Faça um comentário
5 min de leitura
Arqueólogos encontram em Troia ágora de 2.800 anos diante da porta sul da cidade e revelam como o antigo mercado ligou a Troia da Idade do Bronze à Ilion da Primeira Idade do Ferro
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 23/09/2026 às 05:48
Atualizado em 23/09/2026 às 05:50
Ciência e Tecnologia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Escavações diante da porta sul de Troia VI revelaram a ágora mais antiga conhecida da cidade, com cerca de 2.800 anos, pavimentação, entrada e cerâmicas que ajudam a reconstruir a retomada urbana após a Idade do Bronze.
Arqueólogos que trabalham no sítio de Troia, no noroeste da Turquia, identificaram diante da antiga porta sul uma área de mercado com cerca de 2.800 anos, considerada pela equipe a ágora mais antiga conhecida da cidade.
A descoberta foi anunciada durante as escavações de 2026 na antiga Troia, em Çanakkale. O setor fica em frente à porta sul de Troia VI, uma das fases monumentais do sítio arqueológico, conhecida pelas grandes muralhas de pedra que ajudaram a tornar o local mundialmente associado às narrativas sobre a Guerra de Troia.
Os pesquisadores encontraram pavimentação, uma entrada definida, estruturas arquitetônicas, fragmentos de ânforas e cerâmicas da Primeira Idade do Ferro. O conjunto indica que aquele espaço público voltou a ser usado depois do colapso da cidade da Idade do Bronze e ajuda a preencher uma lacuna importante na história urbana de Troia.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Área de mercado reaparece cerca de 80 a 90 anos após o abandono da cidade
Segundo a equipe de escavação, a região já tinha função pública e comercial no fim da Idade do Bronze. Depois do abandono da antiga cidade, o espaço teria sido retomado por novos habitantes aproximadamente 80 a 90 anos depois.
Essa sequência interessa aos arqueólogos porque Troia não desapareceu de uma só vez. O sítio reúne camadas de ocupação construídas, destruídas e reconstruídas ao longo de muitos séculos. Cada fase guarda vestígios de mudanças políticas, econômicas e culturais ocorridas na região do estreito de Dardanelos.
A nova ágora ajuda a observar justamente essa transição. As cerâmicas e os elementos arquitetônicos encontrados no local permitem comparar práticas da fase final da Idade do Bronze com as primeiras comunidades da Idade do Ferro que voltaram a ocupar e reorganizar a cidade.
A posição diante de uma das entradas principais também reforça a interpretação de que o espaço tinha importância coletiva. Mercados e praças antigas não funcionavam apenas como locais de compra e venda: podiam concentrar circulação, encontros, armazenamento e atividades públicas.
Achado ajuda a acompanhar a passagem da antiga Troia para Ilios e Ilion
Um dos objetivos das escavações é entender como o assentamento conhecido na Idade do Bronze evoluiu para a cidade chamada posteriormente de Ilios ou Ilion nas fontes gregas. A identificação de espaços usados em momentos distintos oferece uma sequência material para essa transformação.
Ânforas e outros fragmentos cerâmicos são especialmente úteis porque seus estilos, formas e técnicas de fabricação ajudam a estabelecer cronologias. Quando aparecem associados a pisos, entradas e paredes, esses objetos permitem reconstruir não apenas quando uma área foi ocupada, mas também como ela era utilizada.
Os arqueólogos trabalham em uma região cuja importância histórica vai além da tradição literária. Troia ocupava uma posição estratégica próxima ao Dardanelos, passagem entre o mar Egeu e o mar de Mármara, o que favorecia circulação de pessoas, mercadorias e influências culturais entre diferentes partes da Anatólia e do Mediterrâneo.
A descoberta da ágora mais antiga conhecida acrescenta um elemento concreto a essa história econômica. Em vez de mostrar apenas fortificações e edifícios monumentais, o novo setor preserva pistas sobre o cotidiano de pessoas que voltaram a ocupar a cidade após uma ruptura importante.
Muralhas lembram a Guerra de Troia, mas descoberta não prova o relato de Homero
A proximidade com as muralhas de Troia VI chama atenção porque essa fase do sítio costuma aparecer nas discussões sobre o contexto histórico que pode ter inspirado tradições posteriores da Guerra de Troia. As estruturas são antigas, monumentais e pertencem ao período geral em que conflitos regionais ocorreram na Anatólia.
Isso, porém, não transforma a nova ágora em evidência de que os acontecimentos narrados na Ilíada ocorreram exatamente como descritos. A obra de Homero combina memória, tradição oral e literatura produzida séculos depois dos eventos da Idade do Bronze.
O valor da descoberta está em outro ponto: ela mostra como uma área importante da cidade continuou ou voltou a desempenhar funções públicas depois de uma fase de abandono. Essa continuidade material permite acompanhar a transformação de Troia ao longo de um período que ainda possui muitas perguntas abertas.
As escavações devem prosseguir para delimitar melhor a praça, identificar novas estruturas e refinar a cronologia dos diferentes níveis de ocupação. Quanto mais materiais forem encontrados em contexto, maior será a capacidade dos pesquisadores de separar fases e entender quando cada parte do espaço foi construída ou reutilizada.
Troia já é um dos sítios arqueológicos mais conhecidos do mundo, mas a descoberta de uma praça de mercado de cerca de 2.800 anos mostra que sua organização urbana ainda pode revelar surpresas. O achado coloca o foco não apenas nas muralhas associadas às lendas, mas também na vida cotidiana de quem voltou a habitar a cidade na Primeira Idade do Ferro.
Compartilhe a matéria se você também se surpreendeu ao saber que, depois de mais de um século de escavações em Troia, ainda existem espaços centrais da cidade antiga sendo identificados.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

