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Na Austrália, homem enterra parte da casa, enche paredes com pneus e terra, usa tubos subterrâneos e massa térmica para manter o interior entre 20 °C e 24,5 °C o ano inteiro sem aquecedor nem ar-condicionado
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 24/08/2026 às 20:39
Construção
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Casa Earthship na Austrália usa pneus cheios de terra, massa térmica, tubos subterrâneos e energia solar passiva para manter o interior entre 20 °C e 24,5 °C sem climatização.
Em East Augusta, na Austrália Ocidental, Clive Digney construiu uma residência projetada para praticamente eliminar a necessidade de aquecimento e refrigeração mecânicos. A chamada Earth 1 combina paredes maciças feitas com pneus preenchidos por terra compactada, contato intenso da construção com o solo, orientação solar, ventilação natural e grande massa térmica.
Segundo a Earthship Eco Homes, sensores instalados no imóvel registraram temperaturas internas aproximadamente entre 20 °C e 24,5 °C, mesmo sem o uso de aquecedor ou ar-condicionado.
A casa foi desenvolvida a partir do conceito Earthship criado pelo arquiteto norte-americano Michael Reynolds e adaptado ao clima da Austrália Ocidental.
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A casa usa o próprio terreno como uma enorme reserva térmica
O princípio central está na chamada massa térmica. Materiais pesados e densos armazenam calor lentamente e também demoram para liberá-lo.
Em uma casa convencional leve, uma mudança brusca de temperatura externa pode ser transferida relativamente rápido para os ambientes. Em uma Earthship, grande parte das paredes possui enorme quantidade de terra compactada.
Além disso, parte da residência é protegida pelo próprio terreno. O solo apresenta variações de temperatura muito menores e mais lentas do que o ar externo, funcionando como um amortecedor contra extremos climáticos.
Pneus velhos passam a funcionar como blocos gigantes de parede
Um dos elementos mais conhecidos da arquitetura Earthship é o uso de pneus descartados preenchidos com terra compactada.
Os pneus funcionam como recipientes resistentes. A terra é colocada dentro deles e compactada até formar unidades extremamente densas, que depois são empilhadas e integradas à estrutura.
Segundo a Earthship Eco Homes, um projeto residencial típico de três quartos pode empregar aproximadamente 800 a 1.000 pneus, embora esse número varie conforme tamanho, desenho e configuração da residência.
A quantidade exata utilizada na Earth 1 de East Augusta não é informada pelas fontes consultadas. Por isso, não é correto atribuir ao projeto um número específico de pneus.
A função dos pneus não é apenas reaproveitar resíduos
O benefício ambiental de retirar pneus do fluxo de descarte é evidente, mas tecnicamente a função mais importante da parede é outra.
Depois de preenchido e compactado, cada pneu passa a carregar grande quantidade de terra. Centenas deles formam paredes extremamente espessas e pesadas.
Essa massa consegue absorver energia durante períodos mais quentes e liberá-la lentamente quando a temperatura cai. O objetivo é suavizar os extremos em vez de permitir que o interior acompanhe diretamente cada alteração do clima externo.
As paredes são posteriormente revestidas. Portanto, o morador não vive dentro de uma sala com pneus expostos.
Parte da residência é protegida pelo próprio solo
O contato com o terreno amplia ainda mais a massa térmica disponível. Em vez de deixar todas as paredes diretamente expostas ao Sol, vento e mudanças rápidas do ar, a arquitetura Earthship tradicional utiliza terra junto a partes importantes da construção.
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O resultado é semelhante ao princípio observado em ambientes subterrâneos, cuja temperatura tende a variar muito menos ao longo de um único dia do que a temperatura na superfície.
Isso não significa que simplesmente enterrar uma casa seja suficiente para eliminar o ar-condicionado. Um projeto desse tipo também precisa lidar com drenagem, impermeabilização, ventilação, insolação e características específicas do terreno.
Tubos subterrâneos ajudam a controlar o ar que entra
Outra ferramenta adotada em Earthships são os chamados earth tubes, tubos que atravessam o solo antes de levar ar externo aos ambientes internos.
A lógica é aproveitar novamente a estabilidade térmica do terreno. Se o ar exterior estiver muito quente, sua passagem por um tubo cercado por solo mais frio pode reduzir sua temperatura antes de ele entrar na residência. Em determinadas condições de frio, o processo pode ajudar no sentido inverso.
O sistema não equivale a um ar-condicionado tradicional. Não existe compressor removendo calor ativamente do ambiente. A estratégia usa troca térmica passiva com o terreno e diferenças naturais de pressão para auxiliar a ventilação.
O Sol também faz parte da climatização
Uma Earthship não tenta simplesmente bloquear toda a radiação solar. A orientação da construção é planejada para aproveitar o Sol quando sua energia é útil e controlar sua entrada quando poderia provocar superaquecimento.
A área frontal envidraçada característica desse tipo de residência pode permitir que a radiação aqueça superfícies internas. Essas superfícies e as paredes de elevada massa térmica absorvem parte dessa energia.
Posteriormente, o calor acumulado pode ser liberado de maneira gradual. O dimensionamento das áreas envidraçadas, dos beirais e das sombras é essencial para impedir que o mesmo sistema que ajuda durante o frio transforme a residência em uma estufa durante períodos quentes.
Sensores registraram entre 20 °C e 24,5 °C no interior
O ponto mais forte da experiência de East Augusta é que o desempenho térmico não foi apresentado apenas como impressão dos moradores.
A Earthship Eco Homes informa que a residência recebeu sensores conectados à internet, capazes de acompanhar temperatura e umidade ao longo do tempo.
A página dedicada à Earth 1 informa que as medições são registradas em intervalos de aproximadamente cinco minutos.
Os dados divulgados pelo projeto indicam que a temperatura interna permaneceu aproximadamente entre 20 °C e 24,5 °C, mesmo sem aparelhos convencionais destinados a aquecer ou refrigerar os ambientes.
A estabilidade importa mais que simplesmente atingir 24 °C uma vez
Uma construção eficiente não precisa apenas alcançar uma temperatura agradável em determinado momento. O desafio é impedir grandes oscilações ao longo do dia.
Quando uma residência convencional recebe forte radiação solar, paredes, telhado e janelas podem transmitir calor rapidamente. Depois que o Sol desaparece, o comportamento muda novamente.
A Earthship utiliza massa térmica justamente para retardar esse processo. A temperatura interna responde mais lentamente às condições externas, evitando acompanhar imediatamente cada pico ou queda.
Essa característica explica por que o acompanhamento contínuo por sensores é mais importante do que uma medição isolada feita em determinado horário.
Mais de 50 pessoas participaram da construção
A Earth 1 também funcionou como projeto demonstrativo e educacional. Segundo a Earthship Eco Homes, mais de 50 pessoas trabalharam diariamente durante um workshop de aproximadamente quatro semanas realizado em 2019.
O projeto reuniu Clive Digney, Michael Reynolds, Harrison Gardner e Martin Freney, fundador da Earthship Eco Homes na Austrália.
A residência foi baseada no conceito chamado Encounter Earthship e adaptada às necessidades locais.
Construir na Austrália exigiu adaptações
Esse ponto é importante porque arquitetura passiva depende diretamente do clima. Uma estratégia eficiente em uma região seca e com grande diferença entre temperaturas diurnas e noturnas pode não produzir o mesmo resultado em uma região tropical extremamente úmida.
Temperatura do solo, umidade, incidência solar, direção dos ventos, precipitação e risco de incêndio alteram as decisões de projeto.
A própria Earthship Eco Homes trabalha com adaptações específicas para diferentes regiões australianas em vez de simplesmente reproduzir o mesmo desenho em qualquer lugar.
Madeira reaproveitada e resíduos entram na construção
A Earth 1 também incorpora materiais reaproveitados. A administração de Augusta Margaret River destaca o projeto como exemplo regional de construção que utiliza pneus, garrafas e latas, além de outras estratégias relacionadas à redução de resíduos.
Madeira reaproveitada da Austrália Ocidental também aparece entre os materiais utilizados no projeto.
O objetivo é diminuir a dependência de determinados materiais convencionais e transformar itens normalmente descartados em componentes permanentes da residência.
Reduzir climatização muda toda a conta energética
Ar-condicionado e aquecimento podem representar uma parcela expressiva do consumo energético de uma residência, especialmente em regiões de temperaturas extremas.
Eliminar ou reduzir fortemente essa carga permite diminuir a potência necessária do sistema fotovoltaico e também a capacidade de armazenamento em baterias.
Esse é um dos motivos pelos quais arquitetura passiva não deve ser vista apenas como escolha estética. Quanto menor for a necessidade de corrigir artificialmente a temperatura interna, menor será a infraestrutura energética necessária para manter condições confortáveis.
O projeto deu origem a uma nova proposta chamada Zero
Os resultados observados em East Augusta foram usados pela Earthship Eco Homes como base para uma evolução do conceito denominada Zero.
Segundo a organização, o nome está ligado ao objetivo de alcançar zero consumo de energia para aquecimento e resfriamento.
A experiência da Earth 1 mostrou aos projetistas que a combinação de massa térmica, ventilação e estratégias solares poderia manter temperaturas internas dentro de uma faixa confortável sem climatização ativa nas condições observadas em East Augusta.
Projetos posteriores passaram a incorporar também exigências relacionadas às normas australianas, incêndios florestais e outras condições locais.
A casa inteira substitui parte do trabalho que normalmente seria feito por máquinas
A Earth 1 é interessante porque não existe um equipamento milagroso responsável pela temperatura registrada. O efeito aparece quando diversos componentes trabalham simultaneamente.
As paredes de terra compactada armazenam energia. O solo reduz oscilações. Os tubos subterrâneos ajudam a condicionar o ar admitido. A orientação solar permite aproveitar ou bloquear radiação conforme necessário. A ventilação natural remove calor. A estrutura envidraçada participa do controle térmico.
Cada mecanismo isoladamente teria efeito limitado. Combinados, eles permitiram que a residência monitorada em East Augusta mantivesse o interior aproximadamente entre 20 °C e 24,5 °C sem aquecedor ou ar-condicionado, de acordo com os registros divulgados pelos responsáveis pelo projeto.
O resultado transforma uma ideia simples em uma abordagem radicalmente diferente da climatização convencional.
Em vez de construir uma casa que aquece e esfria rapidamente e depois gastar eletricidade tentando corrigir sua temperatura, Clive Digney construiu uma casa na qual toneladas de terra, paredes grossas, solo, Sol e circulação de ar fazem boa parte desse trabalho antes que uma máquina precise ser ligada.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

