5 min de leitura
Astrônomos descobrem que buraco negro supermassivo a 3,4 bilhões de anos-luz da Terra lança ventos que agitam gás por 300 mil anos-luz, carregam 100 vezes mais energia do que se estimava e produzem efeito comparável a bilhões de explosões de supernovas
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 16/09/2026 às 09:53
Atualizado em 16/09/2026 às 09:55
Ciência e Tecnologia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Observações do XRISM revelaram que os ventos associados a um buraco negro supermassivo carregam cerca de 100 vezes mais energia que estimativas anteriores e afetam uma região de 300 mil anos-luz.
Um buraco negro supermassivo localizado a cerca de 3,4 bilhões de anos-luz da Terra está mostrando que sua influência não termina nas proximidades da matéria que consome. Medições do satélite XRISM indicaram que os ventos ligados ao objeto transportam energia suficiente para perturbar gás a aproximadamente 300 mil anos-luz de distância, alcançando uma região que ultrapassa os limites da própria galáxia que abriga o fenômeno.
O resultado surgiu do estudo do quasar H1821+643, na constelação de Draco, e muda a dimensão atribuída a esse tipo de atividade. A energia presente na turbulência observada ficou em torno de 100 vezes acima das estimativas anteriores, resultado que coloca os efeitos de um único objeto central em uma escala comparável à energia produzida por bilhões de explosões de supernovas.
XRISM usou ferro para acompanhar os ventos do buraco negro
Descobrir o que estava acontecendo exigiu observar indiretamente o movimento do gás extremamente quente ao redor do quasar. A equipe utilizou o XRISM, satélite voltado à astronomia de raios X, para examinar com alta precisão linhas de emissão produzidas por íons de ferro.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Essas assinaturas permitiram aos pesquisadores determinar como o gás se movimentava. Em vez de encontrar uma região relativamente estável, as medições revelaram movimentos turbulentos espalhados por uma área enorme ao redor do buraco negro.
O trabalho envolveu Satoshi Yamada, professor assistente do Instituto de Fronteira para Ciências Interdisciplinares da Universidade de Tohoku, além de cientistas da Universidade de Kanazawa, da Universidade Metropolitana de Tóquio e de outras instituições.
A análise foi publicada na revista Nature Astronomy em 26 de julho de 2026.
Quasar transforma matéria em uma poderosa fonte de energia
H1821+643 é um quasar, classe de objetos extremamente luminosos alimentados por buracos negros supermassivos em intensa atividade.
Enquanto gás e outras formas de matéria avançam em direção ao objeto central, enormes quantidades de energia são liberadas. É essa atividade que permite que quasares permaneçam visíveis mesmo a bilhões de anos-luz da Terra.
No caso analisado, o buraco negro também ocupa o centro de um aglomerado de galáxias. Ao redor dele existe gás quente que emite raios X, fornecendo aos pesquisadores uma forma de acompanhar como a energia se distribui no ambiente.
A novidade está justamente na distância atingida por essa perturbação. O efeito não ficou limitado às proximidades do quasar nem à sua galáxia hospedeira.
Ventos do buraco negro alcançam escala de 300 mil anos-luz
A extensão calculada para a turbulência chegou a cerca de 300 mil anos-luz. Essa dimensão levou os cientistas a reconsiderar quanto os objetos supermassivos conseguem interferir no espaço ao redor. Alguns números ajudam a dimensionar a descoberta:
- o quasar está a aproximadamente 3,4 bilhões de anos-luz da Terra;
- a região turbulenta se estende por cerca de 300 mil anos-luz;
- a energia medida ficou aproximadamente 100 vezes acima das estimativas anteriores;
- o total é comparável à energia associada a bilhões de explosões de supernovas.
Não se trata apenas de detectar gás em movimento. A quantidade de energia envolvida indica que esses fluxos podem atuar em escalas muito maiores do que os modelos anteriores sugeriam. Para Yamada, os resultados mostram que objetos normalmente lembrados por capturar matéria também são capazes de devolver enormes quantidades de energia ao ambiente cósmico.
Ventos podem alterar ambientes muito além da galáxia hospedeira
A descoberta amplia a discussão sobre o papel dos buracos negros na evolução dos ambientes em que estão inseridos.
Se a energia carregada pelos ventos consegue atingir centenas de milhares de anos-luz, ela pode interferir no movimento e na distribuição do gás em regiões que envolvem não apenas uma galáxia, mas partes muito maiores de um aglomerado.
Essa influência é relevante porque o gás constitui matéria-prima para diferentes processos cósmicos. Ao movimentá-lo, aquecê-lo ou redistribuí-lo, a atividade associada ao objeto central pode modificar as condições existentes ao redor das galáxias.
O estudo não encerra a questão sobre todas as consequências desse processo, mas fornece uma medida muito maior da energia disponível para produzi-las.
Buraco negro não apenas captura matéria, também redistribui energia
Durante muito tempo, a imagem mais associada aos buracos negros foi a de objetos que atraem e engolem matéria. Os resultados de H1821+643 reforçam um comportamento complementar: parte da atividade ao redor deles pode impulsionar gás para o exterior.
Nesse caso, a turbulência detectada sugere um transporte energético de enorme alcance. Os pesquisadores relacionam o fenômeno a uma onda de choque capaz de movimentar o meio quente que envolve o quasar.
Isso ajuda a explicar por que estudar apenas aquilo que acontece perto do horizonte do objeto não é suficiente para compreender sua influência. O ambiente localizado a centenas de milhares de anos-luz também guarda sinais da energia liberada no centro.
O próximo passo será compreender com maior detalhe como esses fluxos se propagam e o que acontece com o material afetado. Observações futuras poderão ajudar a determinar de que maneira matéria e elementos químicos são redistribuídos entre diferentes regiões e até que ponto outros quasares produzem fenômenos semelhantes ao encontrado em H1821+643.
Também será possível verificar se a escala observada nesse sistema é excepcional ou se parte dos buracos negros supermassivos influencia seus arredores de maneira igualmente ampla. Ao medir com maior precisão esse movimento, os astrônomos poderão aproximar as observações dos modelos utilizados para explicar a evolução de galáxias e aglomerados.
Fontes
science daily
Nature
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

