboração entre artistas e moradores.
O Morro transformou a arquitetura em arte urbana
O projeto concluído em 2010 mostrou como uma intervenção relativamente simples em seus materiais poderia ganhar proporções monumentais quando aplicada à escala de uma comunidade.
Tinta, fachadas, muros, ruas e escadarias foram reunidos em uma composição de aproximadamente 7 mil metros quadrados.
O que antes eram dezenas de superfícies independentes passou a ser percebido como uma grande imagem espalhada pela encosta.
Mais do que pintar casas individualmente, Haas&Hahn e os moradores transformaram uma parte do Santa Marta em uma obra que só existe daquela maneira porque utiliza a própria arquitetura da favela como tela.
O projeto também manteve um princípio que acompanhava a dupla desde suas primeiras experiências no Rio: envolver moradores na execução e utilizar a arte pública como ferramenta para produzir novas formas de olhar para a comunidade.
De uma viagem para produzir um documentário surgiu uma colaboração que atravessou diferentes favelas cariocas e, no Santa Marta, alcançou uma escala incomum: 34 construções e cerca de 7 mil metros quadrados integrados por cores em uma única paisagem artística.
Você acredita que projetos de arte realizados junto aos moradores podem mudar não apenas a aparência de uma comunidade, mas também a maneira como ela é vista por quem está do lado de fora? Compartilhe sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

