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Brasileiros começam a contratar “filhas de aluguel” para levar pais e avós ao médico, fazer compras, ir ao banco e passear, transformando companhia em profissão em meio ao rápido envelhecimento da população e à falta de tempo das famílias
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 27/08/2026 às 15:49
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Profissionais são contratadas por famílias para buscar idosos em casa, acompanhá-los em consultas, exames, bancos, supermercados e passeios e depois levá-los de volta com segurança. O serviço, diferente do trabalho tradicional de cuidador, ganha visibilidade em meio ao rápido envelhecimento da população brasileira.
Levar a mãe ao médico, esperar durante um exame, acompanhar o pai ao banco ou simplesmente passar algumas horas ao lado de um idoso durante um passeio são atividades normalmente associadas à rotina familiar. No entanto, no Brasil, essas tarefas também começam a movimentar um tipo de serviço que vem chamando atenção pelo nome curioso: as chamadas “filhas de aluguel”.
A proposta é oferecer companhia e acompanhamento a pessoas idosas que continuam relativamente independentes, mas que precisam de alguém ao lado em determinados compromissos. Em muitos casos, quem contrata o serviço são filhos que trabalham durante todo o dia, moram em outras cidades ou até fora do país e não conseguem estar presentes em consultas, exames, compras e outras atividades da rotina.
Serviço transforma acompanhamento de idosos em fonte de renda
Um dos casos que ganhou repercussão nacional recentemente é o de Lucimara Camargo, moradora de Itu, no interior de São Paulo. Em reportagem exibida pela Record/R7, ela explicou que trabalha acompanhando idosos em diferentes compromissos e reforçou uma característica importante da atividade: não se apresenta como cuidadora, mas como acompanhante.
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O trabalho pode começar com uma mensagem enviada pela família pelo WhatsApp. Depois de combinar horário e destino, Lucimara busca o cliente e pode acompanhá-lo a consultas médicas, exames, sessões de fisioterapia, bancos, supermercados, shoppings, igrejas, eventos e passeios. Dependendo da situação, ela utiliza o próprio automóvel ou conduz o carro do próprio cliente.
Além do transporte, a profissional permanece ao lado da pessoa durante o compromisso e a leva novamente para casa. Para famílias que não conseguem interromper a rotina profissional ou que vivem longe dos pais, esse tipo de serviço acaba funcionando como uma alternativa para garantir que o idoso não precise enfrentar sozinho atividades que podem exigir deslocamento, espera ou auxílio.
Uma das clientes de Lucimara utiliza o serviço há aproximadamente dez anos. Os filhos vivem fora do Brasil, situação que tornou a acompanhante uma presença frequente em compromissos cotidianos. O caso ajuda a mostrar que, apesar da recente repercussão do termo, esse tipo de atividade não nasceu em 2026 e já existe no país há vários anos.
Consultas, cinema e passeios podem ser contratados separadamente
O mesmo modelo também aparece em outros estados. No Espírito Santo, a publicitária e motorista de aplicativo Luciana Moulin passou a oferecer acompanhamento depois de perceber, durante suas corridas, que muitos passageiros idosos reclamavam da dificuldade de depender dos filhos para realizar tarefas simples fora de casa.
Ela passou então a oferecer companhia para consultas, exames, idas ao cinema, teatro, restaurantes e até passeios turísticos. Segundo reportagem do Tribuna Online, em cerca de um mês de atividade Luciana já havia atendido seis pessoas e possuía outras três contratações agendadas, sinal de que existe demanda para um serviço que ocupa um espaço entre o transporte convencional e o cuidado permanente.
Os valores variam conforme o tipo de atividade. No caso divulgado no Espírito Santo, o acompanhamento para uma consulta médica podia começar em aproximadamente R$ 150, incluindo transporte. Passeios mais longos e turísticos chegavam a valores entre R$ 400 e R$ 800, dependendo principalmente da distância e do roteiro escolhido pelo cliente.
Ingressos, refeições e outras despesas são normalmente cobrados separadamente. O objetivo, porém, não é apenas transportar o idoso de um endereço para outro. A profissional acompanha a atividade, espera quando necessário e oferece uma presença de confiança até o retorno para casa.
“Filha de aluguel” não é necessariamente cuidadora de idosos
Apesar do nome, “filha de aluguel” não aparece como uma profissão específica e formalmente reconhecida com essa denominação na Classificação Brasileira de Ocupações. O termo funciona principalmente como uma maneira comercial de apresentar um serviço de acompanhamento destinado, em muitos casos, a idosos que ainda mantêm boa parte de sua autonomia.
Isso diferencia a atividade do trabalho de um cuidador de idosos, ocupação identificada na CBO pelo código 5162-10. Um cuidador pode exercer tarefas relacionadas ao bem-estar cotidiano, alimentação, higiene e acompanhamento contínuo, dependendo das necessidades da pessoa assistida.
Já as profissionais que utilizam o termo “filha de aluguel” normalmente concentram o serviço em deslocamentos, companhia e apoio pontual. A diferença é especialmente importante porque uma pessoa que necessita de atendimento de saúde, administração de medicamentos ou assistência especializada pode demandar um profissional com formação e responsabilidades diferentes das de um simples acompanhante.
Brasil já tem cerca de 36 milhões de pessoas acima dos 60 anos
O crescimento desse mercado está diretamente relacionado a uma mudança profunda na população brasileira. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam que o Brasil já possui cerca de 36 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, grupo equivalente a aproximadamente 17% dos habitantes do país.
O número também continua avançando rapidamente. Segundo o governo federal, a população idosa brasileira cresce em média aproximadamente 1,1 milhão de pessoas por ano. O Censo de 2022 havia registrado pouco mais de 32 milhões de brasileiros nessa faixa etária, mostrando a velocidade com que o envelhecimento populacional está transformando a estrutura do país.
As projeções do IBGE mostram que a mudança deve se aprofundar durante as próximas décadas. Pessoas acima dos 60 anos representavam 8,7% da população brasileira em 2000 e passaram para aproximadamente 15,6% em 2023. Para 2070, esse grupo poderá corresponder a quase 38% de todos os brasileiros.
Serviço existe há anos, mas ganha novo espaço com envelhecimento das famílias
Embora as “filhas de aluguel” tenham voltado aos holofotes em 2026, registros anteriores mostram que a atividade já estava presente no Brasil muito antes. Em 2018, por exemplo, já existiam reportagens sobre “filhos e netos de aluguel” em São Paulo e Espírito Santo oferecendo companhia para médicos, supermercados, bancos, shoppings e até viagens.
Em 2020, profissionais no Paraná também apareciam oferecendo serviços semelhantes para idosos que precisavam de alguém durante consultas, compras ou atividades de lazer. A diferença agora está no tamanho potencial desse mercado e na visibilidade conquistada por profissionais que transformaram uma necessidade cada vez mais comum das famílias brasileiras em atividade remunerada.
Com filhos trabalhando em jornadas extensas, parentes vivendo em outras cidades e milhões de brasileiros envelhecendo sem perder completamente sua independência, a demanda por acompanhamento tende a encontrar cada vez mais espaço. O serviço não substitui o vínculo familiar nem o trabalho especializado de cuidadores, mas mostra como o envelhecimento da população começa a criar novas profissões, serviços e formas de organização da rotina dentro das famílias brasileiras.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

