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Helicópteros despejam fardos de feno sobre rebanhos isolados na Austrália após enchentes transformarem quilômetros do interior em um verdadeiro “mar”, cortarem estradas, trilhos e pistas e deixarem comunidades inteiras cercadas pela água
Escrito por Ana Alice
Publicado em 09/09/2026 às 23:21
Atualizado em 09/09/2026 às 23:22
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Após chuvas excepcionais inundarem o interior de Queensland, helicópteros passaram a lançar feno para rebanhos cercados pela água, enquanto produtores e autoridades ampliavam uma operação emergencial que alcançou milhões de dólares.
O barulho da chuva que castigou o interior de Queensland, na Austrália, foi substituído pelo som quase constante de helicópteros.
Sobre propriedades cercadas por quilômetros de água, pilotos passaram a transportar e lançar fardos de feno para alcançar rebanhos isolados, enquanto pecuaristas tentavam conduzir animais para os poucos terrenos ainda elevados.
A operação ganhou força nos primeiros dias de janeiro de 2026, principalmente nos arredores de Julia Creek, uma das áreas mais atingidas pelas enchentes no noroeste do estado.
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Estradas, linhas ferroviárias e pistas de pouso ficaram interrompidas, transformando comunidades rurais em verdadeiras ilhas e fazendo do transporte aéreo uma das poucas alternativas para manter o gado alimentado.
O pecuarista Cody Rogers, envolvido na coordenação dos voos, contou à ABC australiana que sua equipe já havia distribuído 70 ou 80 fardos em propriedades da região.
Apenas em um dos dias da operação, segundo ele, combustível, feno e horas de helicóptero custaram aproximadamente A$ 40 mil.
Diante da emergência, os governos da Austrália e de Queensland anunciaram inicialmente um pacote conjunto de A$ 2 milhões para garantir alimento aos animais isolados.
O auxílio começou direcionado ao município de McKinlay, onde fica Julia Creek, e posteriormente foi ampliado conforme a dimensão dos danos ficou mais clara.
Uma chuva quase dez vezes maior que a média de dezembro
A dimensão da inundação ajuda a explicar por que propriedades normalmente acessíveis por estrada precisaram depender de helicópteros.
Dados do Bureau of Meteorology mostram que o aeroporto de Julia Creek acumulou 551,4 milímetros de chuva em dezembro de 2025, contra uma média histórica de aproximadamente 55,5 milímetros para o mês.
Foi o maior total de dezembro registrado naquele ponto em mais de duas décadas de observações.
Só em 30 de dezembro foram medidos 151,8 milímetros.
A maior parte da chuva caiu nos últimos dias do mês, quando uma baixa pressão tropical associada à monção avançou sobre o norte e o noroeste de Queensland.
O resultado apareceu rapidamente nos rios.
O Flinders, em Julia Creek, chegou a aproximadamente 4,88 metros em 30 de dezembro, ultrapassando o nível considerado de grande inundação.
A água permaneceu elevada por semanas e novas chuvas em janeiro prolongaram os alagamentos.
Um “mar interior” tomou conta das propriedades
A Queensland Reconstruction Authority chegou a descrever a paisagem depois das chuvas como um “inland sea” — um mar interior.
Pasto, cercas, estradas e acessos desapareceram sob a água.
Em alguns pontos, o problema para os pecuaristas não era apenas impedir que os animais se afogassem.
Mesmo bovinos que conseguiam chegar a terrenos mais altos acabavam cercados pela inundação, sem acesso suficiente ao capim e impossibilitados de receber alimento por caminhão.
Helicópteros passaram então a cumprir duas funções.
Enquanto algumas equipes transportavam feno, pilotos e produtores também trabalhavam para conduzir o gado através da água até áreas mais altas.
Rogers descreveu à ABC uma equipe de pilotos atuando diretamente nessa movimentação durante dois dias consecutivos.
A operação dependia, porém, de um recurso caro.
Cada voo consome combustível, horas de aeronave e pessoal especializado.
Além disso, era necessário comprar ou deslocar o próprio alimento até pontos onde pudesse ser carregado.
A$ 2 milhões foram anunciados para manter o feno chegando
Em 2 de janeiro de 2026, os governos federal e estadual anunciaram o primeiro pacote emergencial voltado especificamente à distribuição de alimento.
Os A$ 2 milhões foram financiados conjuntamente por meio dos Disaster Recovery Funding Arrangements, mecanismo utilizado pelos dois níveis de governo para responder a grandes desastres.
Inicialmente, o foco era McKinlay Shire.
Pouco depois, o alcance foi ampliado para produtores de Carpentaria, Cloncurry, Flinders, McKinlay e Richmond.
O dinheiro poderia cobrir justamente os custos extraordinários da operação, incluindo combustível de aviação, aluguel de helicópteros e salários adicionais ligados à distribuição aérea de feno.
Os pecuaristas precisavam comunicar a necessidade aos conselhos locais, que organizariam o apoio.
Naquele momento, a ministra de Recuperação de Desastres de Queensland, Ann Leahy, afirmou que outras áreas poderiam ser incorporadas caso novos pedidos e impactos justificassem a expansão.
O pacote de A$ 2 milhões acabou crescendo
A extensão da inundação levou essa ampliação a ocorrer poucos dias depois.
Em 6 de janeiro, os governos anunciaram mais A$ 5 milhões para o programa emergencial de alimentação, fazendo o pacote então chegar a A$ 7 milhões.
O reforço fazia parte de um conjunto adicional de A$ 38 milhões destinado à recuperação do noroeste de Queensland.
Nos meses seguintes, o apoio cresceu novamente.
Informações atualizadas do governo de Queensland registram atualmente um programa coordenado de A$ 12 milhões para fornecimento emergencial de alimento, cobrindo dez áreas de governo local, entre elas McKinlay, Cloncurry, Richmond e Winton.
Assim, os A$ 2 milhões citados no início da operação foram o primeiro pacote, anunciado quando ainda não se conhecia toda a extensão dos prejuízos.
Número de animais perdidos aumentou com o recuo das águas
Nos primeiros dias de janeiro, o Department of Primary Industries ainda não tinha um balanço consolidado.
Alguns proprietários relatavam perdas pequenas, enquanto outros tentavam encontrar rebanhos inteiros que haviam desaparecido em áreas alagadas.
À medida que as avaliações avançaram, os números cresceram.
Em 6 de janeiro, autoridades já falavam em mais de 24 mil animais mortos ou desaparecidos em propriedades afetadas.
Em fevereiro, documentos do Parlamento de Queensland registravam mais de 94 mil cabeças de gado e outros animais de produção declarados mortos ou desaparecidos.
O Bureau of Meteorology, em seu balanço posterior da temporada, passou a estimar que as enchentes provocaram perdas superiores a 100 mil bovinos no noroeste de Queensland.
Isso coloca a imagem dos helicópteros soltando fardos sobre áreas alagadas dentro de uma operação muito maior do que parecia nos primeiros dias.
Julia Creek recebeu quase dez vezes sua chuva normal
A própria prefeitura regional de McKinlay detalhou posteriormente a excepcionalidade do episódio.
Entre 24 e 31 de dezembro, Julia Creek recebeu 498,6 milímetros de chuva, e outros 75,8 milímetros foram registrados apenas na primeira semana de janeiro.
Moradores de longa data compararam o episódio com as grandes enchentes de 2019 e até com inundações de 1974.
Apesar das comparações, cada desastre teve distribuição e intensidade diferentes.
No caso de 2025 e 2026, o volume acumulado de dezembro chamou atenção: os 551,4 milímetros registrados no aeroporto foram quase dez vezes a média histórica daquele mês.
O Bureau of Meteorology classificou dezembro de 2025 como o dezembro mais chuvoso em Queensland desde 2010, com grandes áreas do norte e do oeste do estado registrando totais muito acima da média ou recordes históricos.
Mesmo depois da emergência, alimento continuou chegando
A necessidade não terminou quando os primeiros helicópteros deixaram de dominar o céu.
Em março de 2026, uma organização beneficente que atuou em Julia Creek informou ter distribuído mais de 200 toneladas de ração e alimento doados a produtores e pecuaristas afetados pelas enchentes.
Meses depois, o governo de Queensland ainda mantinha mecanismos específicos de apoio para propriedades atingidas pelo período de chuvas entre dezembro de 2025 e março de 2026.
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Ana Alice
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Para quem observava de cima durante os dias mais críticos, porém, a urgência era muito mais imediata.
Onde antes havia extensões de pasto e estradas rurais, havia água.
Onde os caminhões não conseguiam chegar, o alimento precisava vir pelo ar.
E foi assim que fardos de feno começaram a descer de helicópteros sobre um pedaço do interior australiano temporariamente transformado em um mar de água doce com milhares de animais esperando em pequenas faixas de terra seca.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

