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Duas estudantes brasileiras criam produto para conter incêndios, que pode virar adubo após o uso e agora disputa prêmio de US$ 1 milhão
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 22/08/2026 às 08:12
Atualizado em 22/08/2026 às 08:13
Ciência e Tecnologia
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Estudantes da PUC-PR criaram retardante biológico contra incêndios florestais e avançaram no Hult Prize 2026 como representantes do Brasil.
Estudantes de Biotecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) estão transformando uma pesquisa universitária em uma possível solução comercial para incêndios florestais. Mariah Fraulo Cavalcante e Taciane Beatriz Ferreira desenvolveram o BIODEFENSER®, um retardante de chamas de origem biológica que já conseguiu apagar fogo em testes laboratoriais e agora avança para etapas de validação maiores, enquanto a dupla representa o Brasil no Hult Prize 2026.
O projeto ainda não chegou à aplicação em grande escala, mas já ultrapassou a fase de uma simples proposta acadêmica. As estudantes trabalham na definição final da formulação, preparam pedidos de patente e estudam a criação de uma empresa derivada da universidade.
Paralelamente, instituições públicas podem participar das próximas avaliações para verificar eficácia, estabilidade e efeitos ambientais antes de uma eventual produção comercial. As informações foram publicadas pela Agência Brasil em 30 de junho de 2026.
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Produto das estudantes busca continuar atuando depois do primeiro contato com o fogo
A proposta do BIODEFENSER® não se limita a apagar uma chama já existente. O material foi pensado para formar uma barreira térmica capaz de diminuir a intensidade e a propagação do fogo, além de permanecer aderido ao solo e à vegetação depois da aplicação. Essa camada prolongaria a proteção da área e poderia dificultar o aparecimento de novos focos.
Outro ponto diferencia a solução dos retardantes inorgânicos citados pelos pesquisadores. Como o produto utiliza um biopolímero, o resíduo deixado após o uso poderá ter efeito benéfico no solo, em vez de representar uma nova fonte de contaminação. O professor Luiz Fernando Bianchini, orientador da pesquisa, afirmou que esse material residual pode até funcionar posteriormente como fertilizante ou adubo.
A tecnologia também foi pensada para reduzir impactos sobre fauna e flora. Segundo Mariah, a formulação busca combater os incêndios sem introduzir substâncias prejudiciais ao ecossistema e ainda pode diminuir a quantidade de água necessária durante o combate. A confirmação dessas vantagens, entretanto, depende das etapas técnicas que ainda serão realizadas fora dos testes iniciais conduzidos na universidade.
Próximo desafio é saber como a formulação reage fora do laboratório
Os resultados obtidos até agora foram produzidos em ambiente laboratorial, onde o retardante conseguiu extinguir as chamas utilizadas nos experimentos. Isso representa uma etapa importante, mas não significa que o comportamento já esteja comprovado em uma área florestal ou diante de um incêndio de maiores proporções. As próprias pesquisadoras reconhecem que a escala precisa aumentar antes dessa conclusão.
A expectativa é avançar para testes mais próximos das condições reais. A Embrapa Florestas ofereceu a possibilidade de avaliar o produto em campo e também examinar o que acontece com seu resíduo depois da aplicação. Outra frente poderá utilizar uma câmara de combustão da Universidade Federal do Paraná para medir com mais precisão o desempenho do retardante.
Antes dessas parcerias externas, a equipe pretende concluir as verificações internas na PUC-PR. O objetivo é chegar a uma formulação considerada estável e eficiente para só então ampliar os experimentos. Bianchini aponta que dados consistentes de eficácia e estabilidade serão fundamentais para buscar investidores e transformar a pesquisa em uma operação capaz de produzir o material em escala.
Ideia nasceu de uma pergunta sobre o que acontece depois da detecção
A origem do projeto está ligada à convivência de Mariah com o tema dos incêndios desde a infância. O pai da estudante possui uma empresa dedicada à detecção de incêndios florestais, o que colocou a jovem em contato precoce com sistemas de monitoramento e com as dificuldades relacionadas ao avanço rápido das chamas.
Foi a partir dessa experiência que uma dúvida ganhou importância: detectar o fogo é essencial, mas o que poderia ser utilizado para impedir que ele continuasse avançando? Ao pesquisar os produtos empregados nessa resposta, Mariah passou a questionar as consequências ambientais de algumas soluções químicas e decidiu procurar uma alternativa baseada em materiais que não produzissem o mesmo tipo de impacto.
O primeiro passo institucional aconteceu no fim de 2024, durante o Health Innovation PUC-PR, promovido pela Escola de Medicina e Ciências da Vida. A ideia venceu a disputa e depois foi selecionada para um projeto de iniciação em desenvolvimento tecnológico e inovação da universidade, o que permitiu que a pesquisa entrasse efetivamente no laboratório sob orientação de Bianchini.
R$ 10 mil financiaram os primeiros materiais e equipamentos
O BIODEFENSER® começou com recursos muito menores do que os necessários para uma futura escala industrial. Depois da aprovação inicial, Mariah participou de outro programa de empreendedorismo e pesquisa da PUC-PR, alcançou a primeira colocação e recebeu R$ 10 mil para avançar na ideia.
O dinheiro foi direcionado à compra dos primeiros materiais e equipamentos. Naquele momento, Mariah ainda conduzia a iniciativa sozinha. Taciane, amiga desde o início da graduação, passou a integrar o projeto em 2025 e trouxe para a pesquisa o mesmo interesse em desenvolver uma solução com benefício coletivo.
A entrada da segunda estudante ajudou a consolidar uma equipe que hoje trabalha simultaneamente em ciência e empreendedorismo. O grupo não precisa apenas descobrir se a substância funciona: também está sendo obrigado a pensar em produção, propriedade intelectual, parceiros, financiamento e na forma como a tecnologia poderia chegar efetivamente ao mercado.
Patente pode definir como tecnologia será produzida
As estudantes já começaram os procedimentos para buscar proteção intelectual no Brasil e no exterior. A intenção é preservar os direitos sobre a tecnologia antes de ampliar as negociações com laboratórios, empresas e potenciais investidores interessados em transformar a pesquisa em produto.
Uma das possibilidades é criar uma spin-off, modelo de startup que nasce diretamente de pesquisas desenvolvidas dentro de universidades. Nesse cenário, Mariah e Taciane poderiam buscar capital para implantar uma estrutura industrial e coordenar a produção do retardante. Outra alternativa seria licenciar a tecnologia para uma empresa ou laboratório já estabelecido.
Bianchini considera a patente um passo decisivo porque amplia as opções futuras das pesquisadoras. Elas poderiam participar diretamente da fabricação ou autorizar outra organização a produzir o material, mantendo participação no negócio. A decisão dependerá da confirmação do desempenho técnico e da capacidade de levantar recursos para os próximos estágios.
Hult Prize colocou estudantes brasileiras entre milhares de equipes
Enquanto a tecnologia avança dentro da universidade, o projeto também ganhou projeção internacional por meio do Hult Prize 2026. A competição recebeu cerca de 18 mil equipes de diferentes partes do mundo e desafia universitários a estruturar negócios capazes de enfrentar problemas globais.
Mariah e Taciane venceram inicialmente a fase promovida na PUC-PR e depois conquistaram a primeira colocação na etapa seguinte disputada em São Paulo. Com o resultado, tornaram-se as únicas representantes brasileiras ainda envolvidas na competição internacional.
O processo possui sucessivas reduções no número de participantes. O grupo brasileiro estava entre 90 equipes que continuavam na disputa; desse conjunto, 20 seriam escolhidas para uma etapa em Londres. Em seguida, apenas oito projetos chegariam à definição do vencedor, prevista para setembro. O prêmio principal é de US$ 1 milhão em investimento seed para colocar o negócio em funcionamento.
Prêmio internacional pode acelerar produção, mas projeto não depende apenas da disputa
Para as pesquisadoras, a diferença entre os recursos obtidos até agora e a premiação internacional mostra a escala que o BIODEFENSER® poderia alcançar caso avance no Hult Prize. O projeto chegou às etapas atuais após receber R$ 10 mil na universidade, valor que Mariah comparou a aproximadamente US$ 2 mil.
Um investimento de US$ 1 milhão permitiria pensar em desafios muito maiores, como estrutura produtiva, equipamentos, desenvolvimento empresarial e preparação para levar a solução a outros mercados. Ainda assim, o orientador destaca que a pesquisa já possui resultados independentes do desfecho da competição, principalmente porque a equipe avançou até o estágio de proteção da propriedade intelectual.
O planejamento divulgado previa tentar levar o produto ao mercado no segundo semestre de 2026. Para que isso aconteça, porém, a formulação precisa avançar nas verificações de eficácia e segurança, e a equipe busca laudos que ajudem a demonstrar o desempenho ambiental esperado.
Incêndios colocam problema em escala muito maior que o laboratório
A dimensão da iniciativa fica mais clara quando comparada aos números associados aos incêndios florestais. Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil registrou 10.442 focos, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais apresentados na reportagem.
Assista o vídeo
No cenário global, a World Weather Attribution apontou mais de 150 milhões de hectares de vegetação queimados durante o mesmo período. Já o relatório State of Wildfires registrou que os incêndios florestais emitiram 8,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono em 2024, além de provocarem prejuízos financeiros superiores a US$ 250 bilhões.
Esses números ajudam a explicar por que uma solução criada dentro de um laboratório universitário pode despertar interesse além do ambiente acadêmico. O problema que as estudantes tentam enfrentar atravessa países, exige grandes recursos públicos e privados e produz consequências ambientais que continuam mesmo depois que as chamas são controladas.
Estudantes tentam transformar pesquisa em ferramenta para combater incêndios
O desafio do BIODEFENSER® agora é passar da demonstração inicial para uma tecnologia tecnicamente validada e capaz de ser fabricada. Para isso, Mariah e Taciane precisam concluir a formulação, ampliar os testes, confirmar segurança ambiental, avançar na patente e definir de que maneira uma futura empresa poderia produzir o retardante em escala.
A trajetória já levou o projeto de uma competição interna da PUC-PR a uma disputa internacional que começou com milhares de equipes. Mais importante, porém, é que a proposta passou a envolver laboratórios, pesquisadores e possíveis instituições parceiras capazes de testar aquilo que até agora apresentou resultados em condições controladas.
Se as próximas avaliações confirmarem o desempenho esperado, as estudantes poderão transformar uma pergunta surgida a partir do problema dos incêndios em uma tecnologia com aplicação muito além da universidade. O salto decisivo não será apenas vencer uma competição, mas demonstrar que um retardante biológico desenvolvido no Paraná consegue proteger áreas reais sem criar um segundo problema ambiental depois que o fogo desaparece.
Fonte
Agência Brasil
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

