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Uberlândia entra na rota das terras raras: projeto de R$ 2 bilhões dentro de complexo de 500 mil m² mira 50 mil toneladas por ano, 500 empregos e operação até 2030
Escrito por Paulo Nogueira
Publicado em 09/09/2026 às 16:52
Atualizado em 09/09/2026 às 16:55
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St George Mining e Grupo Lima & Pergher estudam instalar em Uberlândia um centro capaz de transformar minerais de Araxá em produtos de maior valor, preenchendo uma etapa industrial que ainda é gargalo no Brasil
Uma área industrial com mais de 500 mil metros quadrados em Uberlândia, Minas Gerais, poderá abrigar uma das peças que faltam para o Brasil avançar na cadeia das terras raras. Um projeto estimado em R$ 2 bilhões prevê criar um centro de separação e processamento com capacidade projetada de aproximadamente 50 mil toneladas por ano e potencial para gerar cerca de 500 empregos.
A iniciativa ganhou forma em 26 de agosto de 2026, quando a australiana St George Mining assinou um protocolo de intenções com o Grupo Lima & Pergher, controlador da Start Química, durante a Exposibram, em Belo Horizonte. A proposta ainda depende de estudos técnicos, licenciamento, definição societária e decisão final de investimento, com a operação preliminarmente projetada para 2030.
O detalhe mais importante, porém, não está apenas nos R$ 2 bilhões.
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Paulo Nogueira
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A ideia é conectar duas cidades mineiras em etapas diferentes da mesma cadeia: Araxá ficaria ligada à produção mineral, enquanto Uberlândia avançaria sobre processamento, separação química e transformação de terras raras em produtos com maior valor agregado.
É justamente essa etapa intermediária que o Brasil tenta desenvolver enquanto disputa espaço em um mercado estratégico para carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, defesa e fabricação de ímãs permanentes.
De Araxá para Uberlândia: minério poderá percorrer centenas de quilômetros antes de virar produto industrial
A St George Mining já desenvolve em Araxá um projeto de nióbio e terras raras que deverá ocupar posição central no abastecimento da futura unidade.
Segundo executivos ouvidos pela Reuters, a expectativa é iniciar a operação comercial do projeto mineral de Araxá em 2029, com capacidade para produzir aproximadamente 30 mil toneladas anuais de carbonato de terras raras.
Esse material poderia então seguir para Uberlândia.
No Triângulo Mineiro, entraria em cena uma etapa completamente diferente daquela realizada dentro da mina.
O centro planejado deverá receber carbonatos e submetê-los a processos químicos destinados à separação dos diferentes elementos presentes no material.
A capacidade considerada pelos executivos para a instalação chega a aproximadamente 50 mil toneladas de carbonato por ano por volta de 2030. Isso significa que o empreendimento também poderá receber matéria-prima proveniente de outros projetos minerais, e não somente de Araxá.
O CPG já acompanhou a expansão do próprio Projeto Araxá, inclusive a entrada de uma fabricante asiática de baterias como sócia em parte do desenvolvimento de terras raras e nióbio em Minas Gerais.
Fabricante asiática entra como sócia no Projeto Araxá de terras raras e nióbio
Uma fábrica química que já existe pode encurtar o caminho para a nova indústria
Outro elemento diferencia o projeto de uma planta construída completamente do zero.
O centro está sendo avaliado para funcionar dentro do complexo industrial da START, divisão química e industrial do Grupo Lima & Pergher, em Uberlândia.
A área possui mais de 500 mil m² e já dispõe de infraestrutura industrial, energia, acesso logístico, produtos químicos e mão de obra especializada.
A lógica da parceria divide competências.
A St George entra com conhecimento em terras raras, desenvolvimento mineral e potencial fornecimento de matéria-prima.
Já a START oferece experiência em processamento químico e uma estrutura industrial instalada onde a nova operação poderá ser desenvolvida.
As empresas estudam inclusive a constituição de uma nova companhia para construir, controlar e operar conjuntamente o centro.
Se essa estrutura avançar, Uberlândia deixará de funcionar apenas como um centro logístico e industrial e passará a integrar uma cadeia mineral estratégica que começa centenas de quilômetros antes, em Araxá.
50 mil toneladas por ano: o projeto quer atacar justamente o gargalo do refino
Extrair terras raras é apenas o começo.
O minério retirado do solo precisa passar por beneficiamento, concentração, separação química e outras etapas antes de chegar a materiais que possam efetivamente alimentar cadeias industriais de alta tecnologia.
E é justamente nessa transformação que existe um dos maiores gargalos brasileiros.
A própria St George afirma que o objetivo da iniciativa é desenvolver no país uma etapa industrial que ainda limita o crescimento da cadeia nacional de terras raras.
Inicialmente, o centro poderá separar quimicamente os concentrados para produzir materiais como óxidos de lantânio e cério, além de óxidos magnéticos e elementos pesados de maior valor.
Em uma etapa posterior, esses produtos poderão seguir para fabricantes de ímãs, consumidores industriais ou mercados internacionais.
Isso muda completamente a lógica econômica.
Exportar um concentrado mineral significa vender uma matéria-prima que ainda precisa passar por diferentes processos industriais.
Separar, refinar e transformar esse mesmo material dentro do Brasil permite manter no país uma parcela maior do valor criado entre a mina e o produto final.
Brasil tem minerais no subsolo, mas o desafio é transformar reserva em indústria
Esse contraste ajuda a explicar por que projetos de processamento ganharam importância.
O Brasil possui uma das maiores bases de recursos de minerais críticos do planeta, mas ainda ocupa uma posição muito menor nas etapas industriais de processamento e transformação.
O CPG já mostrou esse paradoxo ao analisar como o país reúne cerca de 10% das reservas mundiais de minerais críticos, mas participa com uma parcela muito pequena da produção global.
Brasil possui grandes reservas de minerais críticos, mas ainda produz uma fração do potencial
A consequência aparece quando o material deixa a mina.
Mesmo países que conseguem iniciar novas operações minerais ainda podem depender de outros mercados para realizar separação, refino e fabricação de componentes.
Um caso brasileiro ilustra esse problema.
A Serra Verde, em Goiás, tornou-se uma das principais novas operações de terras raras fora da Ásia, mas parte importante de sua produção inicial foi comercializada com compradores chineses.
O CPG detalhou como uma mina financiada por capital ocidental para diversificar a oferta global acabou enviando grande parte do material exatamente para o país que domina a cadeia.
Mina brasileira de terras raras financiada por investidores ocidentais vende produção para a China
O projeto entre Araxá e Uberlândia tenta avançar justamente para a etapa seguinte.
O que sai da planta poderá entrar em carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos
O termo “terras raras” engloba um conjunto de elementos com propriedades muito específicas.
Alguns deles são fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho.
Esses componentes aparecem em motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, robótica, sistemas industriais e tecnologias militares.
Por isso, possuir o mineral não significa automaticamente dominar a cadeia.
Entre retirar minério do solo e fabricar um ímã existe uma sequência industrial complexa.
O futuro centro de Uberlândia pretende ocupar justamente algumas dessas etapas intermediárias, começando pela separação química e produção de óxidos.
A própria St George já sinalizou que etapas futuras poderão abastecer fabricantes de ímãs, consumidores industriais ou exportadores.
China domina justamente a parte da cadeia que Minas Gerais quer desenvolver
A corrida pelas terras raras se intensificou porque a concentração do processamento mundial criou uma vulnerabilidade estratégica para grandes economias.
Não basta abrir uma mina fora da China.
Se o minério continuar precisando viajar para instalações chinesas para ser separado e refinado, boa parte da dependência permanece.
É justamente por isso que Estados Unidos, União Europeia, Austrália e outros países passaram a incentivar não apenas mineração, mas também processamento e fabricação de materiais.
O CPG já mostrou como essa concentração colocou até grandes economias europeias diante de forte dependência externa para minerais estratégicos.
Europa enfrenta dependência externa enquanto Brasil guarda minerais estratégicos
Nesse cenário, uma instalação capaz de separar terras raras dentro de Minas Gerais deixa de ser apenas mais uma fábrica química.
Ela passa a representar uma tentativa de colocar o Brasil em uma etapa industrial que concentra tecnologia, conhecimento e maior valor econômico.
Cerca de 500 empregos podem nascer onde hoje existe um protocolo de intenções
Para Uberlândia, o impacto mais imediato aparece na estimativa de mão de obra.
Segundo informações divulgadas pelas empresas, o empreendimento poderá gerar aproximadamente 500 empregos.
Mas uma planta de processamento químico dessa dimensão tende a movimentar uma cadeia mais ampla antes mesmo da operação.
O projeto poderá exigir serviços de engenharia, construção civil industrial, terraplenagem, estruturas metálicas, montagem eletromecânica, tubulações, elétrica, instrumentação, automação, tratamento de água e efluentes, controle ambiental e segurança de processos.
O complexo industrial já existente também pode reduzir parte das necessidades que normalmente acompanham a implantação de um empreendimento greenfield.
Ainda assim, há uma distância considerável entre o protocolo assinado e uma planta industrial produzindo em escala comercial.
R$ 2 bilhões ainda são estimativa e projeto precisa atravessar licenciamento e decisão de investimento
Esse ponto é fundamental.
O anúncio não significa que uma fábrica de R$ 2 bilhões já esteja contratada ou em construção.
A St George e o Grupo Lima & Pergher assinaram um protocolo de intenções para avaliar e desenvolver conjuntamente o centro.
Os percentuais de participação de cada companhia ainda não haviam sido definidos, assim como os valores que caberão individualmente a cada parceiro.
O desenho final também dependerá dos estudos de viabilidade técnica e econômica.
Depois disso, ainda serão necessárias etapas de licenciamento e uma decisão final de investimento.
O Governo de Minas participa por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e da Invest Minas, com apoio previsto em áreas como licenciamento, articulação com fornecedores e avaliação de incentivos.
Portanto, 2030 é uma meta, e não uma data de operação garantida.
Se avançar, projeto pode transformar Araxá e Uberlândia em duas pontas da mesma cadeia industrial
A história que começa em Araxá poderá terminar a centenas de quilômetros dali.
De um lado, uma área mineral com terras raras e nióbio.
Do outro, um complexo químico preparado para receber material e submetê-lo a processos que aumentam seu valor industrial.
Entre os dois está um investimento estimado em R$ 2 bilhões, uma capacidade projetada de 50 mil toneladas anuais, aproximadamente 500 empregos e uma meta de operação até 2030.
Minas Gerais já possui outros projetos relevantes de terras raras. O CPG mostrou, por exemplo, o avanço de investimentos bilionários relacionados a esses minerais na região de Caldas.
Minas Gerais avança em novos projetos bilionários de terras raras
A diferença da iniciativa de Uberlândia é justamente sua posição na cadeia.
Ela não pretende simplesmente encontrar mais minério.
Pretende receber o material depois da mineração e transformá-lo em produtos mais próximos das indústrias que realmente consomem terras raras.
Se os estudos confirmarem a viabilidade, o licenciamento avançar e os sócios aprovarem o investimento, Araxá e Uberlândia poderão funcionar como duas etapas complementares de uma mesma cadeia: uma fornece o recurso mineral; a outra tenta impedir que o valor agregado viaje junto com ele para fora do Brasil.
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Fonte
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Paulo Nogueira.

