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Gorila Kwibi é criado por um homem na Inglaterra, volta para a natureza e passa 5 anos sem vê-lo, até que reconhece a voz do antigo cuidador à beira de um rio, sai da floresta, o abraça e se recusa a deixá-lo partir
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 03/09/2026 às 23:02
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Após 5 anos sem contato, gorila Kwibi reconhece seu antigo cuidador na floresta do Gabão, o abraça e resiste ao momento da despedida.
Durante cerca de cinco anos, Damian Aspinall não teve contato direto com Kwibi, um gorila que conhecera ainda muito jovem no Howletts Wild Animal Park, na Inglaterra, e que depois havia sido levado para um projeto de reintrodução no Gabão. Quando voltou à África em 2010, havia um problema: Kwibi agora era um macho adulto, territorial, vivia na floresta e começara a demonstrar agressividade diante de seres humanos. Mesmo assim, Aspinall entrou em um pequeno barco, percorreu o rio chamando seu nome e esperou para descobrir se o animal ainda se lembrava dele.
Segundo a PBS Nature reportagem e documentário sobre o reencontro de Kwibi e Damian Aspinall, depois de cerca de uma hora procurando, Aspinall estava próximo de desistir quando Kwibi apareceu na margem do rio. O conservacionista não sabia se conseguiria sequer se aproximar. Segundos depois, porém, ouviu uma vocalização familiar. A tensão desapareceu, os dois se aproximaram, ficaram abraçados, trocaram folhas e, quando chegou o momento da separação, o gorila continuou segurando o homem que não via havia cinco anos.
Kwibi havia crescido em um parque de animais no interior da Inglaterra
A história começou muito antes daquele encontro filmado na floresta africana. Kwibi nasceu em cativeiro e cresceu no Howletts Wild Animal Park, em Kent, no sudeste da Inglaterra, propriedade historicamente ligada à família Aspinall.
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O parque ocupa cerca de 90 acres e tornou-se conhecido pelo trabalho com gorilas. Damian Aspinall cresceu cercado por animais mantidos nos parques criados por seu pai, John Aspinall, e posteriormente assumiu papel central na fundação que leva o sobrenome da família.
Kwibi fazia parte dessa história. Aspinall relatou à PBS que o conheceu quando o gorila ainda era muito pequeno e que estabeleceu com ele um vínculo próximo. Descreveu o jovem animal como de temperamento dócil e afirmou que, na relação com gorilas, procurava construir confiança sem tentar ocupar uma posição de dominância.
Era um relacionamento desenvolvido dentro de um ambiente controlado. Anos depois, contudo, Aspinall decidiria apoiar uma experiência muito mais arriscada: dar a Kwibi a oportunidade de viver na África.
Aspinall acreditava que os gorilas deveriam ter a chance de voltar à natureza
A filosofia defendida pela Aspinall Foundation é que animais criados sob cuidados humanos devem, sempre que possível e quando existirem condições adequadas, ter a possibilidade de serem reintroduzidos em ambientes naturais protegidos.
Essa estratégia tornou-se parte de projetos realizados pela fundação no Congo e no Gabão. Atualmente, a entidade afirma trabalhar com governos e parceiros da região do Planalto Batéké desde 1987, protegendo uma área de aproximadamente 1 milhão de acres e desenvolvendo iniciativas voltadas principalmente ao gorila-das-planícies-ocidentais.
A espécie enfrenta forte pressão de caça, perda de habitat e outras ameaças na África Central. Dentro desse contexto, a instituição passou a combinar criação, reabilitação e reintrodução.
Kwibi acabaria se tornando um dos casos mais conhecidos dessa estratégia, não apenas porque conseguiu viver fora do parque inglês, mas porque seu reencontro posterior com Aspinall produziria uma das cenas mais famosas já registradas entre um gorila reintroduzido e um antigo cuidador.
Os anos passaram e Kwibi ficou cada vez mais independente
Nos primeiros períodos depois da transferência, as equipes continuaram monitorando os gorilas. Aspinall recebia atualizações sobre a adaptação do antigo companheiro. Conforme Kwibi amadurecia, o comportamento também mudava. Ele se tornava fisicamente maior, mais independente e menos dependente da presença humana.
Esse era justamente um dos objetivos do projeto.
Um animal reintroduzido não deveria permanecer permanentemente ligado aos cuidadores. Quanto maior a adaptação à floresta, menor a necessidade de interação humana.
Com Kwibi, essa independência avançou a ponto de produzir uma preocupação inesperada. Em 2010, segundo a PBS, funcionários relataram que ele estava mais difícil de localizar e passara a apresentar comportamento agressivo em alguns contatos com humanos.
O filhote que Damian conhecera na Inglaterra era agora um grande macho territorial. E foi justamente nesse momento que Aspinall resolveu procurá-lo.
Depois de cinco anos sem vê-lo, Damian entrou em um barco e começou a chamar seu nome
Quando voltou ao Gabão, Aspinall não tinha garantia de que encontraria Kwibi. Muito menos sabia como o animal reagiria.
Assista o vídeo
A PBS registra que eles não se viam havia cinco anos. O conservacionista entrou em uma embarcação e percorreu o rio chamando repetidamente pelo gorila.
O método dependia de algo que nenhuma tecnologia poderia garantir: memória. Kwibi precisaria primeiro reconhecer aquela voz depois de anos vivendo na floresta.
Aspinall contou que passou aproximadamente uma hora subindo e descendo o rio. Chamava o animal e aguardava alguma resposta. Em determinado momento, começou a considerar a possibilidade de abandonar a procura.
Foi então que algo surgiu entre a vegetação. Kwibi apareceu na margem.
O enorme gorila estava diante dele, mas ninguém sabia como reagiria
O reencontro não começou imediatamente com um abraço. Havia tensão.
Aspinall reconheceu posteriormente que estava apreensivo porque não sabia qual seria a reação de Kwibi. Um gorila macho adulto possui enorme força física, e a própria equipe sabia que uma aproximação malsucedida poderia se tornar perigosa.
Uma medida de emergência chegou a ser discutida: se Kwibi apresentasse comportamento agressivo, outras pessoas deveriam lançar comida para distraí-lo.
Aspinall, porém, começou a se aproximar. Foi nesse momento que ouviu uma vocalização que conhecia.
No documentário, ele descreve o som como um tipo de vocalização associada à afeição. Para Aspinall, aquele ruído foi o sinal de que Kwibi o havia reconhecido e de que seria possível continuar.
O homem então chegou à margem. E a distância de cinco anos desapareceu em segundos.
Kwibi o reconheceu, aproximou-se e os dois ficaram abraçados
As imagens mostram Aspinall e Kwibi próximos um do outro na margem do rio. O gorila toca o antigo conhecido e aceita sua presença sem demonstrar a hostilidade que havia preocupado os responsáveis pelo projeto.
Os dois ficam juntos, trocam contato físico e compartilham folhas. Aspinall posteriormente descreveu as vocalizações e os movimentos de Kwibi como os de um animal extremamente satisfeito por rever alguém conhecido.
O conservacionista segurava Kwibi.
Kwibi também o segurava. Depois de aproximadamente cinco anos sem contato direto, o gorila aparentemente havia preservado uma associação suficientemente forte com a voz, a presença ou outros sinais daquele homem para tratá-lo de maneira completamente diferente de um estranho.
Para Aspinall, era a confirmação de que o vínculo desenvolvido quando Kwibi ainda vivia na Inglaterra não havia simplesmente desaparecido na floresta.
Kwibi ainda apresentou ao antigo amigo o grupo que havia formado
O reencontro teve outro momento significativo. Kwibi não estava sozinho. Fêmeas de seu grupo aproximaram-se da área onde ele permanecia com Aspinall. O conservacionista interpretou aquilo como um sinal importante de confiança, argumentando que o macho teria afastado as fêmeas caso considerasse sua presença uma ameaça.
A cena também mostrava o tamanho da transformação ocorrida durante os anos de separação. O jovem gorila criado na Inglaterra havia se tornado um macho vivendo em um grupo social próprio na África.
Para a iniciativa de reintrodução, isso era mais importante do que o reencontro emocional.
A Aspinall Foundation afirma que diversos gorilas transferidos de parques europeus para seus projetos na África posteriormente formaram grupos e produziram descendentes, resultado considerado fundamental para a estratégia de conservação da instituição.
Kwibi não era mais o animal dependente que partira da Inglaterra. Ele havia construído sua própria vida.
Quando Damian tentou ir embora, Kwibi continuou segurando-o
O momento mais marcante talvez tenha acontecido quando a visita parecia terminada. Aspinall precisava retornar ao acampamento.
Kwibi, porém, não parecia disposto a encerrar o encontro imediatamente. O documentário registra o gorila segurando o antigo cuidador enquanto ele tentava se afastar.
A cena deu origem à interpretação popular de que o animal “não queria deixá-lo ir embora”.
É impossível saber exatamente como um gorila interpreta emocionalmente uma separação dessa natureza.
O comportamento registrado, contudo, foi objetivo: Kwibi manteve contato físico com Aspinall e prolongou a interação antes da partida.
Finalmente, o homem entrou novamente no barco. Seria razoável imaginar que o episódio terminasse ali.
Mas Kwibi ainda não havia terminado.
O gorila acompanhou o barco por quilômetros e apareceu novamente na manhã seguinte
Aspinall percorreu cerca de três ou quatro milhas, aproximadamente 5 a 6,4 quilômetros, de volta ao acampamento.
Mesmo distante da margem onde haviam se encontrado, percebeu que Kwibi continuava acompanhando sua movimentação pela floresta.
Naquela noite, afirmou ouvir os chamados do gorila. Na manhã seguinte, Aspinall foi nadar no rio.
Assista o vídeo
Kwibi apareceu novamente na margem. O gorila que passara cinco anos sem vê-lo havia procurado manter proximidade mesmo depois do encerramento do primeiro encontro.
Kwibi não apenas respondeu à voz de Aspinall. Depois da interação, acompanhou a embarcação e voltou a procurá-lo.
Kwibi deixou de ser o filhote de um parque inglês e se tornou o protagonista de um reencontro visto no mundo inteiro
A força da história está justamente no que aconteceu entre as duas cenas extremas da vida de Kwibi. Na primeira, ele era um gorila jovem sob cuidados humanos em Kent, no interior da Inglaterra.
Na segunda, era um macho adulto vivendo em uma floresta africana, territorial e suficientemente independente para tornar sua própria localização difícil.
Entre uma imagem e outra passaram-se anos.
Aspinall não tinha como saber se a memória construída naquele primeiro período sobreviveria ao tempo, à distância e à transformação completa do ambiente do animal.
Por isso, quando chamou por Kwibi às margens de um rio no Gabão, não estava chamando o mesmo filhote que conhecera na Inglaterra.
- Estava chamando um gorila adulto que havia passado anos aprendendo a viver sem ele.
- Kwibi poderia ter permanecido escondido.
- Poderia ter aparecido e mantido distância.
- Poderia ter reagido como reagiria diante de qualquer pessoa desconhecida.
Mas saiu da floresta, aproximou-se, segurou o homem que não via havia cinco anos e, quando Aspinall finalmente entrou no barco para ir embora, ainda o acompanhou por quilômetros antes de reaparecer na margem na manhã seguinte.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

