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Aos 6 anos, menino de Pernambuco começou com animais em miniatura, usou sobras de barro da mãe, modelou bois, cavalos e bodes e virou referência em arte popular, museus e projeção internacional
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 24/08/2026 às 22:41
Atualizado em 24/08/2026 às 22:57
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Infância cercada pelo barro em Caruaru abriu caminho para uma produção dedicada a personagens, profissões, festas e costumes do Nordeste, levando cenas do cotidiano pernambucano a espaços culturais e consolidando Vitalino Pereira dos Santos como nome reconhecido da cerâmica figurativa brasileira.
Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos da cerâmica figurativa brasileira, Vitalino Pereira dos Santos começou a modelar, aos 6 anos, as sobras do barro usado pela mãe, transformando o material disponível em bois, cavalos, bodes e outras pequenas figuras.
Nascido em 10 de julho de 1909, no Sítio Campos, em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, o futuro ceramista cresceu em uma família ligada ao trabalho rural e à produção de louça, convivendo desde cedo com o barro dentro de casa.
Enquanto a mãe produzia utensílios domésticos para comercialização, Vitalino aproveitava o material restante para criar o que chamava de “loiça de brincadeira”, peças infantis que deixaram o ambiente doméstico e também passaram a acompanhar os produtos maternos levados à Feira de Caruaru.
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Do barro da infância à cerâmica figurativa
A partir daquela experiência iniciada em 1915, o repertório deixou de se limitar aos animais em miniatura e passou a incorporar personagens, profissões, festas, costumes e acontecimentos observados ao redor, aproximando gradualmente a produção de uma representação visual da vida nordestina.
Entre as cenas associadas ao trabalho do artista aparecem procissões, retirantes, músicos, vaqueiros, bandas de pífano, carros de boi, enterros na rede, desafios de violeiros, casas de farinha e agricultores retornando da roça acompanhados pela família.
Sem permanecer restrito ao universo rural, Vitalino também modelou personagens como dentistas, fotógrafos, advogados e costureiras, além de registrar o trem a vapor e outras situações que revelavam mudanças, profissões e experiências presentes no cotidiano observado no Agreste pernambucano.
Ao reunir vários personagens em uma mesma composição, o ceramista transformava pequenas peças em cenas reconhecíveis, nas quais gestos, posições e relações entre as figuras ajudavam a identificar trabalhos, encontros, deslocamentos e episódios ligados diretamente à experiência social de sua região.
Também fazia parte desse processo o barro massapê retirado da vazante do rio Ipojuca, levado em balaios até a casa, umedecido e mantido em depósito antes da modelagem, enquanto a etapa de queima ocorria em forno circular construído ao ar livre.
Mesmo quando surgiram mudanças na pintura e na identificação das peças ao longo dos anos, a matéria-prima continuou ligada ao ambiente em que Vitalino aprendera a trabalhar, preservando uma conexão direta entre a brincadeira iniciada na infância e a produção desenvolvida na vida adulta.
Feira de Caruaru abriu caminho para novos públicos
Fora do circuito em que as peças inicialmente circulavam, o trabalho alcançou outro patamar em 1945, quando o artista plástico Augusto Rodrigues organizou, no Rio de Janeiro, a primeira exposição de Vitalino na cidade, ampliando o contato da produção pernambucana com novos públicos.
Nesse processo de divulgação, os irmãos José, Elísio e João Condé e o colecionador Abelardo Rodrigues também aparecem entre os nomes associados à ampliação da visibilidade da chamada louça lúdica, contribuindo para que a obra ultrapassasse os limites de Caruaru.
Ainda que passassem a circular em espaços mais distantes, as figuras conservaram referências reconhecíveis do lugar de origem, apresentando vaquejadas, famílias, retirantes, músicos, trabalhadores e cenas do sertão que mantinham o cotidiano nordestino como eixo permanente da produção artística.
Em outro movimento importante para a preservação desse conjunto, Vitalino doou 250 peças ao Museu de Arte Popular de Caruaru, atendendo a uma solicitação da prefeitura e ampliando a presença institucional de uma produção construída entre referências rurais e urbanas.
A ligação com manifestações culturais também aparecia fora da cerâmica, já que Vitalino aprendeu a tocar pífano e formou sua própria banda aos 15 anos, experiência relacionada a um universo musical que posteriormente ganharia espaço entre personagens e cenas modelados pelo artista.
Alto do Moura mantém viva a trajetória de Mestre Vitalino
No Alto do Moura, onde aperfeiçoou sua produção, a residência em que Vitalino viveu, trabalhou e morreu tornou-se a Casa-Museu Mestre Vitalino, espaço destinado à preservação de peças, objetos e referências relacionadas à trajetória do ceramista e de sua família.
Depois dele, filhos, netos e bisnetos mantiveram vínculos com o trabalho artesanal, enquanto outros criadores ligados à temática regional desenvolveram caminhos semelhantes, fortalecendo uma tradição que ultrapassou a produção individual e passou a integrar a identidade cultural associada ao Alto do Moura.
Nesse ambiente de continuidade, Vitalino não tratava os seguidores como concorrentes e, segundo registros sobre sua trajetória, recebia sem ressentimento a reprodução de algumas figuras criadas por ele, favorecendo a circulação de conhecimentos e referências entre artesãos ligados à cerâmica figurativa.
Além da antiga residência transformada em museu, o Museu do Homem do Nordeste mantém trabalhos de Mestre Vitalino em seu acervo, ampliando a presença institucional de uma produção que começou com pequenas figuras moldadas a partir das sobras de barro utilizadas pela mãe.
Ao morrer em 20 de janeiro de 1963, aos 53 anos, Vitalino deixou uma produção que havia partido do ambiente familiar de Caruaru e alcançado circulação nacional e internacional, sem abandonar personagens, matérias-primas e experiências associadas ao cotidiano do Agreste pernambucano.
Décadas depois, o percurso iniciado com uma brincadeira infantil continua ligado à memória de Caruaru, às coleções museológicas e à tradição ceramista mantida por diferentes gerações, mostrando como cenas aparentemente comuns puderam ganhar permanência por meio das mãos de um artesão pernambucano.
Se pequenas figuras feitas com sobras de barro conseguiram levar personagens e costumes de Caruaru para museus e públicos distantes, quantas outras histórias semelhantes ainda podem estar surgindo silenciosamente dentro de casas, feiras e oficinas populares?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

