5 min de leitura
Coletora de sementes lidera rede de 180 organizações em 9 estados e faz a ONU eleger a restauração do Cerrado como referência mundial, com meta de 2 milhões de hectares até 2030
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 30/08/2026 às 23:06
Atualizado em 30/08/2026 às 23:11
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Uma coletora de sementes do norte de Minas coordena a rede que acaba de fazer a restauração do Cerrado entrar na lista das iniciativas de referência mundial da ONU, com mais de 180 organizações envolvidas e a meta de recuperar 2 milhões de hectares até 2030.
A iniciativa se chama Araticum. Segundo o Instituto Socioambiental, ela foi reconhecida em 26 de agosto como Iniciativa de Referência da Restauração Mundial, título que a ONU concede a projetos considerados exemplares no esforço global de recuperar ecossistemas degradados.
Quem coordena é Fabrícia Santarém, coletora de sementes geraizeira. A escolha do nome do projeto veio do araticum, fruto típico do Cerrado. O anúncio aconteceu em Ulaanbaatar, na Mongólia, durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação.
Uma rede de 180 organizações espalhada por 9 estados
O número que sustenta o reconhecimento não é de área plantada, e sim de gente envolvida. Conforme o ISA, a Araticum reúne mais de 180 organizações em nove estados brasileiros.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A composição dessa rede é o ponto. De acordo com a instituição, ela junta Povos Indígenas e Quilombolas, comunidades locais, agricultores, pesquisadores, organizações da sociedade civil, iniciativa privada e instituições governamentais. São grupos que costumam aparecer em lados opostos da mesa quando o assunto é uso da terra.
Fazer essa combinação funcionar é mais difícil do que plantar. Restauração em escala grande esbarra em titularidade de terra, calendário agrícola, acesso a crédito e disputa por prioridade. Uma rede que sobrevive com 180 integrantes de origens tão diferentes já resolveu, na prática, um problema institucional que muitos projetos nem chegam a enfrentar.
Por que a restauração do Cerrado importa tanto quanto a da Amazônia
O Cerrado costuma ficar na sombra da Amazônia no debate ambiental brasileiro, e isso distorce a percepção do problema. Segundo o ISA, trata-se de uma das savanas tropicais mais biodiversas do mundo.
Há uma particularidade que explica por que a recuperação é tão complicada ali. Boa parte da biomassa do Cerrado está no subsolo, em sistemas de raízes profundas que levam décadas para se formar. Replantar árvores não reconstitui isso automaticamente. É por essa razão que o trabalho de coleta de sementes nativas, feito por gente como Fabrícia Santarém, é infraestrutura da restauração, e não detalhe acessório.
A meta declarada é chegar a 2 milhões de hectares em processo de recuperação até 2030. Repare na formulação: hectares em processo, não hectares restaurados. É uma distinção honesta, porque restauração de savana não termina no plantio nem em prazo curto.
Projetos ambientais costumam anunciar área plantada como se fosse resultado final, e o número engorda o relatório sem dizer o que aconteceu depois. Uma muda no chão não é vegetação recuperada. Entre uma coisa e outra existem anos de manutenção, replantio das falhas, controle de espécies invasoras e proteção contra fogo.
O fogo, aliás, é o fator que separa restauração de Cerrado de qualquer outro tipo de recuperação no país. A vegetação nativa convive com queimadas naturais há milênios e depende delas em certa medida, mas a frequência atual, ligada ao uso agrícola, é outra história. Calibrar isso exige presença local permanente, o oposto de um plantio pontual seguido de foto.
Conforme o ISA, com a escolha da Araticum o Brasil se torna o único país a ter dois projetos reconhecidos pela ONU nessa categoria. Nesta edição, a iniciativa brasileira foi anunciada ao lado de outras duas, uma na Arábia Saudita e outra no Sahel.
Uma coletora de sementes no comando
Vale voltar a quem está à frente. Fabrícia Santarém é coletora de sementes geraizeira, ou seja, vem das comunidades tradicionais dos gerais do norte de Minas, e não da academia nem da gestão pública.
Isso não é detalhe biográfico. Redes de restauração dependem de semente nativa em volume, e semente nativa não se compra em prateleira. Ela é colhida no tempo certo, na planta certa, por quem conhece o ciclo de cada espécie. Colocar essa competência no comando, em vez de tratá-la como fornecedora terceirizada, é uma escolha de arquitetura do projeto.
O anúncio contou com a presença de Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, e do ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Ribeiro Capobianco, conforme registrou o Instituto Socioambiental.
Um ponto que o material consultado não traz: a idade e a cidade de Fabrícia não foram informadas, assim como o volume de recursos que a rede movimenta. O que está confirmado são o reconhecimento, a data, a composição da rede e a meta.
É difícil não ver graça no contraste. De um lado, uma conferência da ONU na Mongólia, com diretora executiva de programa internacional e ministro de Estado. Do outro, o trabalho que sustenta tudo isso, que é atravessar o cerrado no mês certo para colher semente de uma espécie que só produz naquele curto momento do ano.
A gente tende a imaginar restauração ambiental como uma operação de maquinário e orçamento. No Cerrado, ela se parece muito mais com um calendário: saber que espécie frutifica em qual semana, onde estão as matrizes boas e quanto tempo aquela semente aguenta armazenada antes de perder o poder de germinar.
O reconhecimento não planta nada por conta própria. Mas coloca a restauração de áreas degradadas no radar de financiadores internacionais, e é aí que um selo desses costuma virar dinheiro para as próximas mudas.
Meta de 2 milhões de hectares até 2030 é ambição realista para o Cerrado, ou o que você acha que falta?
Tags
Fontes
Instituto Socioambiental — ONU reconhece iniciativa brasileira Araticum como Referência da Restauração Mundial
Rádio Gov / EBC — ONU reconhece iniciativa brasileira de restauração do Cerrado
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

