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Artista começou pintando carroças de catadores pelas ruas de São Paulo, reuniu voluntários, criou movimento nacional, lançou tecnologia para conectar trabalhadores à reciclagem e transformou cinzas de incêndios em mural de 1.000 m²
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 25/08/2026 às 00:37
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Uma carroça carregada de papelão, garrafas e outros materiais recicláveis atravessa uma avenida movimentada de São Paulo. Em meio aos carros e edifícios, cores fortes, desenhos e frases pintadas na estrutura chamam a atenção para quem a conduz.
O veículo não é apenas uma ferramenta de trabalho. Tornou-se uma obra de arte móvel e, principalmente, uma forma de apresentar à cidade um profissional que muitas vezes circula pelas ruas sem ser reconhecido.
A transformação começou com o artista paulistano Thiago Mundano, conhecido como Mundano. Em 2007, ele passou a pintar as carroças dos catadores de materiais recicláveis que encontrava pela capital paulista.
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O trabalho individual cresceu durante cinco anos até dar origem, em 2012, ao Pimp My Carroça, movimento que reuniu grafiteiros, voluntários e apoiadores para reformar carroças, oferecer serviços aos trabalhadores e tornar visível sua contribuição ambiental.
A primeira carroça pintada revelou trabalhadores ignorados pela cidade
Ao circular por São Paulo, Mundano observou que os catadores realizavam uma atividade essencial para a reciclagem, mas permaneciam praticamente invisíveis para grande parte da população.
Eles percorriam longas distâncias, recolhiam materiais descartados e faziam parte de uma cadeia ambiental importante. Apesar disso, enfrentavam preconceito, condições precárias de trabalho e pouco reconhecimento público.
Em 2007, Mundano encontrou no grafite uma maneira de interferir nessa realidade. A carroça, antes tratada apenas como instrumento de transporte, passou a funcionar como suporte para cores, desenhos e mensagens.
Segundo a história oficial do Pimp My Carroça, o artista percebeu que sua produção poderia promover visibilidade e autoestima para esses profissionais. Entretanto, também concluiu que pintar carroças sozinho não seria suficiente para ampliar o impacto da iniciativa.
A solução foi reunir outras pessoas em torno da mesma causa.
Financiamento coletivo transformou a ação artística em movimento
Em 2012, Mundano mobilizou sua rede e organizou um financiamento coletivo para realizar a primeira grande edição do Pimp My Carroça.
O evento aconteceu em 3 de junho daquele ano, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. As carroças foram submetidas a reformas estruturais e depois receberam pinturas produzidas por artistas convidados.
A programação não ficou restrita ao grafite. Catadores e seus familiares tiveram acesso a atendimentos, atividades culturais, cuidados pessoais e equipamentos relacionados ao trabalho.
Dezenas de trabalhadores participaram da primeira edição. Voluntários, artistas, apoiadores e pessoas que haviam contribuído financeiramente ajudaram a colocar a mobilização em funcionamento.
A carroça ganhou novas cores, mas a proposta não consistia apenas em alterar sua aparência. O objetivo era chamar atenção para quem puxava o veículo e mostrar que a reciclagem realizada nas ruas depende diretamente do trabalho dos catadores.
Carroças coloridas levaram a causa para outras cidades
Depois do primeiro evento, a proposta começou a ser reproduzida fora de São Paulo. Ações chegaram a cidades como Rio de Janeiro, Curitiba e Salvador, além de outros locais do Brasil.
O formato, atualmente chamado de Pimp My Carroça em Circuito, combina reforma estrutural, pintura artística e entrega de equipamentos de segurança. Voluntários também participam de atendimentos relacionados à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores e de suas famílias.
As carroças voltam às ruas renovadas e passam a circular como painéis móveis. Enquanto transportam materiais recicláveis, também carregam imagens capazes de atrair o olhar de motoristas, pedestres e moradores.
Com a expansão, o Pimp My Carroça deixou de representar apenas uma intervenção artística e consolidou-se como uma organização da sociedade civil voltada ao reconhecimento e à remuneração justa dos catadores.
Uma tecnologia social permitiu que outras pessoas ajudassem
A procura de pessoas interessadas em repetir a iniciativa levou à criação do Pimpex, em 2014.
A tecnologia social apresentou um passo a passo para que grupos e apoiadores pudessem reformar ou providenciar uma carroça para um catador por meio da participação coletiva.
Dessa maneira, a ação não precisava depender exclusivamente de um grande evento organizado pela equipe original. Pessoas de diferentes cidades poderiam mobilizar artistas, voluntários e parceiros locais.
A proposta preservava o princípio que acompanhava o projeto desde o início: utilizar a criatividade para melhorar condições materiais de trabalho e, ao mesmo tempo, mudar a forma como a sociedade enxerga os catadores.
A arte funcionava como ponto de partida. Ao redor dela, surgiam discussões sobre reciclagem, renda, segurança, mobilidade e reconhecimento profissional.
Cataki aproximou catadores de quem precisava descartar recicláveis
As conversas com os trabalhadores revelaram outra dificuldade. Muitas pessoas queriam encaminhar corretamente seus materiais recicláveis, mas não sabiam como encontrar um catador próximo.
Para responder a essa demanda, o movimento desenvolveu o Cataki, lançado em 2017. O aplicativo passou a conectar catadores a pessoas, empresas, escolas, condomínios e outros geradores de materiais.
A primeira versão funcionava como uma espécie de lista telefônica acompanhada por mapas. O propósito era reduzir a distância entre quem possuía materiais para entregar e quem poderia coletá-los.
De acordo com o Pimp My Carroça, o Cataki foi construído com a participação de catadores, desenvolvedores e colaboradores interessados em criar uma ferramenta adequada à realidade desses profissionais.
A tecnologia ampliou a proposta iniciada nas carroças. Se o grafite tornava o trabalhador visível no espaço urbano, o aplicativo ajudava a criar contatos e oportunidades de coleta.
Cooperativas também viraram espaços de arte urbana
A experiência acumulada nas ruas foi levada para os galpões de reciclagem. Em 2015, a Cooper Glicério recebeu a primeira edição institucionalizada do Pimp Nossa Cooperativa.
Além das reformas e pinturas nas carroças, artistas grafitaram o ambiente de trabalho e foram realizadas atividades culturais e atendimentos na área da saúde.
O programa passou a revitalizar cooperativas com murais, sinalização de segurança e intervenções artísticas. Em seus primeiros sete anos, mais de 40 cooperativas foram atendidas no Brasil, conforme a organização.
A iniciativa procurou melhorar não somente o aspecto visual desses espaços, mas também as condições de circulação, identificação e segurança dentro dos galpões.
Em 2019, surgiu ainda o Carroças do Futuro, dedicado ao desenvolvimento de protótipos destinados a reduzir o esforço físico imposto aos trabalhadores. O projeto incorporou inovação, energias renováveis e alternativas à tração exclusivamente humana.
Durante a pandemia, mobilização virou renda emergencial
Quando a pandemia de Covid-19 reduziu a circulação de pessoas e materiais, muitos catadores perderam parte significativa da renda.
O Pimp My Carroça e o Cataki organizaram uma campanha emergencial para transferir recursos diretamente aos trabalhadores. Segundo a entidade, mais de R$ 1 milhão foi distribuído a milhares de catadores com o apoio de pessoas, empresas e organizações.
A mobilização recebeu, em 2020, o Prêmio Empreendedor Social da Folha na categoria de resposta humanitária à pandemia.
O episódio mostrou que a rede criada a partir das primeiras carroças pintadas havia adquirido capacidade para atuar além das intervenções culturais, chegando à assistência social e à defesa de políticas públicas.
Cinzas de quatro biomas deram origem a mural de 1.000 m²
A atuação de Mundano também avançou para grandes obras de denúncia ambiental.
Em 2021, o artista percorreu mais de 10 mil quilômetros para recolher cinzas de incêndios na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado e na Mata Atlântica. Durante a viagem, encontrou bombeiros e voluntários envolvidos no combate às chamas.
O material foi transformado em pigmento para a criação de “O Brigadista da Floresta”, mural de aproximadamente 1.000 m² produzido na lateral de um edifício em São Paulo.
A obra retratou um brigadista cercado por áreas destruídas e animais atingidos pelo fogo. Mundano definiu a intervenção como um ato de “artivismo” e uma forma de utilizar vestígios da destruição para denunciar os incêndios.
A dimensão e os materiais empregados chamaram atenção internacional. A produção foi noticiada pela Reuters, em reportagem publicada pela Exame.
Das carroças às paredes, arte colocou causas sociais em movimento
A trajetória iniciada em 2007 transformou uma pintura feita em uma carroça em uma rede formada por artistas, catadores, profissionais de diferentes áreas e voluntários.
O Pimp My Carroça criou programas de reforma de veículos, revitalização de cooperativas, educação ambiental, inovação e mobilização política. O Cataki, por sua vez, levou a proposta para o ambiente digital e aproximou trabalhadores de quem precisava encaminhar materiais recicláveis.
As carroças coloridas permanecem como a imagem mais reconhecida do movimento. Contudo, elas representam uma questão maior: a presença de profissionais que retiram das ruas toneladas de materiais e contribuem diariamente para a reciclagem, embora nem sempre recebam reconhecimento ou remuneração compatíveis com esse trabalho.
Ao transformar instrumentos de trabalho em obras móveis e cinzas de incêndios em murais monumentais, Mundano aproximou arte urbana, tecnologia e ativismo ambiental sem abandonar o ponto que deu origem ao projeto: fazer a cidade enxergar quem sempre esteve diante dela.
Você acredita que a arte urbana pode mudar a maneira como a sociedade reconhece o trabalho dos catadores e sua importância para as cidades? Compartilhe sua opinião nos comentários.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

