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Tradicional fabricante brasileira que vendia calçados para 45 países fecha fábrica após mais de 55 anos e deixa cerca de 200 trabalhadores sem emprego em cidade de apenas 35 mil habitantes
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 14/09/2026 às 12:35
Atualizado em 14/09/2026 às 12:41
Economia
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Calçados Tabita encerrou a produção em Igrejinha, onde o setor calçadista sustenta parte expressiva dos empregos, e agora pede autofalência com R$ 31,2 milhões relacionados a credores
Uma fabricante brasileira que atravessou mais de cinco décadas, exportou calçados para mais de 45 países e empregou centenas de pessoas terminou 2026 em uma situação radicalmente diferente daquela construída ao longo de sua história.
A Calçados Tabita, de Igrejinha, no Rio Grande do Sul, encerrou a produção em março e deixou aproximadamente 200 trabalhadores sem emprego. O impacto ganha outra dimensão quando se observa o tamanho do município: são cerca de 35 mil habitantes em uma cidade cuja economia mantém forte ligação com a indústria calçadista.
Seis meses depois do fechamento, veio um novo capítulo. Em 8 de setembro de 2026, a companhia protocolou pedido de autofalência com R$ 31,2 milhões relacionados a credores.
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Paulo Nogueira
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O contraste é difícil de ignorar. Em abril de 2025, a empresa havia sido homenageada pelos 55 anos de atividade. Pouco mais de um ano depois, a fábrica estava fechada, parte do maquinário havia sido vendida e milhões de reais apareciam em uma relação de credores levada à Justiça.
Em cidade de 35 mil habitantes, cerca de 200 postos desapareceram de uma única fábrica
Igrejinha não é uma grande capital onde algumas centenas de demissões se diluem facilmente em um mercado de trabalho com milhões de pessoas.
Dados divulgados pela administração municipal indicam que aproximadamente 40% dos empregos locais estão ligados ao setor calçadista. Em 2024, cerca de 5 mil pessoas trabalhavam nessa indústria dentro do município.
Nesse contexto, os aproximadamente 200 postos eliminados com o fechamento da Tabita equivalem, em ordem de grandeza, a cerca de 4% dos empregos calçadistas que a cidade registrava naquele período.
Não há dados suficientes para atribuir ao fechamento uma queda específica na arrecadação ou no comércio local. Mas o impacto direto sobre centenas de famílias é evidente, especialmente em um município pequeno e historicamente dependente justamente da atividade que perdeu uma de suas fabricantes tradicionais.
Seis instituições financeiras concentram mais de R$ 24 milhões
A relação apresentada no pedido de autofalência mostra que a maior parte do passivo está concentrada no sistema financeiro.
Seis instituições reúnem aproximadamente R$ 24,37 milhões, cerca de 78% do total relacionado aos credores.
O Banco do Brasil aparece com aproximadamente R$ 7,85 milhões, seguido pelo Sicoob Maxicrédito, com cerca de R$ 7,79 milhões.
Também constam aproximadamente R$ 2,68 milhões para o Banco Safra, R$ 2,53 milhões para a Cresol, R$ 2,25 milhões para o Itaú Unibanco e R$ 1,26 milhão para o Banrisul.
A lista inclui ainda aproximadamente R$ 1,49 milhão em créditos tributários e cerca de R$ 1,63 milhão em créditos de sócios e administradores, classificados como subordinados.
Os números revelam o tamanho da crise financeira de uma empresa que, por décadas, movimentou produção, empregos, fornecedores e exportações.
Empresa nasceu produzindo 50 pares por dia e chegou a vender para dezenas de países
A trajetória da Tabita começou em 1970, inicialmente sob a razão social Ermel e Martens Ltda.
A operação nasceu em uma área de apenas 60 metros quadrados, com produção próxima de 50 pares de calçados de couro por dia.
Décadas depois, a escala era completamente diferente. Em determinados períodos, a empresa chegou a fabricar entre 2,5 mil e 3,5 mil pares diariamente.
Em 2020, quando completou 50 anos, a companhia informava produção próxima de 3.500 pares por dia, cerca de 250 funcionários e exportação de aproximadamente metade do volume fabricado.
Os produtos chegaram a compradores de mais de 45 países.
A empresa também ampliou instalações, adquiriu a marca Divalesi, avançou no comércio eletrônico e construiu uma operação com presença tanto no mercado brasileiro quanto internacional.
É justamente esse histórico que torna o desfecho tão incômodo: uma indústria que conseguiu crescer, exportar e empregar centenas de pessoas terminou sem capacidade para manter a própria produção.
Incêndio, enchentes, pandemia e crédito caro aparecem entre as causas apresentadas
A Tabita afirma que sua crise não foi provocada por um único acontecimento.
No pedido judicial, aparecem entre os fatores mencionados os efeitos da pandemia de Covid-19, as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, o aumento do custo do crédito, dificuldades no mercado externo e um incêndio ocorrido em 16 de maio de 2025.
O fogo atingiu parte das instalações da fábrica. Não houve feridos, mas a própria companhia estima perdas próximas de R$ 4 milhões.
A Tabita também afirma que a seguradora teria pago menos da metade do prejuízo estimado e que o pagamento ocorreu com atraso. Como essas informações partem da própria empresa, devem ser tratadas como alegações apresentadas no processo.
A sequência dos acontecimentos chama atenção: em abril de 2025, a fabricante celebrava 55 anos; no mês seguinte, sofria um incêndio; menos de um ano depois, encerrava a produção.
Tarifa dos Estados Unidos pressionou uma empresa dependente das exportações
A companhia também cita as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entre os fatores que agravaram sua situação.
Isso tinha peso porque o mercado externo fazia parte importante da operação da Tabita.
A empresa afirma que os Estados Unidos estavam entre seus mercados em expansão quando as novas tarifas passaram a reduzir a competitividade dos produtos brasileiros.
Dados do próprio setor calçadista mostraram forte retração dos embarques brasileiros para o mercado norte-americano após a adoção das sobretaxas.
Para uma empresa que já enfrentava pressão financeira, crédito caro e perdas acumuladas, a piora das condições de exportação acrescentou mais um problema a uma situação que já era delicada.
Máquinas foram vendidas por R$ 2,38 milhões para pagar obrigações trabalhistas
Antes mesmo do pedido de autofalência, parte da estrutura da antiga operação já havia sido desmontada.
Após medida envolvendo os trabalhadores, a Justiça do Trabalho tornou o maquinário indisponível e posteriormente autorizou sua venda direta por R$ 2.380.240.
Segundo informações apresentadas pela empresa, aproximadamente R$ 1,67 milhão desse valor foi repassado aos ex-empregados.
Na prática, equipamentos utilizados durante anos para produzir milhares de pares de calçados passaram a ser transformados em recursos para quitar obrigações surgidas após o fechamento.
A Tabita informa possuir ainda ativos residuais avaliados em aproximadamente R$ 100 mil, além das marcas Tabita, Divalesi e T. Tabita.
A diferença entre esses ativos e os mais de R$ 31 milhões relacionados aos credores ajuda a dimensionar a gravidade da situação financeira.
Pedido de falência ainda depende de decisão da Justiça
Há um ponto jurídico importante: a Calçados Tabita pediu a própria falência, mas ainda não havia sido formalmente declarada falida pela Justiça até 14 de setembro de 2026.
O pedido foi protocolado em 8 de setembro, na Vara Regional Empresarial de Caxias do Sul.
Posteriormente, o Judiciário determinou que a empresa complementasse documentos exigidos pela legislação antes que o processo pudesse avançar.
Por isso, o correto neste momento é falar em pedido de autofalência, e não em falência já decretada.
O processo ainda pode ter novos desdobramentos, mas o efeito industrial mais duro já ocorreu: uma fábrica com mais de cinco décadas de história deixou de produzir, aproximadamente 200 trabalhadores perderam seus postos e uma empresa que conseguiu levar calçados brasileiros para dezenas de países terminou com máquinas vendidas e milhões de reais em obrigações pendentes.
Em uma cidade pequena e fortemente ligada à indústria calçadista, o fechamento da Tabita mostra como a queda de uma fábrica tradicional vai muito além de um processo judicial. Ela atinge empregos, renda e uma atividade econômica que ajudou a moldar o próprio município durante décadas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

