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Pesquisadores revelam que trabalhadores do século XIX apostavam em loterias para reunir dinheiro, comprar alforrias e enfrentar a escravidão durante o Império brasileiro
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 10/09/2026 às 19:36
Atualizado em 10/09/2026 às 19:37
Economia
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Estudo sobre a Loteria do Ipiranga revela que trabalhadores livres, libertos e escravizados juntavam pequenas quantias, compravam bilhetes coletivamente e viam nos sorteios uma possível saída da pobreza e do domínio dos senhores.
As loterias brasileiras do século XIX representavam mais do que uma aposta para parte da população pobre. Entre pessoas escravizadas, um prêmio poderia fornecer o dinheiro necessário para comprar a alforria, documento que reconhecia legalmente a liberdade.
A pesquisa foi publicada em 11 de julho de 2014 pela revista História, periódico científico mantido pela Unesp. O trabalho da pesquisadora Beatriz Ana Loner analisou anúncios, registros de cartórios e jornais produzidos no fim do Império.
O caso principal ocorreu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde trabalhadores formaram grupos para dividir o preço dos bilhetes. Livres, libertos e escravizados participaram dessas apostas, embora tivessem condições sociais e objetivos diferentes.
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Loteria do Ipiranga financiava um monumento e mobilizou milhões de pessoas
A Loteria do Ipiranga foi autorizada em 6 de abril de 1880 pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Sua finalidade inicial era arrecadar recursos para a construção do Monumento do Ipiranga. Antes do sorteio, outra lei destinou os benefícios arrecadados à educação fundamental.
A extração estava marcada para dezembro de 1880, mas problemas na administração das apostas provocaram o adiamento. O sorteio aconteceu em 26 de fevereiro de 1881 e pagou 1.000 contos de réis no primeiro prêmio, quantia considerada enorme naquele período.
O interesse alcançou diversas regiões do país. Perto da extração, quase 6 milhões de pessoas, contando apostadores e suas famílias, estavam diretamente interessadas no resultado. Em Pelotas, jornais registraram grande procura por bilhetes e forte expectativa popular.
Esse movimento não tinha uma finalidade abolicionista geral. A loteria arrecadava dinheiro para objetivos definidos pelo poder público, enquanto alguns trabalhadores escravizados usavam as apostas como uma estratégia particular para buscar a liberdade.
Trabalhadores se organizavam para comprar partes de bilhetes
O preço de um bilhete inteiro dificultava a participação das pessoas pobres. A saída encontrada foi reunir trabalhadores, dividir o pagamento e repartir um eventual prêmio. Algumas sociedades lotéricas publicavam nos jornais os números comprados e os nomes dos participantes.
As apostas também podiam ser feitas por meio bilhete ou por um quarto de bilhete. Dessa maneira, pessoas com poucos recursos conseguiam participar. Os grupos compravam vários números para tentar ampliar suas possibilidades no sorteio.
Em setembro de 1881, um agrupamento formado por 26 apostadores afrodescendentes comprou cinco bilhetes inteiros e um quarto de outro. Entre seus integrantes havia trabalhadores livres, libertos e escravizados.
Outro exemplo foi a Associação Lotérica Beneficente Feliz Esperança. Sua direção reunia afrodescendentes de diferentes situações legais, e os indícios levantados na pesquisa apontam que um de seus objetivos era libertar os sócios que permaneciam escravizados.
Pessoas escravizadas viam no prêmio uma chance de comprar a própria liberdade
A possibilidade de guardar recursos próprios facilitou a participação de pessoas escravizadas nas apostas. Esse dinheiro guardado recebia o nome de pecúlio. Quando o valor se tornava suficiente, poderia ser usado na negociação da alforria com o senhor.
Para um trabalhador livre, vencer na loteria poderia significar deixar um serviço pesado, comprar uma casa ou enfrentar a velhice com alguma segurança. Para uma pessoa escravizada, o dinheiro tinha um peso ainda maior: permitia tentar recuperar o controle sobre o próprio corpo e a própria vida.
A revista História, periódico científico mantido pela Unesp, registrou casos em que os ganhos pagaram alforrias. Em 1881, Joaquina recebeu um prêmio e entregou 600 mil réis para ajudar na libertação do irmão Bernardino. Ele acrescentou outros 600 mil réis para completar o valor exigido pelo proprietário.
A escolha nem sempre era simples. Joaquina ajudou o irmão, mas continuou escravizada. O episódio revela como um prêmio insuficiente para libertar toda a família podia obrigar seus integrantes a decidir quem teria acesso primeiro à liberdade legal.
Oito trabalhadores dividiram o maior prêmio da Loteria do Ipiranga
O primeiro prêmio sorteado em fevereiro de 1881 foi dividido por oito trabalhadores de Pelotas. O grupo tinha quatro homens e quatro mulheres, sendo quatro pessoas brancas e quatro afrodescendentes.
Entre os ganhadores havia cinco pessoas livres, uma liberta e duas escravizadas. O grupo incluía uma dona de casa, dois sapateiros, um caixeiro português, o filho de um homem liberto, uma mulher liberta e duas mulheres mantidas em cativeiro.
As duas ganhadoras escravizadas eram Clarinda, com cerca de 16 anos, e Josepha Campos, então com 58 anos. A primeira providência de ambas foi comprar suas próprias alforrias.
Josepha trabalhou como lavadeira durante grande parte da vida. Depois de receber o prêmio, também financiou a liberdade de parentes e amigos. Ela ajudou a libertar João, homem com mais de 70 anos com quem se casou, além de Francisca e seus dois filhos.
O prêmio trouxe liberdade, mas também cobranças e exploração
A chegada repentina do dinheiro despertou o interesse de intermediários, comerciantes e pessoas que pediam ajuda. Os nomes dos vencedores circularam rapidamente pelos jornais, enquanto os ganhadores afrodescendentes passaram a receber cobranças públicas para libertar parentes e conhecidos.
Alguns compradores aumentavam os preços de imóveis e outros bens ao negociar com os premiados. Os registros analisados indicam que parte dos vencedores perdeu grande parcela da fortuna ao longo dos anos. Houve compras ruins, doações, dívidas e negócios que não deram certo.
O prêmio melhorou a vida dos ganhadores, ainda que essa melhora não tenha durado para todos. Clarinda conseguiu a liberdade, formou uma família e teve filhos que aprenderam a ler e escrever. Josepha usou parte de seus recursos para ampliar a liberdade além de sua própria vida.
A experiência também revela uma contradição. Quando um senhor descobria que uma pessoa escravizada tinha recebido um prêmio, podia exigir uma quantia maior pela alforria. Assim, até o caminho para comprar a liberdade permanecia sujeito aos interesses de quem mantinha o domínio legal sobre o trabalhador.
A história das loterias também guarda disputas por dignidade
As loterias do período imperial financiavam obras, instituições e outros projetos. Ao mesmo tempo, faziam parte do cotidiano de trabalhadores que enfrentavam pobreza, falta de proteção social e, em muitos casos, a própria escravidão.
Isso não transforma todos os sorteios em campanhas pela abolição. O que a pesquisa revela é a maneira como grupos específicos se apropriaram das apostas. Para eles, um pedaço de bilhete podia representar a esperança de liberdade, moradia e segurança para a família.
A Loteria do Ipiranga ficou ligada à construção de um monumento nacional, mas também deixou histórias menos conhecidas. Entre elas estão as de pessoas escravizadas que juntaram dinheiro, organizaram sociedades e arriscaram pequenas economias para tentar mudar o próprio destino.
Você já conhecia essa relação entre as loterias brasileiras e a busca pela liberdade no século XIX? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe esta história para que mais pessoas conheçam esse lado pouco lembrado do Brasil.
Fonte
revista História
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

