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Brasil pode ganhar espaço para exportar cerca de 80 mil toneladas adicionais de carne à China após acordo anunciado com o Uruguai
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 22/09/2026 às 20:12
Atualizado em 22/09/2026 às 20:30
Agronegócio
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A autorização foi anunciada por Lula depois de encontro com Yamandú Orsi em Nova York. Falta o passo decisivo: a China administra sozinha essas cotas e ainda não se manifestou sobre a transferência.
O presidente Lula afirmou que o Uruguai autorizou o Brasil a usar o excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China em 2026. O anúncio foi feito em publicação no X, depois de um encontro com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York, em 21 de setembro de 2026, segundo a Globo Rural.
“Tratamos de temas da agenda bilateral, em especial infraestrutura e comércio agrícola. Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China”, escreveu Lula.
O volume em discussão é de cerca de 80 mil toneladas
Segundo fontes ouvidas pela Globo Rural, cerca de 80 mil toneladas poderiam ser repassadas ao Brasil. É um volume equivalente a aproximadamente um mês de embarques brasileiros para os chineses.
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Para dar outra dimensão ao número, a Exame calcula que essas 80 mil toneladas correspondem a algo entre 320 mil e 400 mil cabeças de gado. Não é um volume que muda o ano da pecuária brasileira, mas é relevante num momento em que o acesso ao principal comprador está travado.
Por que o Brasil precisa da cota de outro país
Desde 2026, a China limita as compras de carne bovina por meio de um mecanismo de salvaguarda, que estabelece cotas por país fornecedor. Dentro da cota, vale a tarifa normal. Acima dela, entra uma taxa adicional.
Para 2026, Pequim fixou 1,106 milhão de toneladas para o Brasil, 511 mil toneladas para a Argentina e 324 mil toneladas para o Uruguai. O problema brasileiro é simples: essa cota já acabou.
Fora da cota, a carga tributária chega a 67%
A tarifa extra aplicada ao volume que passa da cota é de 55%. Somada à alíquota de 12% que já incide sobre a carne bovina brasileira, a carga total chega a 67%.
Com esse patamar, exportar deixa de fazer sentido econômico para a maior parte dos frigoríficos. Na prática, esgotada a cota, o mercado chinês fecha para o Brasil até a virada do ano.
Efeito já apareceu nos embarques de agosto
O travamento aparece nos números. Segundo a Exame, os embarques brasileiros de agosto caíram 88% na comparação com os meses anteriores, e o volume acumulado de 2026 está 6,6% abaixo do registrado em 2025.
Nos oito primeiros meses do ano, o Brasil exportou 899,2 mil toneladas à China, ainda segundo a Exame. Há divergência entre os levantamentos: uma compilação da Safras & Mercado citada pela imprensa aponta 1,144 milhão de toneladas entradas em portos chineses até agosto, número que já superaria a cota do ano.
A decisão final é da China, e ela não se manifestou
O ponto central não está em Montevidéu nem em Brasília. A gestão dos volumes autorizados é feita integralmente pela China, e não há confirmação oficial de que Pequim aceite transferir cota de um fornecedor para outro.
“Se a China decidir que essa cota é intransferível, o Brasil não vai ter acesso à cota do Uruguai, da Argentina, dos Estados Unidos, da Nova Zelândia. Depende da posição chinesa. Esse é o ponto central, se não tiver o aceite chinês não vai mudar a dinâmica de exportação chinesa”, disse Fernando Iglesias, consultor da Safras e Mercado.
Até a publicação das reportagens sobre o caso, nem o Ministério do Comércio chinês, nem a alfândega do país, nem a embaixada haviam se manifestado sobre o arranjo.
Outubro é a última janela para embarcar em 2026
O calendário aperta o negócio. O transporte marítimo até a China leva de 45 a 60 dias, o que faz de outubro o último mês viável para que a carne chegue ainda dentro do ano-cota de 2026.
Iglesias avalia que uma autorização rápida poderia estimular a retomada das compras de boi destinado ao mercado chinês já em outubro. Sem decisão em tempo hábil, o excedente uruguaio perde utilidade prática neste ano.
Abiec vê efeito limitado em 2026
A associação que representa os frigoríficos exportadores avalia como positiva qualquer iniciativa que amplie o acesso da carne brasileira ao mercado chinês. Mas faz uma ressalva de calendário.
Segundo a Abiec, “um eventual aproveitamento do excedente da cota uruguaia teria efeito limitado em 2026, considerando o tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria até a China”. A partir de novembro, os frigoríficos brasileiros já começam a embarcar produto para cumprir a cota de 2027.
O ganho maior estaria em 2027
A cota brasileira para o ano que vem é de 1,128 milhão de toneladas. Para a Abiec, é aí que a medida pode pesar: “Para 2027, a medida pode representar uma alternativa importante, especialmente diante da cota brasileira de 1,128 milhão de toneladas e do risco de seu esgotamento já nos primeiros meses do ano”.
O presidente da entidade, Roberto Perosa, projeta que a cota de 2027 pode se esgotar entre março e abril. Ele também aponta incerteza sobre o apetite chinês, já que os estoques de carne bovina na China estão altos.
Negociação vinha de julho e envolvia troca de cotas
A conversa entre os dois governos não começou em Nova York. Em julho de 2026, o Ministério da Agricultura brasileiro propôs ao Uruguai uma troca de cotas, conforme revelou a Globo Rural na época.
Pela proposta original, o Brasil repassaria sua parcela da cota do Mercosul de carne bovina resfriada para a União Europeia, com tarifa reduzida, e receberia em troca o volume não ocupado da cota chinesa do Uruguai.
Cota europeia está parada por questão sanitária
O que torna essa troca possível é um problema do lado brasileiro. O mercado europeu está temporariamente fechado para o Brasil por falta de comprovação no controle do uso de antimicrobianos, os medicamentos usados no rebanho.
Ou seja, o país ofereceria ao Uruguai um acesso que hoje não consegue usar, em troca de um espaço que precisa com urgência. Não há confirmação, porém, de que os termos acertados em 21 de setembro incluam essa troca.
Números da cota uruguaia divergem entre as versões
A própria reportagem da Globo Rural traz dois valores para a cota uruguaia de 2026: 324 mil toneladas no resumo e 331 mil toneladas no corpo do texto.
Os levantamentos sobre a salvaguarda chinesa publicados por outros veículos apontam 324 mil toneladas para o Uruguai, mesmo número que aparece na lista oficial ao lado das cotas de Brasil e Argentina.
Enquanto Pequim não responde, nada muda
O anúncio de Lula estabelece a concordância do Uruguai, e só isso. Sem o aval da China, o Brasil continua sujeito à tarifa de 67% sobre qualquer volume acima de sua própria cota.
A definição prática depende de dois prazos: a manifestação chinesa e a janela de embarque de outubro. Se os dois não coincidirem, o efeito do acordo fica todo para 2027.
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cota carne bovina China Uruguai Brasil
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

