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Austrália pede que moradores comam ostras e devolvam as conchas para reconstruir 1.500 km de recifes desaparecidos usando gaiolas biodegradáveis, pedras calcárias e alto-falantes submarinos que tocam sons no fundo do mar
Escrito por Ana Alice
Publicado em 17/09/2026 às 23:57
Atualizado em 17/09/2026 às 23:58
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Iniciativa australiana transforma conchas descartadas em base para recifes de ostras nativas e combina voluntariado, restauração costeira e sons submarinos para atrair larvas em uma região marcada pela perda histórica de bancos naturais.
Moradores da Austrália Meridional estão sendo incentivados a consumir ostras, mexilhões e vieiras produzidos localmente e a devolver as conchas para projetos de restauração marinha.
A iniciativa, chamada Shells for Reefs, usa restos de frutos do mar como base para novos recifes de ostras nativas, em uma ação que combina reaproveitamento de material orgânico, ecologia costeira e técnicas de atração acústica de larvas no fundo do mar.
O programa integra as medidas de resposta à proliferação de algas tóxicas registrada na costa sul-australiana a partir de 2025.
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Segundo o governo da Austrália Meridional, as conchas recolhidas passam por triagem e higienização antes de serem colocadas em estruturas degradáveis ou em sacos próprios no leito marinho, onde funcionam como superfície para a fixação de ostras jovens.
Conchas descartadas ajudam a reconstruir recifes de ostras nativas
Antes da exploração comercial em larga escala, a costa da Austrália Meridional tinha extensas áreas de recifes formados por ostras nativas.
O ecólogo marinho Dominic McAfee, da Universidade de Adelaide, disse ao The Guardian que esses bancos chegaram a ocupar cerca de 1.500 km do litoral do estado, mas foram reduzidos pela dragagem e pela coleta histórica.
O Departamento de Meio Ambiente e Água da Austrália Meridional informa que esses recifes foram amplamente perdidos até meados do século 20, em razão da dragagem e da sobre-exploração.
Pela avaliação oficial, os recifes de ostras planas nativas já eram considerados funcionalmente extintos no estado na década de 1950.
A restauração busca repor uma parte da estrutura física que desapareceu.
Larvas de ostras ainda são geradas nas águas costeiras da região, mas precisam de superfícies duras para se fixar.
Em áreas onde restou apenas fundo arenoso, segundo o departamento, essas larvas tendem a não se estabelecer em escala suficiente para formar recifes.
Nesse processo, as conchas doadas por moradores, restaurantes e organizadores de eventos deixam de ser tratadas apenas como resíduo.
Depois de limpas e preparadas, elas são usadas como substrato para novos bancos de mariscos, junto com rochas de calcário em projetos maiores de restauração.
McAfee afirmou que o objetivo é devolver ao fundo do mar um material semelhante ao usado historicamente pelas ostras para formar recifes.
Segundo ele, as pessoas podem consumir ostras locais e reciclar as conchas para criar um substrato “biodegradável e natural”, capaz de servir de base para novas colônias.
Sons de camarões são usados para atrair larvas de ostras
Além das conchas, pesquisadores da Universidade de Adelaide usam alto-falantes subaquáticos para reproduzir sons gravados em recifes saudáveis.
Entre esses ruídos estão os estalos de camarões-de-estalo, pequenos crustáceos que vivem em ambientes marinhos com cavidades e abrigo.
A técnica se baseia em estudos sobre paisagens sonoras submarinas.
Pesquisas lideradas por McAfee indicam que sons de recifes podem aumentar o recrutamento de ostras jovens e de outros organismos em estruturas restauradas.
O próprio governo da Austrália Meridional cita esse trabalho ao explicar que alto-falantes podem ser usados para ampliar a fixação de larvas em novos recifes.
As larvas de ostras, também chamadas de “spats”, passam uma fase microscópica suspensas na água antes de se prenderem a uma superfície.
Quando encontram um local adequado, iniciam a formação de colônias.
Em ambientes naturais, esse processo ocorre sobre conchas, pedras ou estruturas já colonizadas por outros organismos.
A reprodução de sons de recifes não substitui a instalação de substrato físico, mas pode ser usada como ferramenta complementar.
De acordo com o Departamento de Meio Ambiente e Água, durante a temporada de reprodução, ostras jovens se fixam naturalmente em novas bases colocadas no mar, e os sons de recifes saudáveis podem ajudar a atrair esses organismos para as estruturas restauradas.
Ostras filtram água e criam habitat marinho
O interesse ambiental pelas ostras está ligado à função de filtragem desses animais.
Ao se alimentar, ostras, mexilhões e outros mariscos retiram partículas da água, reciclam nutrientes e participam da manutenção de cadeias alimentares locais.
Segundo o governo sul-australiano, esses organismos podem contribuir para melhorar a transparência da água em condições ambientais adequadas.
Recifes formados por ostras também criam estruturas tridimensionais no fundo do mar.
Essas formações oferecem abrigo, áreas de alimentação e berçários para peixes, caranguejos, invertebrados e outras espécies.
O departamento ambiental do estado afirma que a diversidade e a abundância de peixes tendem a aumentar conforme os recifes amadurecem.
Essa função ganhou relevância no contexto da floração de algas que atingiu o litoral da Austrália Meridional.
O plano de verão anunciado pelos governos estadual e federal incluiu investimentos em ciência, monitoramento, restauração de pradarias marinhas e reconstrução de recifes de ostras nativas como parte da resposta ambiental ao episódio.
Autoridades e pesquisadores, no entanto, não apresentam os recifes como uma medida capaz de interromper imediatamente uma proliferação de algas em curso.
A restauração é tratada nos documentos oficiais como uma ação de recuperação ecológica e aumento de resiliência, voltada a recompor habitat, melhorar condições locais e apoiar a vida marinha ao longo do tempo.
A ministra do Clima, Meio Ambiente e Água da Austrália Meridional, Lucy Hood, disse ao The Guardian que as comunidades afetadas queriam saber de que forma poderiam contribuir.
“Não dá para impedir que essa proliferação de algas aconteça, mas as comunidades queriam saber como poderiam ajudar”, afirmou.
Programa reúne governo, cientistas e voluntários
A página oficial sobre a iniciativa informa que conchas de ostras, mexilhões e vieiras podem ser deixadas em pontos de coleta comunitários.
O material é encaminhado para processamento e depois usado em projetos de recifes, como o de Largs Bay, que prevê a aplicação de mais de nove toneladas de conchas recicladas.
O programa Rebuilding South Australia’s Lost Shellfish Reefs prevê 26 recifes comunitários feitos com conchas recicladas e um recife de calcário em larga escala.
De acordo com o Departamento de Meio Ambiente e Água, 25 desses recifes comunitários serão conduzidos pela Universidade de Adelaide, e um será implementado em Largs Bay pela organização OzFish Unlimited.
Cada recife comunitário deve ocupar aproximadamente um hectare de fundo marinho, em áreas das penínsulas de Eyre e Yorke, da Ilha Kangaroo e de Largs Bay.
A previsão oficial é que todos sejam concluídos até 2028.
Já o recife de calcário, planejado para o Golfo de St Vincent, deve ter cerca de 16 hectares e depende de aprovações antes do início da construção, previsto para o fim de 2027.
As áreas são escolhidas com base na distribuição histórica dos recifes, na viabilidade ambiental e no diálogo com comunidades locais, setores econômicos e proprietários tradicionais.
O governo informa que os locais ainda passam por investigação e que a confirmação depende de consulta e autorizações regulatórias.
Voluntários participam da triagem, da sanitização e da preparação das conchas em Garden Island e em outras áreas regionais.
Depois, o material é colocado em gaiolas metálicas degradáveis ou em sacos de malha, antes de ser levado ao fundo do mar para formar a base dos novos recifes.
Restauração de recifes de ostras ocorre desde 2017
A reconstrução de recifes de mariscos não começou com a resposta à proliferação de algas.
Segundo o Departamento de Meio Ambiente e Água, a Austrália Meridional desenvolve projetos desse tipo desde 2017, em parceria com o governo federal, a The Nature Conservancy, a Universidade de Adelaide e administrações locais.
Quatro recifes restaurados já tinham apresentado sinais de estabelecimento antes da floração de 2025: Windara, Glenelg, O’Sullivan Beach e Nepean Bay.
Em Glenelg, o monitoramento inicial indicou mais de 50 ostras adultas por metro quadrado dois anos e meio após a construção da primeira etapa.
Esses dados são usados pelas autoridades para orientar a ampliação do programa.
Conforme os recifes amadurecem, novas ostras se fixam sobre as estruturas existentes, formam camadas e criam frestas que podem ser ocupadas por peixes, caranguejos e outros invertebrados.
O processo depende de condições locais, monitoramento e tempo de desenvolvimento.
Outra frente de recuperação citada pelo governo envolve pradarias marinhas.
A organização OzFish coordena atividades comunitárias de restauração dessas áreas desde 2020 na costa metropolitana de Adelaide.
Segundo a página oficial da resposta à floração de algas, esses ambientes funcionam como áreas de berçário para espécies como pargos, lulas, badejos e caranguejos-azuis.
Resíduo de frutos do mar vira base para novo habitat
A proposta de pedir que moradores comam frutos do mar e devolvam as conchas chama atenção pelo caminho incomum entre consumo e restauração ambiental.
No lugar de serem descartadas, as conchas passam a compor uma base física para organismos marinhos que dependem de superfícies duras para se desenvolver.
Segundo o governo da Austrália Meridional, o programa também busca ampliar a participação pública na recuperação costeira.
Restaurantes, voluntários, pesquisadores e comunidades locais entram em diferentes etapas da iniciativa, desde a coleta até o acompanhamento de projetos em áreas selecionadas.
No fundo do mar, uma concha reciclada pode servir de ponto de fixação para uma larva microscópica.
Com o crescimento de novas ostras, a estrutura tende a ganhar volume e a criar abrigo para outras formas de vida marinha, conforme descrito pelo departamento ambiental do estado.
A técnica ainda depende de acompanhamento científico, licenças e condições adequadas de implantação.
Mesmo assim, autoridades e pesquisadores tratam a restauração de recifes de ostras como uma das frentes para recompor ecossistemas costeiros que perderam parte de sua estrutura natural ao longo de mais de um século.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

