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O chão desce até 42 cm por ano sob uma das maiores capitais do mundo: bombeamento de água comprime o subsolo, desnivela bairros e transforma poucos centímetros em rachaduras acumuladas durante décadas
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 28/08/2026 às 10:39
Atualizado em 28/08/2026 às 10:40
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O chão sob a Cidade do México está afundando até 42 cm por ano, enquanto a retirada de água subterrânea comprime o subsolo e amplia rachaduras em ruas, prédios, tubulações e bairros inteiros.
O chão sob a Cidade do México está descendo em velocidades que chegam a 42 centímetros por ano em partes da região metropolitana, enquanto diferenças de apenas alguns centímetros entre bairros se acumulam e acabam fraturando ruas, edifícios e tubulações. Segundo a NASA, novos dados do satélite NISAR mostraram áreas afundando mais de 2 centímetros por mês entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, resultado de um processo associado principalmente à retirada de água subterrânea e à compactação dos sedimentos do antigo leito de lago sobre o qual a metrópole cresceu.
O fenômeno não começou agora. A subsidência é documentada há mais de um século e tornou-se um problema estrutural para uma região onde vivem cerca de 20 milhões de pessoas. O mais preocupante é que o terreno não baixa de maneira uniforme: enquanto algumas áreas permanecem relativamente estáveis, outras descem dezenas de centímetros por ano. É justamente essa diferença que pode desnivelar bairros, abrir fraturas e colocar sob tensão fundações, vias, redes hidráulicas e outras estruturas urbanas.
Satélites agora conseguem enxergar o chão descendo centímetro por centímetro
Em abril de 2026, a NASA divulgou um novo mapa produzido a partir do NISAR, missão conjunta da agência americana com a Organização Indiana de Pesquisa Espacial, a ISRO. As medições preliminares foram realizadas entre 25 de outubro de 2025 e 17 de janeiro de 2026.
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O radar encontrou regiões onde o terreno estava descendo mais de 2 centímetros por mês. A vantagem da tecnologia é conseguir medir pequenas mudanças de elevação repetidamente, inclusive durante a noite e através de nuvens.
Vista isoladamente, uma variação de alguns centímetros parece pequena. Quando o movimento continua durante anos ou décadas e acontece em velocidades diferentes de um bairro para outro, porém, a deformação acumulada passa a ser suficientemente grande para afetar estruturas construídas sobre aquele terreno.
Em algumas áreas, o afundamento já chega a 42 centímetros por ano
Medições apresentadas em maio de 2026 pelo Instituto de Geofísica da Universidade Nacional Autônoma do México, a UNAM, mostram que o problema pode ser ainda mais intenso em determinados pontos da região metropolitana.
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Segundo o pesquisador Enrique Cabral Cano, chefe do Serviço de Geodesia Satelital do instituto, Ciudad Nezahualcóyotl registra velocidades de até 423 milímetros por ano, equivalentes a 42,3 centímetros.
Dentro da própria Cidade do México, a UNAM mediu até 258 milímetros por ano em Iztapalapa, 201 milímetros em Venustiano Carranza, 177 milímetros em Iztacalco e 173 milímetros em Gustavo A. Madero. Tláhuac chegou a 273 milímetros por ano, enquanto Xochimilco registrou 224 milímetros.
Isso significa que a velocidade não é a mesma em toda a metrópole. E essa diferença é fundamental para entender por que a subsidência pode ser tão destrutiva.
O problema começa na água retirada debaixo da cidade
A Cidade do México cresceu sobre uma geologia incomum. Grande parte da região ocupa o antigo sistema de lagos do Vale do México, onde existem espessas camadas de sedimentos lacustres altamente compressíveis.
Sob essas camadas está o sistema aquífero usado para abastecer a população. Quando grandes volumes de água subterrânea são extraídos, a pressão nos poros do material diminui. Os sedimentos acima passam então por compactação.
A NASA também aponta que a extração extensa de água subterrânea, combinada com o peso do desenvolvimento urbano, contribui para a compactação do antigo leito de lago. O processo vem ocorrendo há mais de um século.
Em outras palavras, a cidade não está simplesmente descendo como uma única plataforma. Partes do material poroso debaixo dela estão sendo progressivamente comprimidas.
Quando um bairro afunda mais que outro, as estruturas começam a sentir
Se toda a região baixasse exatamente na mesma velocidade, muitos efeitos superficiais seriam menos severos. O perigo aumenta com o chamado afundamento diferencial, quando pontos separados por pequenas distâncias se movimentam de maneira distinta.
A UNAM explica que dados de satélite permitem identificar gradientes de deformação associados ao desenvolvimento de fraturas superficiais. Essas informações são utilizadas justamente para avaliar a vulnerabilidade urbana e auxiliar no planejamento territorial.
É essa deformação desigual que ajuda a explicar como centímetros aparentemente pequenos podem se transformar em problemas visíveis: uma extremidade de determinada estrutura pode descer mais rapidamente que a outra, impondo esforços para os quais aquela construção originalmente não foi projetada.
Ruas, prédios e tubulações já carregam as marcas do fenômeno
A NASA é direta ao descrever os efeitos observados ao longo das décadas. Segundo a agência, as alterações de elevação irregulares acumularam-se e provocaram fraturas em estradas, edifícios e tubulações de água.
O problema já atingiu também sistemas de transporte. A agência americana lembra que, nas décadas de 1990 e 2000, partes da região metropolitana chegavam a afundar aproximadamente 35 centímetros por ano, causando danos à infraestrutura, inclusive ao sistema de metrô.
A UNAM também relaciona a subsidência a danos em habitações, vias e infraestrutura urbana. O fenômeno, portanto, não é apenas uma curiosidade geológica detectada por satélite. Seus efeitos chegam à superfície e interferem diretamente na engenharia de uma das maiores concentrações urbanas do planeta.
Um monumento ganhou 14 degraus enquanto o terreno ao redor descia
Poucos lugares demonstram visualmente o processo como o Anjo da Independência, monumento inaugurado em 1910 na Paseo de la Reforma.
A estrutura possui cerca de 36 metros de altura. Ao longo das décadas, entretanto, o terreno ao redor foi afundando. Segundo a NASA, 14 degraus precisaram ser acrescentados à base do monumento à medida que a superfície urbana baixava em relação à fundação da estrutura.
A imagem resume o problema de uma forma que mapas de satélite nem sempre conseguem transmitir. O afundamento não precisa provocar uma queda súbita para modificar profundamente a cidade. Ele pode agir silenciosamente durante décadas.
Centímetros anuais tornam-se metros ao longo de gerações.
Há pontos onde o terreno já perdeu mais de 13 metros
O Sistema de Monitoramento do Afundamento do Vale do México, ligado ao Instituto de Engenharia da UNAM, registra que em alguns pontos do vale o assentamento acumulado desde 1862 alcança 13,5 metros.
O mesmo sistema informa que velocidades locais podem superar 40 centímetros por ano. O acompanhamento combina levantamentos históricos realizados por diversas instituições com medições modernas capazes de observar a evolução espacial da subsidência.
Isso ajuda a colocar os números anuais em perspectiva. Quarenta centímetros podem parecer pouco quando comparados às dimensões de uma metrópole. Mantida por décadas, essa velocidade altera completamente a relação entre construções, ruas, drenagem e terreno natural.
Estudos indicam que parte importante da deformação é irreversível
Uma pesquisa publicada em 2021 no Journal of Geophysical Research: Solid Earth reuniu 115 anos de dados de nivelamento, 24 anos de medições de radar interferométrico e 14 anos de informações de GPS para analisar a subsidência da região.
Os pesquisadores encontraram velocidades de até 50 centímetros por ano em determinados pontos e concluíram que a maior parte da deformação observada é praticamente irreversível.
Isso ocorre porque a compactação reduz permanentemente parte dos espaços existentes dentro das camadas de sedimentos. A UNAM reiterou em 2026 que, em aquíferos como o da Cidade do México, esse processo provoca perda irreversível de porosidade e reduz a capacidade natural de armazenamento de água.
O problema, portanto, cria um ciclo particularmente difícil: retirar água contribui para compactar o terreno e essa compactação pode reduzir justamente o espaço subterrâneo disponível para armazenar água.
O afundamento pode continuar por muitas décadas
O estudo de 2021 apresentou uma projeção de longo prazo ainda mais impressionante. Considerando a compactação do aquitardo superior, os pesquisadores estimaram que o processo poderia levar aproximadamente 150 anos para alcançar sua compactação total em determinadas condições.
A projeção calculou possibilidade de até 30 metros adicionais de subsidência em algumas regiões ao longo desse processo. Isso não significa que toda a Cidade do México descerá 30 metros, nem que a velocidade permanecerá constante em todos os lugares.
A estimativa mostra, porém, a escala temporal da transformação geológica. Mesmo mudanças na retirada de água não necessariamente fariam o terreno recuperar a elevação perdida, porque boa parte da compactação já ocorrida não é elástica.
Afundar também pode tornar a gestão da água ainda mais difícil
Existe uma contradição particularmente dura no caso mexicano. A extração de água subterrânea ajuda a sustentar uma metrópole gigantesca, mas também contribui para modificar fisicamente o reservatório geológico do qual essa água é retirada.
A pesquisa publicada no Journal of Geophysical Research alertou ainda para a migração de água de qualidade inferior das argilas para o aquífero produtivo à medida que ocorre a compactação. Os autores relacionam esse processo a possíveis impactos na qualidade da água.
A UNAM reforça que estratégias de mitigação são complexas porque o problema não possui apenas uma dimensão técnica. Abastecimento de água, crescimento urbano, infraestrutura e planejamento territorial estão conectados ao mesmo fenômeno.
O satélite transforma uma catástrofe lenta em algo que pode ser acompanhado quase em tempo real
A subsidência difere de um terremoto porque não precisa acontecer em segundos para produzir grandes prejuízos. Em comunicado anterior, pesquisadores da UNAM chegaram a descrever o fenômeno como uma espécie de catástrofe em câmera lenta, justamente porque seus efeitos se acumulam continuamente sobre a infraestrutura urbana.
O NISAR acrescenta agora uma ferramenta poderosa para acompanhar essa transformação. O satélite passa sobre as superfícies terrestres repetidamente e seu radar consegue identificar movimentos sutis do terreno. A missão monitora terras e gelo duas vezes a cada ciclo de 12 dias.
Com séries sucessivas de observações, pesquisadores podem identificar não apenas onde o solo desce, mas também onde aparecem mudanças de velocidade e fortes diferenças de deformação entre áreas próximas.
O perigo está justamente em algo que quase ninguém percebe acontecendo
Um morador não consegue observar o próprio bairro descendo alguns milímetros durante uma semana. Também dificilmente perceberá visualmente dois centímetros distribuídos ao longo de um mês.
Mas prédios, ruas, tubulações e sistemas de drenagem permanecem naquele terreno por décadas.
É aí que a escala muda. Os novos dados divulgados em 2026 mostram partes da região descendo centímetros por mês, enquanto a UNAM registra pontos da área metropolitana chegando a 42,3 centímetros por ano. Somados durante décadas e distribuídos de maneira desigual, esses movimentos ajudam a explicar rachaduras, desnivelamentos e danos que aparecem na superfície.
Sob uma das maiores regiões urbanas do mundo, portanto, existe uma transformação contínua que não precisa produzir um estrondo para alterar a cidade.
O chão baixa lentamente, os sedimentos se comprimem e os centímetros que quase ninguém consegue enxergar acontecendo acabam registrados em metros de deformação, ruas fraturadas e estruturas que precisam se adaptar a uma metrópole cujo próprio terreno continua mudando.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

