8 min de leitura
Homem compra quadro velho em feira só pela moldura, desmonta a peça e encontra uma primeira impressão da Declaração de Independência vendida depois por cerca de R$ 42,3 milhões
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 29/08/2026 às 11:34
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Quadro comprado só pela moldura escondia uma impressão de 1776 da Declaração de Independência que anos depois alcançaria R$ 42,3 milhões.
Em 1989, um analista financeiro da Filadélfia que nunca teve o nome divulgado pagou apenas US$ 4, cerca de R$ 20,79 pela cotação de 28 de agosto de 2026, por uma pintura deteriorada em um mercado de pulgas de Adamstown, na Pensilvânia. Ele queria praticamente apenas a moldura, mas, ao desmontá-la em casa, encontrou um papel dobrado escondido entre a pintura e o fundo de madeira. Segundo o Washington Post, especialistas identificariam aquele papel como uma impressão original da Declaração de Independência produzida em 1776.
Dois anos depois, ela foi vendida por US$ 2,42 milhões e, em 2000, alcançou US$ 8,14 milhões, cerca de R$ 42,3 milhões pela cotação atual, sem considerar inflação.
O documento não era uma reprodução comemorativa nem a famosa folha de pergaminho posteriormente assinada pelos representantes das colônias. Era um Dunlap Broadside, nome dado à primeira impressão do texto aprovado pelo Congresso Continental, produzida pelo impressor John Dunlap na noite de 4 de julho de 1776 e nas primeiras horas do dia seguinte. O National Archives informa atualmente que cerca de 200 exemplares foram impressos e que apenas 26 são conhecidos por terem sobrevivido.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O comprador queria a moldura, não a pintura que estava dentro dela
A descoberta começou sem qualquer expectativa de encontrar um documento histórico. O homem, descrito pelo Washington Post como um analista financeiro de meia-idade da Filadélfia e colecionador amador de mapas e documentos do século XVIII, visitava um mercado de pulgas em Adamstown quando encontrou uma velha pintura de uma paisagem rural.
A imagem estava danificada e não foi o que despertou seu interesse. O que chamou atenção foi a moldura antiga de madeira. Por isso, ele desembolsou somente US$ 4 pelo conjunto e levou a peça para casa. A quantia equivale a aproximadamente R$ 20,79 usando a cotação atual, apenas como referência cambial, sem atualização pelo poder de compra de 1989.
Ao examinar a aquisição, a estrutura da moldura se desfez. Foi então que um documento dobrado, escondido entre a tela e o suporte de madeira, apareceu. O comprador percebeu que tinha diante de si algo que parecia ser uma antiga impressão da Declaração de Independência, mas ainda não sabia se era autêntica.
A pintura velha foi descartada e o papel misterioso permaneceu guardado
A ironia é que o objeto comprado no mercado de pulgas não foi preservado por inteiro. Segundo a reportagem contemporânea do Washington Post, o homem acabou descartando a pintura deteriorada, mas decidiu manter o documento encontrado atrás dela.
Ele não correu imediatamente para uma casa de leilões. Durante algum tempo, permaneceu sem saber se tinha encontrado uma peça genuína ou apenas uma reprodução antiga. Foi um amigo interessado em objetos da Guerra Civil Americana quem o incentivou a procurar especialistas.
A origem anterior do documento também permaneceu obscura. A Sotheby’s não conseguiu estabelecer como aquela impressão havia chegado à moldura nem por quanto tempo permanecera ali escondida. A procedência anterior ao achado, portanto, continuou sendo um mistério, e especialistas evitaram transformar possíveis explicações em fatos.
Especialistas da Sotheby’s perceberam rapidamente que não era uma reprodução comum
Quando o documento chegou aos especialistas, a avaliação mudou completamente a dimensão da história. David Redden, então especialista em manuscritos da Sotheby’s, e Selby Kiffer, especialista em Americana, examinaram a folha e concluíram que se tratava de uma autêntica impressão de John Dunlap.
O estado de preservação impressionou. Embora apresentasse sinais compatíveis com sua idade e tivesse permanecido dobrado, o exemplar não havia passado por restauração e foi considerado excepcionalmente bem conservado.
O documento havia sido dobrado em 12 partes, reduzindo drasticamente suas dimensões enquanto permanecia escondido. Reportagem da Associated Press publicada pelo Los Angeles Times registrou que a folha mede aproximadamente 39,4 por 50,2 centímetros e foi impressa em tinta preta sobre papel de trapo levemente amarelado.
A folha havia saído da gráfica na noite em que a independência foi declarada
O que tornava o achado tão extraordinário não era apenas sua idade. O documento pertencia ao primeiro grupo de impressões produzido imediatamente depois que o Congresso Continental aprovou o texto final da Declaração de Independência em 4 de julho de 1776.
John Dunlap era o impressor oficial do Congresso. Depois da aprovação, recebeu a tarefa de colocar o texto em tipos móveis e produzir cópias que pudessem ser distribuídas rapidamente. O National Archives informa que o trabalho atravessou a noite de 4 de julho e avançou pelas primeiras horas do dia 5.
Essas folhas ficaram conhecidas como Dunlap Broadsides. Diferentemente de um livro, tratava-se de uma grande folha impressa de um único lado, concebida para permitir a rápida circulação do texto recém-aprovado.
Cerca de 200 exemplares levaram a notícia da independência pelas colônias
A estimativa atualmente apresentada pelo National Archives é de que aproximadamente 200 cópias foram impressas naquele primeiro lote. Elas começaram a ser distribuídas em 5 de julho para assembleias, convenções, comitês e comandantes do Exército Continental.
Ou seja, aquelas folhas não foram produzidas como peças de colecionador. Tinham uma função prática e imediata: transportar o texto da decisão política que rompia formalmente os vínculos das colônias com a Grã-Bretanha.
O próprio formato ajuda a explicar sua raridade posterior. Eram documentos destinados à circulação e ao uso em plena guerra de independência. Mais de dois séculos depois, a esmagadora maioria havia desaparecido.
A descoberta aumentou para 24 o número de exemplares conhecidos na época
Quando a folha escondida na moldura chegou à Sotheby’s em 1991, apenas 23 outros exemplares autenticados eram conhecidos, segundo o Washington Post. A descoberta fez daquele documento a 24ª cópia então registrada.
Esse número, porém, mudou com novas descobertas ao longo das décadas seguintes. O National Archives informa hoje a existência de 26 Dunlap Broadsides sobreviventes. A maior parte pertence a instituições dos Estados Unidos e do Reino Unido, enquanto apenas uma pequena parcela permanece em mãos privadas.
A diferença entre as contagens não é uma contradição. Em 1991, o exemplar da feira elevou o total conhecido para 24. Outros documentos foram identificados posteriormente, levando ao número atual de 26.
A primeira venda transformou US$ 4 em US$ 2,42 milhões
Em 13 de junho de 1991, a Sotheby’s colocou a recém-descoberta impressão em leilão em Nova York. Antes da venda, a expectativa já era extraordinária: a casa de leilões havia estimado o documento entre US$ 800 mil e US$ 1,2 milhão.
O resultado superou amplamente a faixa prevista. Depois de uma disputa intensa, a folha foi vendida por US$ 2,42 milhões, cerca de R$ 12,6 milhões pela cotação atual, sem correção inflacionária.
O comprador foi a Visual Equities Inc., empresa de investimentos em arte sediada em Atlanta, representada por seu presidente, Donald Scheer. Naquele momento, o valor estabeleceu um recorde para material impresso de caráter histórico americano vendido em leilão, segundo as reportagens da época.
Nove anos depois, o mesmo papel voltou ao mercado por um valor ainda maior
A trajetória comercial do documento não terminou em 1991. Em 2000, a Visual Equities decidiu colocá-lo novamente à venda, desta vez em uma operação realizada pela Sotheby’s também pela internet. A expectativa prévia era de um preço entre US$ 4 milhões e US$ 6 milhões.
A disputa final envolveu o produtor de televisão Norman Lear e o empresário de internet David Hayden. Segundo a CBS News e a Associated Press, foram feitos 29 lances, começando em US$ 4 milhões e chegando a US$ 7,4 milhões. Com a comissão da Sotheby’s, o preço final atingiu US$ 8,14 milhões.
Pela cotação de 28 de agosto de 2026, esse valor corresponde a aproximadamente R$ 42,3 milhões, sem qualquer atualização monetária pela inflação acumulada desde 2000. A Sotheby’s informou na época que a operação estabeleceu recordes tanto para um documento histórico americano quanto para um item vendido pela internet.
Norman Lear não comprou o documento para escondê-lo em uma coleção
Depois da compra milionária, Norman Lear anunciou uma destinação bastante diferente daquela enfrentada pelo documento durante os anos em que permaneceu atrás da pintura.
O produtor e David Hayden passaram a promover a exibição pública da folha por meio do projeto Declaration of Independence Road Trip. O objetivo era levar o documento a diferentes partes dos Estados Unidos, especialmente para que jovens e pessoas sem acesso a grandes acervos pudessem vê-lo.
Em 2003, o próprio National Archives anunciou a exibição daquele Dunlap Broadside durante as celebrações de 4 de julho em Washington. A instituição destacou que Lear havia adquirido a peça em 2000 com o propósito de aproximar o documento do público.
O documento não deve ser confundido com a Declaração assinada por 56 representantes
A expressão “Declaração de Independência original” pode provocar confusão. O documento encontrado atrás da pintura não é o famoso pergaminho exibido pelo National Archives com as assinaturas dos representantes.
O Dunlap Broadside é a primeira versão impressa do texto aprovado pelo Congresso. As cópias foram produzidas imediatamente após a aprovação e começaram a circular antes da assinatura do pergaminho pelos delegados.
O National Archives explica que os Dunlap Broadsides não traziam as assinaturas manuscritas dos signatários. Na parte inferior apareciam impressos os nomes de John Hancock, presidente do Congresso, e Charles Thomson, secretário. A versão em pergaminho que se tornaria símbolo visual da independência seria preparada e assinada posteriormente.
O maior mistério permanece sendo como a impressão foi parar atrás do quadro
A Sotheby’s conseguiu autenticar o documento, estudar suas características físicas e relacioná-lo à primeira impressão de 1776. O que nunca foi esclarecido foi sua trajetória completa entre o século XVIII e a feira de antiguidades onde apareceu em 1989.
Em 1991, David Redden chegou a imaginar cenários sobre alguém ter escondido a folha por segurança em tempos de guerra, mas deixou claro que se tratava apenas de uma especulação. Não havia evidência documental que permitisse afirmar quando a impressão foi colocada atrás da pintura ou quem tomou essa decisão.
O fato verificável é ainda mais incomum: mais de dois séculos depois de sair da gráfica de John Dunlap, um dos primeiros exemplares impressos do texto que anunciou a independência dos Estados Unidos permanecia dobrado dentro da moldura de uma pintura deteriorada, vendido junto com ela por apenas US$ 4.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

