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Botânicos encontram flor negra com “chifres” escondida numa floresta da Tailândia e descobrem que ela não faz fotossíntese, depende de fungos para sobreviver e possui menos de 50 exemplares são conhecidos no mundo
Escrito por Roberta Souza
Publicado em 08/09/2026 às 15:01
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Batizada de Thismia daemona por causa das flores escuras, estruturas semelhantes a chifres e manchas avermelhadas, nova espécie passa quase toda a vida escondida no solo, foi encontrada a quase 1.000 metros de altitude e já pode estar criticamente ameaçada
Uma pequena planta escondida sob folhas em uma floresta montanhosa da Tailândia conseguiu surpreender botânicos por três motivos: é quase negra, possui estruturas que lembram chifres e sobrevive sem realizar fotossíntese. A nova espécie recebeu o nome de Thismia daemona — ou “flor do diabo” — e, conforme informações divulgadas pelo ScienceDaily em 3 de setembro de 2026, os pesquisadores conhecem menos de 50 indivíduos, todos encontrados até agora em uma única população no Thong Pha Phum National Park, no oeste da Tailândia.
Além disso, a aparência incomum representa apenas a parte mais visível da descoberta. A Thismia daemona não possui clorofila e não produz sua própria energia por meio da fotossíntese como a maioria das plantas. Em vez disso, pertence a um grupo de plantas mico-heterotróficas que obtêm carbono e nutrientes por meio de sua associação com fungos subterrâneos. Por isso, passa quase toda a existência escondida sob a serapilheira da floresta e aparece acima do solo principalmente durante seus breves períodos reprodutivos.
Entretanto, a descoberta também trouxe um alerta. O estudo científico, publicado na revista PhytoKeys, avaliou provisoriamente a espécie como Criticamente Ameaçada, seguindo critérios da IUCN. A única população conhecida ocupa uma área muito pequena dentro de uma região visitada por turistas, e os pesquisadores registraram menos de 50 exemplares. Portanto, uma planta que permaneceu desconhecida pela ciência até agora pode já precisar de proteção especial logo depois de receber um nome.
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A história começa numa floresta da Tailândia, quando botânicos encontram algo escuro surgindo entre as folhas
A descoberta ocorreu durante levantamentos botânicos no Thong Pha Phum National Park, localizado na província de Kanchanaburi, no oeste tailandês.
Pesquisadores da Chulalongkorn University e da Prince of Songkla University exploravam a vegetação quando encontraram pequenas estruturas incomuns emergindo do chão.
Posteriormente, dois exemplares foram coletados em maio de 2025, segundo o artigo científico.
Entretanto, identificar uma nova espécie exige muito mais do que encontrar uma planta com aparência diferente.
Por isso, a equipe examinou características morfológicas e também realizou análises moleculares.
Os pesquisadores analisaram marcadores nucleares e mitocondriais e compararam os resultados com outras espécies do gênero Thismia.
Finalmente, as evidências indicaram que aquela planta realmente representava uma espécie até então desconhecida pela ciência.
Quando a flor aparece, fica fácil entender por que cientistas escolheram um nome tão incomum
A aparência da Thismia daemona está longe da imagem tradicional de uma flor colorida voltada para o Sol.
Suas flores possuem tonalidade negra a muito escura, enquanto algumas estruturas externas apresentam cores avermelhadas ou alaranjadas.
Além disso, três apêndices finos se projetam da parte superior da flor.
Visualmente, essas estruturas lembraram chifres aos pesquisadores.
Na base, por sua vez, manchas em tons avermelhados e alaranjados contribuíram para uma aparência que a equipe associou a olhos brilhantes.
Com isso, surgiu o nome daemona.
No artigo científico, os autores explicam que o epíteto faz referência justamente à aparência semelhante à de um “diabo”, marcada pelos tons escuros e pelos apêndices semelhantes a chifres.
Mas a parte mais estranha da planta está escondida: ela não precisa ficar verde para sobreviver
Quando pensamos em plantas, uma das primeiras características que vêm à mente é a cor verde.
Ela está diretamente ligada à clorofila, pigmento fundamental para a fotossíntese.
Entretanto, a Thismia daemona segue outra estratégia.
Ela é aclorofilada.
Consequentemente, não consegue produzir alimento usando luz solar da maneira tradicional.
Ainda assim, sobrevive.
E isso acontece porque sua relação com o mundo subterrâneo substitui uma função que, em outras plantas, depende diretamente do Sol.
Em vez de transformar luz em energia, a “flor do diabo” depende de uma rede subterrânea de fungos
As espécies de Thismia são mico-heterotróficas.
Isso significa que dependem de fungos associados às raízes para obter o carbono necessário à sobrevivência.
Na prática, portanto, a planta participa de uma relação subterrânea muito diferente daquela encontrada nas plantas verdes comuns.
Enquanto uma árvore ou gramínea captura energia solar e fixa carbono pela fotossíntese, a Thismia obtém carbono indiretamente por intermédio dos fungos.
Por isso, o ScienceDaily descreveu de maneira mais popular o processo como uma planta que “rouba nutrientes” dos fungos.
Cientificamente, entretanto, o termo mais preciso é mico-heterotrofia.
E essa estratégia ajuda a explicar outra característica surpreendente.
Ela passa quase toda a vida escondida e só entrega sua presença quando precisa florescer
Sem precisar manter grandes folhas verdes expostas à luz, a planta consegue permanecer praticamente invisível.
Grande parte de sua estrutura fica escondida no solo e sob folhas mortas.
Além disso, espécies de Thismia costumam aparecer acima do solo durante períodos relativamente breves de floração e frutificação.
Isso ajuda a explicar por que novas espécies do gênero continuam sendo descobertas.
Elas podem existir em uma floresta durante anos enquanto pesquisadores passam pela região sem perceber sua presença.
Consequentemente, encontrar essas plantas exige estar no lugar certo justamente no momento certo.
O gênero já possui cerca de 120 espécies conhecidas, mas continua entregando surpresas
O artigo científico descreve Thismia como um dos maiores gêneros entre as plantas completamente mico-heterotróficas, reunindo aproximadamente 120 espécies atualmente aceitas.
Elas aparecem principalmente em regiões tropicais e subtropicais da Ásia, além de partes da Austrália e das Américas.
Entretanto, o sudeste asiático concentra uma diversidade particularmente elevada.
Ao mesmo tempo, os próprios pesquisadores alertam que a diversidade real provavelmente permanece subestimada.
Isso acontece justamente porque essas plantas são pequenas, efêmeras e difíceis de localizar.
Portanto, a nova descoberta pode representar apenas uma entre várias espécies ainda escondidas nas florestas da região.
A surpresa aumenta quando pesquisadores percebem onde a planta estava vivendo
Encontrar uma nova Thismia já seria relevante.
Entretanto, o local escolhido pela espécie chamou ainda mais atenção.
Normalmente, plantas desse grupo aparecem associadas a florestas baixas permanentemente úmidas.
A Thismia daemona, porém, apareceu em uma floresta montanhosa sazonal, a aproximadamente 950 a 970 metros de altitude.
Segundo Sahut Chantanaorrapint, da Prince of Songkla University, encontrar a espécie naquele ambiente representou uma grande surpresa.
Portanto, a descoberta não acrescenta apenas mais um nome à botânica.
Ela também amplia a compreensão científica sobre quais ambientes determinadas linhagens de Thismia conseguem ocupar.
A nova espécie também empurra para o norte o mapa conhecido de todo um grupo de plantas
A análise mostrou que a Thismia daemona pertence à seção Geomitra.
Antes dessa descoberta, representantes desse grupo eram conhecidos na Península Malaia, em Bornéu e em Sumatra.
Agora, a ocorrência no oeste da Tailândia amplia a distribuição conhecida da seção para o norte.
Além disso, as análises filogenéticas colocaram a nova espécie como parente próxima de Thismia betung-kerihunensis, conhecida de Bornéu, dentro da amostragem genética utilizada pelos pesquisadores.
Assim, uma flor de poucos centímetros conseguiu alterar um mapa biogeográfico que abrange uma parte considerável do sudeste asiático.
O DNA confirma aquilo que a aparência já sugeria: os cientistas estavam diante de algo diferente
Para verificar a posição evolutiva da planta, os pesquisadores analisaram três marcadores nucleares e dois mitocondriais.
Além disso, compararam sequências genéticas de diferentes espécies de Thismia.
A análise filogenética confirmou a posição da nova espécie dentro de Thismia sect. Geomitra.
Entretanto, a equipe também precisava demonstrar que ela não representava simplesmente uma variação de alguma espécie já conhecida.
Por isso, características microscópicas e macroscópicas da flor entraram na comparação.
E foi aí que uma combinação bastante peculiar começou a aparecer.
Flor negra, partes alaranjadas, estames azulados e estruturas semelhantes a chifres formam uma combinação única
A descrição científica revela detalhes que dificilmente seriam percebidos por alguém simplesmente olhando a planta na floresta.
A espécie possui raízes semelhantes a corais, flores enegrecidas e estruturas externas carnosas em tons avermelhados e alaranjados.
Além disso, seus estames apresentam aspecto azul translúcido.
A superfície interna do tubo floral também possui barras transversais irregulares e uma estrutura reticulada coberta por pequenos tricomas translúcidos.
Individualmente, algumas dessas características aparecem em parentes.
Entretanto, a combinação permitiu diferenciar a T. daemona das demais espécies conhecidas.
Assim, aquilo que para um visitante poderia parecer apenas uma flor muito estranha representa, para um taxonomista, um conjunto de pistas anatômicas extremamente específico.
A planta inteira pode chegar a cerca de 12,5 centímetros
Embora sua aparência ampliada em fotografias pareça quase alienígena, a Thismia daemona é pequena.
A descrição científica informa que a erva aclorofilada pode atingir aproximadamente 125 milímetros de altura incluindo as flores — cerca de 12,5 centímetros.
Além disso, o caule observado mede aproximadamente 3,5 a 6,5 centímetros e pode sustentar de uma a três flores.
Portanto, seria muito fácil passar ao lado de um exemplar sem perceber.
Ainda mais porque folhas mortas, galhos e outras estruturas do chão da floresta podem escondê-lo quase completamente.
É justamente essa combinação de tamanho reduzido e vida subterrânea que torna o gênero tão difícil de estudar.
A “flor do diabo” pode desaparecer antes que cientistas consigam compreender completamente sua vida
Depois da surpresa veio a preocupação.
Até agora, pesquisadores conhecem apenas uma população da espécie.
Ela ocorre dentro do Thong Pha Phum National Park.
Além disso, foram registrados menos de 50 indivíduos.
A população conhecida está confinada a uma área pequena, e o próprio local recebe visitantes.
Consequentemente, pisoteio e alterações no micro-habitat podem representar ameaças relevantes.
Por isso, os autores fizeram uma avaliação preliminar da espécie como Criticamente Ameaçada (CR) segundo critérios da IUCN.
Isso cria uma situação paradoxal.
A ciência acabou de descobrir oficialmente a planta.
Entretanto, já precisa pensar em como evitar seu desaparecimento.
Estar dentro de um parque nacional ajuda, mas não garante proteção absoluta
O fato de a única população conhecida estar dentro de uma área protegida oferece uma vantagem importante.
Entretanto, proteção jurídica não elimina todos os riscos.
Espécies extremamente localizadas podem depender de condições muito específicas de solo, umidade, fungos e cobertura vegetal.
Assim, uma pequena alteração no ambiente pode causar consequências desproporcionais.
Além disso, visitantes podem nem perceber que estão caminhando sobre uma planta rara que passa grande parte da vida escondida.
Por isso, a preservação de ecossistemas frágeis pode exigir medidas que vão muito além de simplesmente estabelecer os limites de uma área protegida.
No caso da T. daemona, preservar a floresta também significa preservar as relações subterrâneas das quais ela depende.
Salvar a planta significa proteger também os fungos que sustentam sua existência
Esse detalhe torna a conservação ainda mais delicada.
Uma planta fotossintética pode depender de água, solo adequado, luz e nutrientes.
A Thismia daemona acrescenta outro componente essencial:
os fungos subterrâneos com os quais mantém sua relação mico-heterotrófica.
Consequentemente, não basta pensar apenas na flor visível.
É necessário preservar o micro-habitat inteiro.
Mudanças no solo, na umidade ou na comunidade de fungos podem afetar a espécie mesmo que ninguém toque diretamente nela.
Dessa forma, aquilo que aparece por alguns centímetros acima da superfície depende de uma rede biológica muito maior escondida embaixo dela.
O turismo aparece como uma preocupação justamente porque menos de 50 exemplares são conhecidos
O estudo destaca que a única população conhecida ocorre em uma área visitada regularmente por turistas.
Para uma espécie abundante, alguns impactos localizados poderiam representar um problema menor.
Entretanto, quando existem menos de 50 indivíduos conhecidos, cada micro-habitat ganha importância.
Por isso, Sahut Chantanaorrapint defende uma abordagem de conservação que também envolva as comunidades locais.
Segundo o pesquisador, despertar orgulho pelo patrimônio natural pode ajudar tanto na proteção do ambiente quanto no desenvolvimento de ecoturismo sustentável.
Assim, a descoberta pode transformar uma planta desconhecida em símbolo local de conservação.
O curioso é que ninguém sabe se realmente existem apenas 50 — talvez outras estejam escondidas em florestas próximas
A expressão “menos de 50 indivíduos” precisa ser interpretada corretamente.
Ela se refere aos indivíduos conhecidos na população registrada, e não necessariamente ao número total existente no planeta.
Os próprios autores observam que a espécie pode ocorrer em outras regiões do oeste da Tailândia e até em áreas de Myanmar com vegetação semelhante.
Entretanto, nenhuma outra população foi confirmada até agora.
Portanto, existem duas possibilidades.
Talvez a planta realmente possua uma distribuição extremamente restrita.
Ou talvez outras populações permaneçam escondidas sob folhas em florestas pouco exploradas.
A única maneira de descobrir será procurar.
Encontrar essas plantas é particularmente difícil porque elas podem desaparecer da superfície durante grande parte do ano
Esse desafio ajuda a explicar por que levantamentos botânicos continuam revelando espécies novas mesmo em pleno século XXI.
Uma árvore permanece visível durante anos.
Uma planta mico-heterotrófica minúscula pode não oferecer a mesma facilidade.
As espécies de Thismia possuem uma natureza efêmera acima do solo, aparecendo principalmente durante floração e frutificação.
Consequentemente, uma equipe pode explorar uma área em determinada época e não encontrar absolutamente nada.
Meses depois, no entanto, pequenas flores podem emergir da serapilheira.
Por isso, mapas de biodiversidade nunca representam necessariamente um inventário completo.
Às vezes, aquilo que parece ausente simplesmente estava escondido.
A descoberta eleva para 16 o número de espécies de Thismia conhecidas na Tailândia
Antes da descrição da nova espécie, pesquisadores reconheciam 15 espécies de Thismia na Tailândia.
Agora, com a inclusão da T. daemona, o número chega a 16.
Entretanto, os autores consideram provável que existam outras.
A Tailândia possui uma grande variedade de ecossistemas, desde florestas de baixada até ambientes montanhosos.
Além disso, áreas de maior altitude permanecem menos exploradas botanicamente.
Portanto, novas expedições podem encontrar parentes igualmente estranhos escondidos sob o chão da floresta.
A planta não é parasita de árvores diretamente; a história passa primeiro pelos fungos
A maneira como a Thismia obtém carbono merece atenção porque pode gerar interpretações erradas.
Ela não perfura simplesmente uma árvore e “suga” seus nutrientes.
O mecanismo envolve fungos subterrâneos.
Esses fungos estabelecem redes no solo e participam de relações ecológicas complexas.
A planta, por sua vez, obtém carbono através dessa associação.
Portanto, quando manchetes descrevem a espécie como uma planta que “rouba comida”, estão simplificando um mecanismo ecológico muito mais sofisticado.
Ainda assim, a imagem ajuda a compreender por que ela consegue viver praticamente sem exposição ao Sol.
Sem clorofila, a evolução deixou a planta com uma aparência que quase não lembra aquilo que esperamos de uma planta
A ausência de clorofila também transforma sua aparência.
Não existe necessidade de manter grandes superfícies verdes para captar luz.
Consequentemente, o organismo pode investir em uma estratégia completamente diferente.
Isso explica por que as Thismia frequentemente parecem estruturas vindas de outro grupo biológico.
Algumas espécies recebem o apelido de “fairy lanterns”, ou lanternas de fada, devido ao formato peculiar das flores.
A nova espécie, entretanto, seguiu para o extremo oposto da fantasia.
Em vez de fada, virou “demônio”.
Os “chifres” não são decoração: fazem parte da estrutura floral que ajuda cientistas a identificar o grupo
As três estruturas alongadas que deram à planta sua aparência demoníaca possuem importância taxonômica.
Os tépalos internos formam uma estrutura semelhante a uma mitra, da qual surgem três apêndices delgados.
Esse conjunto está entre as características utilizadas para reconhecer a seção Geomitra.
Assim, justamente aquilo que torna a flor tão chamativa para uma fotografia também fornece informação científica sobre sua posição evolutiva.
É um bom exemplo de como forma e classificação se encontram na botânica.
Análise genética usa milhares de posições do DNA para encaixar a nova espécie na árvore evolutiva
Os pesquisadores não confiaram apenas na aparência.
Para a análise filogenética, combinaram sequências de cinco regiões genéticas, três nucleares e duas mitocondriais.
O conjunto concatenado chegou a 5.498 caracteres analisados.
Além disso, os cientistas utilizaram métodos independentes de inferência filogenética para testar as relações evolutivas.
Os resultados sustentaram a inclusão da nova espécie dentro da seção Geomitra.
Consequentemente, a descrição reúne duas linhas de evidência:
morfologia e DNA.
Isso fortalece a conclusão de que a “flor do diabo” realmente representa uma espécie distinta.
A ciência encontra uma planta nova justamente quando tecnologias genéticas permitem enxergar diferenças antes difíceis de confirmar
A botânica moderna mudou profundamente com a genética molecular.
No passado, taxonomistas dependiam principalmente de forma, tamanho, estruturas reprodutivas e outras características visíveis.
Esses elementos continuam fundamentais.
Entretanto, sequenciamento e análises filogenéticas acrescentaram outra camada.
Agora, pesquisadores conseguem comparar parentesco evolutivo utilizando diretamente sequências do DNA.
Assim como novas tecnologias ampliam aquilo que pesquisadores conseguem observar em diferentes campos científicos, ferramentas moleculares ajudam botânicos a testar hipóteses que antes dependiam quase exclusivamente da anatomia.
No caso da T. daemona, as duas abordagens apontaram na mesma direção.
Descoberta também mostra como uma espécie pode ser rara e, ao mesmo tempo, simplesmente muito difícil de encontrar
Existe uma diferença importante entre raridade real e baixa detectabilidade.
A população conhecida possui menos de 50 indivíduos, o que justifica preocupação.
Entretanto, a própria biologia da planta torna qualquer levantamento difícil.
Ela é pequena.
Passa muito tempo escondida.
Além disso, vive entre folhas no chão de uma floresta.
Consequentemente, populações adicionais podem existir sem registro.
Essa incerteza não elimina o risco.
Ao contrário, reforça a necessidade de novas expedições para descobrir se a população encontrada representa uma ocorrência isolada ou apenas a primeira parte de uma distribuição maior.
Uma área aparentemente comum da floresta pode esconder espécies que não existem em nenhum outro lugar conhecido
Esse é um dos principais motivos pelos quais descobertas desse tipo têm importância para conservação.
O artigo classifica T. daemona como endêmica da Tailândia com base no conhecimento atual e conhecida apenas de sua localidade-tipo.
Portanto, destruir um pequeno micro-habitat pode signific perder uma parcela única da história evolutiva.
Isso também mostra por que áreas montanhosas pouco exploradas podem possuir importância muito maior do que aparentam.
Uma floresta não precisa abrigar grandes mamíferos carismáticos para possuir biodiversidade extraordinária.
Às vezes, seu organismo mais singular mede apenas alguns centímetros e passa quase toda a vida escondido.
A nova espécie também revela que ainda existem lacunas enormes no mapa da biodiversidade do sudeste asiático
O próprio estudo destaca que a diversidade e a distribuição de Thismia no sudeste asiático permanecem significativamente subestimadas.
Além disso, regiões remotas e habitats de altitude continuam pouco investigados.
Por isso, novas espécies podem aparecer conforme cientistas ampliam levantamentos.
A descoberta da T. daemona oferece uma demonstração concreta.
A seção Geomitra já era conhecida em outras partes da região.
Entretanto, ninguém havia confirmado sua presença tão ao norte.
Agora, uma única população obriga pesquisadores a redesenhar essa fronteira.
E encontrar novas espécies pode ficar mais urgente à medida que habitats mudam
Existe uma corrida silenciosa acontecendo na taxonomia.
Cientistas tentam catalogar espécies enquanto seus habitats sofrem transformações.
Mudanças climáticas, turismo, agricultura, expansão urbana e alterações florestais podem modificar microambientes antes mesmo de pesquisadores saberem quais organismos dependem deles.
Por isso, cada nova descrição também cria uma responsabilidade.
Depois que a ciência sabe que uma espécie existe, pode começar a avaliar ameaças e desenvolver estratégias de conservação.
Nesse sentido, a relação entre desenvolvimento e sustentabilidade também aparece em uma escala microscópica: preservar biodiversidade depende de entender exatamente o que existe antes de transformar um ambiente.
Os pesquisadores querem transformar a aparência assustadora da flor em uma vantagem para protegê-la
Curiosamente, o nome dramático pode ajudar.
Uma pequena planta marrom escondida sob folhas dificilmente atrairia a mesma atenção pública.
Já uma “flor do diabo” negra com chifres desperta curiosidade imediatamente.
Os pesquisadores defendem que comunidades locais participem da conservação e enxerguem a biodiversidade regional como patrimônio.
Além disso, o ecoturismo sustentável pode transformar a existência da espécie em incentivo para preservar seu habitat, desde que visitas não acabem justamente destruindo o microambiente que a mantém viva.
Assim, a aparência que inspirou o nome pode acabar contribuindo indiretamente para sua sobrevivência.
A descoberta aconteceu em 2025, mas só depois de comparar anatomia e DNA a planta ganhou oficialmente um nome
Existe ainda uma diferença importante entre encontrar e descrever cientificamente uma espécie.
Os exemplares utilizados no estudo foram coletados em maio de 2025.
Entretanto, os pesquisadores precisaram realizar análises, comparações taxonômicas e estudos moleculares antes de concluir a descrição.
O artigo foi recebido pela revista em junho de 2026, aceito em agosto e publicado na PhytoKeys.
Portanto, a planta provavelmente existiu naquele ambiente por incontáveis gerações.
Para a ciência, entretanto, Thismia daemona nasceu oficialmente apenas quando os pesquisadores conseguiram demonstrar que ela era diferente de todas as espécies já descritas.
Uma planta que não vê o Sol acaba revelando quanto ainda desconhecemos sobre aquilo que existe sob nossos pés
A Thismia daemona reúne quase todos os elementos de uma descoberta científica capaz de despertar curiosidade.
Ela é pequena.
É escura.
Possui estruturas semelhantes a chifres.
Não tem clorofila.
Não realiza fotossíntese.
Obtém carbono por meio de fungos subterrâneos.
Passa quase toda a vida escondida sob folhas.
Além disso, até agora, cientistas conhecem menos de 50 indivíduos em apenas uma população.
Ao mesmo tempo, sua descoberta em uma floresta montanhosa a quase 1.000 metros de altitude ampliou para o norte a distribuição conhecida de todo um grupo de Thismia.
Por isso, o maior mistério talvez não seja como uma planta consegue viver praticamente escondida do Sol.
É saber quantas outras espécies igualmente estranhas continuam debaixo das folhas enquanto pesquisadores passam a poucos centímetros delas sem perceber.
Se uma planta tão diferente conseguiu permanecer desconhecida até 2026 e hoje existem menos de 50 exemplares conhecidos, quantas outras espécies você acha que ainda podem estar escondidas nas florestas sem sequer terem recebido um nome?
Fonte
ScienceDaily
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Roberta Souza.

