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Cientistas encontram na África um estágio nunca identificado diretamente em um rifte continental ativo: crosta de apenas 12,7 km em Turkana concentra a deformação que, em milhões de anos, pode abrir um novo oceano
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 07/09/2026 às 22:51
Atualizado em 07/09/2026 às 22:52
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A pesquisa mostra que a deformação tectônica se concentrou no eixo de Turkana depois de uma fase mais ampla de estiramento. O processo, chamado “necking”, marca um afinamento extremo da crosta continental, embora uma eventual formação de assoalho oceânico ainda dependa de milhões de anos de evolução.
A região de Turkana, no norte do Quênia, reúne uma das porções mais afinadas do Rift da África Oriental. No eixo do sistema, pesquisadores calcularam 12,7 ± 2,8 quilômetros de crosta cristalina, enquanto nas margens a espessura supera 35 quilômetros.
A diferença mostra que a deformação deixou de se distribuir por uma faixa larga e passou a se concentrar no centro do rifte. O processo corresponde ao chamado “necking”, ou estrangulamento crustal, etapa em que a crosta continental sofre afinamento intenso antes de fases mais avançadas de ruptura.
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O resultado foi apresentado em abril deste ano em um estudo publicado na Nature Communications, baseado em dados sísmicos de alta resolução, registros de poços e observações de campo na Zona de Rifte de Turkana. Os autores identificam o local como o primeiro rifte continental ativo observado diretamente nessa fase de evolução.
Estruturas equivalentes já haviam sido reconhecidas em margens continentais formadas e em riftes antigos preservados no registro geológico. Em Turkana, porém, a equipe conseguiu relacionar a geometria atual da crosta ao estágio de estrangulamento enquanto o processo tectônico ainda está em curso.
Deformação migrou para o eixo de Turkana
O perfil reconstruído pelos pesquisadores mostra uma crosta com geometria em cunha, progressivamente mais fina em direção ao eixo. As áreas com maior grau de afinamento também coincidem com a sismicidade moderna, enquanto regiões mais afastadas apresentam pouca ou nenhuma atividade sísmica contemporânea.
Essa distribuição indica que o esforço tectônico hoje se concentra em uma faixa menor do que no início da evolução do sistema. A reconstrução apresentada no estudo aponta que o estiramento ligado ao Rift da África Oriental já esteve distribuído por aproximadamente 200 quilômetros de largura.
Com o avanço da deformação, essa zona teria se estreitado até se concentrar no eixo de Turkana. Os pesquisadores estimam que a transição para o estágio de estrangulamento crustal ocorreu há cerca de 4 milhões de anos, depois de uma história geológica marcada por sucessivos episódios de rifteamento.
A região já havia sido afetada por estruturas tectônicas anteriores e por fases posteriores de vulcanismo. Segundo os autores, essa herança deixou zonas de fraqueza na crosta e na litosfera que ajudam a explicar por que a deformação passou a se concentrar no mesmo setor.
Uma crosta mais fina também oferece menor resistência à continuidade da deformação. Dessa forma, o estiramento deixa de ser acomodado de maneira ampla e passa a ocorrer preferencialmente na zona já enfraquecida, mantendo a atividade tectônica concentrada ao longo do eixo do rifte.
Turkana apresenta esse estágio avançado de afinamento sem registrar a maior velocidade de afastamento do sistema. Na área, as placas Núbia e Somali se separam a aproximadamente 4,7 milímetros por ano, enquanto a crosta continua sendo esticada e fraturada.
Outros segmentos do Rift da África Oriental ainda conservam crosta com mais de 25 quilômetros de espessura e apresentam características de etapas menos avançadas de estiramento. A comparação mostra que diferentes partes do sistema não evoluem no mesmo ritmo nem necessariamente pelo mesmo mecanismo.
Do afinamento continental à possível oceanização
Ao norte de Turkana, Afar representa uma situação mais avançada, com sinais associados ao início da oceanização. Em Turkana, a identificação do “necking” não significa que um novo oceano esteja prestes a surgir, mas que a crosta alcançou uma etapa de afinamento que pode anteceder esse processo.
A formação de um novo assoalho oceânico exige que a ruptura continental continue até que a crosta seja substituída por material de natureza oceânica. Essa transição ocorre em escala geológica e, no leste africano, permanece associada a processos que podem levar milhões de anos.
Outro trabalho divulgado em junho deste ano ampliou a análise para diferentes partes do Rift da África Oriental. Liderado por Rasheed Ajala, o estudo disponibilizado pela Geoscience Frontiers utilizou tomografia sísmica de alta resolução e uma compilação de dados para comparar o comportamento da crosta e do manto litosférico.
A análise encontrou afinamento intenso e disseminado do manto litosférico em grande parte do sistema, mas também mostrou diferenças importantes entre seus ramos. No ramo oriental, mais associado ao magmatismo, crosta e manto tendem a afinar de forma acoplada.
No ramo ocidental, menos vulcânico, o comportamento é mais irregular. Há segmentos em que crosta e manto parecem evoluir juntos e outros nos quais o afinamento ocorre de maneira menos sincronizada, reforçando que a separação continental não segue um único padrão de norte a sul.
Os autores desse segundo trabalho propõem que, em vários riftes, o estrangulamento do manto litosférico pode começar antes do afinamento equivalente da crosta. A hipótese oferece uma explicação para trechos próximos do mesmo sistema tectônico apresentarem estágios distintos, mesmo inseridos no processo mais amplo de afastamento continental.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

