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Família compra bilhetes premiados de verdadeiros ganhadores, apresenta mais de 14 mil apostas como próprias, movimenta US$ 20 milhões e leva loteria a revisar licenças de 40 estabelecimentos
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 05/09/2026 às 00:06
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A família Jaafar comprava bilhetes de vencedores que queriam evitar a identificação, recebia os prêmios integrais, declarava perdas inexistentes e provocou prejuízo tributário superior a US$ 6 milhões antes de pai e filhos serem condenados pela Justiça americana
Em 2019, Ali Jaafar apareceu como a pessoa que mais apresentava bilhetes premiados para pagamento em Massachusetts, nos Estados Unidos. Dois filhos dele também estavam entre os quatro maiores recebedores individuais da loteria estadual.
A família não havia descoberto uma fórmula para prever resultados. Segundo a Justiça americana, os Jaafar compravam bilhetes já premiados de seus verdadeiros donos e depois apresentavam as apostas como próprias.
Entre 2011 e 2020, o grupo resgatou ilegalmente mais de 14 mil bilhetes vencedores e movimentou acima de US$ 20 milhões. O esquema também provocou prejuízo tributário federal superior a US$ 6 milhões.
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As informações foram divulgadas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que detalhou a participação da família, dos comerciantes e dos verdadeiros ganhadores.
Como funcionava a compra dos bilhetes premiados
O método ficou conhecido como ten-percenting. A expressão faz referência à porcentagem cobrada pelos intermediários para resgatar bilhetes em nome de outras pessoas.
O verdadeiro ganhador entregava a aposta por um valor inferior ao prêmio. Em troca, recebia dinheiro sem precisar apresentar sua identidade à Comissão de Loteria de Massachusetts.
Depois da compra, um integrante da família Jaafar levava o mesmo bilhete ao órgão estadual. O documento era legítimo, e o prêmio havia sido conquistado regularmente.
A informação falsa estava na identidade do vencedor. Os Jaafar afirmavam que as apostas pertenciam a eles e recebiam o valor integral oferecido pela loteria.
Segundo o Departamento de Justiça, os compradores envolvidos nesse tipo de operação normalmente ficavam com 10% a 20% do valor do bilhete. Portanto, quanto maior fosse o prêmio, maior seria o ganho obtido pela intermediação.
Por que os vencedores aceitavam receber menos
A Comissão de Loteria de Massachusetts precisava identificar os ganhadores antes de liberar determinados pagamentos. Essa verificação permitia descobrir possíveis pendências financeiras.
Impostos atrasados, pensões alimentícias não pagas e outras dívidas poderiam ser descontados diretamente do prêmio. Além disso, o valor recebido precisava ser informado às autoridades tributárias.
A venda do bilhete ajudava o ganhador original a evitar esse processo. Embora recebesse menos dinheiro, ele permanecia fora dos registros oficiais como vencedor.
Os Jaafar assumiam essa posição e ficavam com a diferença entre o valor pago pela aposta e a quantia recebida da loteria.
Na prática, o esquema utilizava um prêmio verdadeiro para esconder quem realmente havia comprado o bilhete. Dessa forma, a operação não exigia falsificar números, alterar sorteios ou produzir apostas inexistentes.
Lojas de conveniência atuaram como intermediárias
A família precisava encontrar vencedores dispostos a vender seus bilhetes. Para ampliar esse alcance, recrutou proprietários de dezenas de lojas de conveniência espalhadas por Massachusetts.
Os estabelecimentos atuavam como ligação entre os apostadores e os Jaafar. Quando um cliente apresentava uma aposta premiada, os comerciantes poderiam oferecer a possibilidade de pagamento imediato por um valor reduzido.
Depois da negociação, o bilhete seguia para a família. Os donos das lojas recebiam pagamentos para facilitar essas transações e manter a operação funcionando.
A estrutura permitiu repetir o processo durante quase uma década. Em vez de depender de um único estabelecimento, os envolvidos criaram uma rede capaz de localizar apostas em diferentes áreas do estado.
A dimensão do esquema aparece no total de resgates. Mais de 14 mil bilhetes em nove anos representam uma média superior a 1.500 apostas premiadas apresentadas anualmente.
Família chegou ao topo da lista de recebedores
O volume de bilhetes colocou os três integrantes da família entre os principais recebedores da loteria estadual.
Somente em 2019, Ali Jaafar foi o maior apresentador individual de bilhetes premiados de Massachusetts. Mohamed Jaafar ocupou a terceira posição, enquanto Yousef Jaafar apareceu em quarto lugar.
Assista o vídeo
Isso significa que três das quatro primeiras colocações pertenciam à mesma família. Os registros transmitiam a impressão de que pai e filhos acumulavam prêmios constantemente.
Na realidade, os bilhetes haviam sido comprados de apostadores espalhados pelo estado. A família aparecia nos documentos porque seus integrantes assumiam formalmente a propriedade das apostas.
Os mais de US$ 20 milhões não correspondiam a um único jackpot. O valor resultava da soma de milhares de bilhetes resgatados ao longo dos anos.
Perdas falsas transformavam prêmios em restituições
O lucro não terminava quando a família recebia o prêmio completo. Os Jaafar também utilizavam as apostas compradas para reduzir os impostos cobrados sobre o dinheiro.
Nas declarações tributárias, os integrantes informavam os prêmios como renda própria. Ao mesmo tempo, registravam perdas em jogos equivalentes aos valores recebidos.
Esses prejuízos eram falsos. Ainda assim, serviam para compensar os ganhos declarados e diminuir ou eliminar o imposto federal devido.
A estratégia também gerou restituições indevidas. Segundo a investigação, os três familiares receberam mais de US$ 1,2 milhão em reembolsos tributários fraudulentos.
O prejuízo total para o governo federal ultrapassou US$ 6 milhões. Assim, o esquema produzia ganhos na compra dos bilhetes, no recebimento integral dos prêmios e na apresentação das declarações falsas.
Pai e filhos receberam penas diferentes
Um júri federal condenou Ali e Yousef Jaafar em dezembro de 2022. Ambos responderam por conspiração para fraudar o serviço tributário, conspiração para lavagem de dinheiro e apresentação de declaração fiscal falsa.
Em maio de 2023, Ali recebeu cinco anos de prisão. Yousef foi condenado a 50 meses, período equivalente a quatro anos e dois meses.
A Justiça também determinou que os dois pagassem aproximadamente US$ 6,08 milhões em restituição. Além disso, eles perderam os lucros obtidos com a operação.
Mohamed Jaafar havia admitido a participação no esquema em novembro de 2022. Em julho de 2023, recebeu pena de seis meses de prisão e dois anos de liberdade supervisionada.
Ele também foi condenado a pagar US$ 964.569 em restituição. Com isso, os três familiares citados entre os maiores recebedores da loteria em 2019 terminaram responsabilizados criminalmente.
Caso colocou mais de 40 licenças sob revisão
A investigação não terminou na família Jaafar. A participação dos comerciantes levou a Comissão de Loteria de Massachusetts a analisar a atuação dos estabelecimentos utilizados como intermediários.
Como resultado direto do caso, o órgão iniciou processos para suspender ou revogar as licenças de mais de 40 agentes lotéricos.
Essas licenças permitiam que lojas comercializassem apostas e processassem operações relacionadas aos jogos estaduais. A perda da autorização poderia retirar definitivamente os estabelecimentos da rede oficial.
O caso mostrou que a vulnerabilidade não estava no sorteio. Os bilhetes eram autênticos, os números haviam sido escolhidos normalmente e os prêmios existiam.
A falha aparecia no momento do pagamento. Durante anos, a mesma família apresentou milhares de apostas de outras pessoas, dominou a lista de recebedores e utilizou os registros para sustentar declarações tributárias falsas.
Quando a operação foi interrompida, mais de US$ 20 milhões já haviam passado pelas mãos dos envolvidos e o prejuízo tributário superava US$ 6 milhões.
Você acredita que a loteria deveria ter investigado a família quando pai e filhos apareceram juntos entre os quatro maiores recebedores de Massachusetts? Deixe nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

