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Instituição compra antiga fazenda leiteira de 190 hectares, reduz a interferência humana e, apenas três anos depois, encontra uma transformação surpreendente: espécies de aves saltam de 67 para 94, borboletas mais que dobram e animais passam a reconstruir sozinhos uma paisagem antes dominada pela produção agrícola
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 14/09/2026 às 08:55
Atualizado em 14/09/2026 às 08:57
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Depois de décadas moldada pela produção de leite, a Heal Somerset devolveu trajetos naturais aos riachos, preservou troncos caídos e deixou castores e porcos Tamworth assumirem parte do trabalho, criando uma surpreendente combinação de clareiras, áreas alagadas, arbustos e bosques onde a vida selvagem começou a reaparecer em ritmo inesperado
Durante décadas, uma área rural próxima à cidade de Frome, no sudoeste da Inglaterra, funcionou como fazenda leiteira. Pastagens, cursos d’água alterados e atividades agrícolas determinavam a aparência da propriedade.
A paisagem, porém, começou a mudar depois que a organização Heal Rewilding adquiriu o terreno, em dezembro de 2022, com apoio de doações e empréstimos filantrópicos.
Em vez de tentar plantar uma floresta uniforme ou criar um santuário dedicado a apenas uma espécie, a instituição reduziu a interferência humana e devolveu espaço aos processos naturais.
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Três anos depois, os levantamentos registraram uma transformação expressiva. O número de espécies de aves observadas no local passou de 67 para 94. Enquanto isso, a variedade de borboletas saltou de 11 para 24 espécies.
Os dados fazem parte do primeiro relatório sobre o estado da natureza na propriedade, denominada Heal Somerset. O documento mostra como uma antiga fazenda pode recuperar parte de sua biodiversidade quando a exploração intensiva diminui e diferentes ambientes voltam a ocupar o terreno.
Morcegos e pequenos mamíferos ampliam lista de animais encontrados
A recuperação não ficou restrita às aves e borboletas. Os pesquisadores também identificaram pelo menos 15 espécies de morcegos vivendo ou procurando alimento na propriedade.
Além disso, o monitoramento encontrou 60 espécies de aves em reprodução. Entre elas estão o dom-fafe e a petinha-das-árvores, espécies que enfrentam dificuldades de conservação no Reino Unido.
Um levantamento realizado com armadilhas não letais também revelou a presença de cinco espécies de pequenos mamíferos. Em uma fazenda leiteira orgânica próxima, utilizada como comparação, os pesquisadores encontraram três.
Essa diferença não significa que toda área agrícola precise ser abandonada. Contudo, o resultado indica que a criação de refúgios com menos perturbação pode favorecer animais que encontram poucos locais seguros em paisagens dominadas por pastagens e monoculturas.
Áreas com arbustos, madeira em decomposição, trechos úmidos e vegetação em diferentes alturas oferecem abrigo e alimento durante várias épocas do ano. Consequentemente, a propriedade passa a sustentar uma cadeia ecológica mais complexa.
Castores modificam riachos enquanto porcos abrem clareiras no terreno
Uma das principais mudanças ocorreu nos cursos d’água. A equipe permitiu que os riachos recuperassem trajetos mais naturais, em vez de mantê-los completamente canalizados ou controlados.
Castores que circulam livremente pelos rios do leste de Somerset também chegaram à região. Ao construir pequenas barragens, esses animais reduzem a velocidade da água e formam áreas alagadas.
Esses novos ambientes podem beneficiar anfíbios, insetos, aves e plantas aquáticas. Além disso, a retenção de água ajuda a deixar a paisagem mais resistente durante períodos secos.
A Heal Rewilding também decidiu manter troncos caídos e madeira morta no solo. Embora esse material possa parecer um sinal de abandono, ele funciona como abrigo para fungos, besouros, pequenos mamíferos e outros organismos.
Dois porcos da raça Tamworth foram introduzidos na propriedade. Ao procurar raízes e alimento, eles revolvem o solo, abrem clareiras e criam condições para o nascimento de diferentes plantas.
A instituição ainda planeja introduzir pequenos grupos de bovinos e pôneis. O pastoreio controlado desses animais deverá impedir que arbustos e árvores cubram toda a área.
Assim, o terreno poderá manter um mosaico formado por pastagens, moitas, clareiras, áreas úmidas e bosques jovens. Essa variedade explica parte da capacidade da propriedade de receber espécies com necessidades diferentes.
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Renaturalização não significa simplesmente abandonar a propriedade
O projeto utiliza uma abordagem conhecida como renaturalização, ou rewilding. Nesse modelo, os responsáveis restauram processos ecológicos e permitem que a própria natureza determine parte do resultado.
Isso não significa fechar os portões e deixar o território sem acompanhamento. Pesquisadores, funcionários e mais de 250 voluntários participam de levantamentos, ações comunitárias e atividades com escolas.
A instituição também monitora os resultados para descobrir quais medidas funcionam e quais problemas exigem intervenção. Dessa forma, a recuperação ambiental produz dados que podem orientar outros projetos britânicos.
Segundo Jan Stannard, cofundadora e diretora-executiva da Heal Rewilding, ninguém sabia exatamente qual seria a resposta da propriedade quando o trabalho começou, em janeiro de 2023. A estratégia exigiu paciência para permitir que os processos naturais voltassem a atuar.
O guarda-florestal Dan Hill também observou uma mudança visível na paisagem. Onde antes predominava uma estrutura agrícola relativamente uniforme, agora existem diferentes alturas de vegetação, mais animais e uma variedade maior de habitats.
Os primeiros resultados são promissores, mas representam apenas o começo de uma transformação que pode levar décadas. Árvores precisam crescer, solos degradados levam tempo para se recuperar e algumas espécies dependem da conexão com outras áreas naturais.
Ainda assim, o salto de 67 para 94 espécies de aves e o aumento de 11 para 24 espécies de borboletas mostram que mudanças mensuráveis podem surgir em um período relativamente curto.
A experiência da Heal Somerset reforça que a recuperação ambiental não depende exclusivamente do plantio de milhares de árvores. Em alguns casos, devolver espaço à água, manter troncos caídos, permitir o crescimento de arbustos e aceitar a ação de animais pode produzir uma paisagem mais rica e diversa.
Três anos são suficientes para comprovar o sucesso definitivo de uma renaturalização ou os resultados mais importantes da antiga fazenda ainda aparecerão nas próximas décadas?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

