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Compras internacionais sobem 67% após fim da taxa das blusinhas e ABVTEX alerta para novas fábricas no Paraguai, onde Lupo investiu R$ 30 milhões e custos podem cair até 30%
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 23/09/2026 às 11:17
Atualizado em 23/09/2026 às 11:44
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Dados da Receita mostram alta de 67% nas compras internacionais entre junho e agosto; ao mesmo tempo, a ABVTEX diz que custos até 30% menores no Paraguai podem estimular novas expansões de empresas têxteis brasileiras.
O avanço das compras em sites estrangeiros e a diferença de custos entre Brasil e Paraguai voltaram a colocar a indústria têxtil diante de uma decisão difícil. Dados da Receita Federal compilados pela Abit mostram que as remessas internacionais somaram R$ 8,2 bilhões entre junho e agosto de 2026, alta de 67% sobre o mesmo período do ano anterior.
Ao mesmo tempo, a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX) afirma que produzir no Paraguai pode custar até cerca de 30% menos em determinadas operações. A entidade avalia que essa diferença pode estimular novas expansões de empresas brasileiras no país vizinho, especialmente depois da retirada do imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.
Remessas internacionais cresceram depois da retirada do imposto federal de 20%
Os números de 2026 mostram uma mudança rápida no volume de encomendas. Segundo levantamento da Abit baseado em dados da Receita Federal, o Brasil recebeu em média 15,4 milhões de remessas internacionais por mês entre janeiro e abril. O total subiu para 20 milhões em maio, chegou a 28 milhões em junho e permaneceu acima de 26 milhões em julho e agosto.
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O valor movimentado também cresceu. A média mensal ficou perto de US$ 308 milhões entre janeiro e abril e passou para aproximadamente US$ 520 milhões entre maio e agosto. A comparação entre junho e agosto de 2026 e o mesmo intervalo de 2025 resultou na alta de 67%, segundo os dados divulgados pela entidade.
ABVTEX diz que diferença de custos pode levar novas operações ao Paraguai
Para Edmundo Lima, diretor-executivo da ABVTEX, o Paraguai ganhou peso nas decisões de investimento porque combina proximidade geográfica com custos menores. A entidade estima que a diferença possa chegar a cerca de 30% em algumas operações, principalmente quando entram na conta tributação, mão de obra e energia.
A associação não afirma que todas as empresas brasileiras deixarão o país. O alerta é sobre novas linhas, ampliações e unidades adicionais que podem ser direcionadas ao Paraguai quando uma companhia compara onde instalar capacidade produtiva futura.
Lupo investiu R$ 30 milhões em Ciudad del Este e projetou 20 milhões de pares por ano
O caso mais concreto é o da Lupo. A fabricante brasileira abriu em 2025 sua primeira unidade industrial fora do Brasil, em Ciudad del Este, com investimento de R$ 30 milhões. A fábrica foi projetada para chegar a até 20 milhões de pares de meias por ano em plena operação.
Segundo Rogério Bartkevicius, diretor da Lupo Paraguay, o regime de maquila reduz os custos da operação em aproximadamente 28% em média. Ele também apontou menor carga tributária, encargos trabalhistas simplificados e energia mais barata entre os fatores considerados pela companhia.
Em maio de 2026, a então CEO Liliana Aufiero informou que a operação paraguaia já havia capturado redução de custos de cerca de 15%, enquanto a empresa trabalhava com uma meta próxima de 30% conforme a fábrica avançasse para sua capacidade planejada.
A fábrica no Paraguai é expansão: Lupo mantém quatro unidades produtivas no Brasil
Apesar da repercussão do investimento, a Lupo não transferiu toda a produção brasileira para o Paraguai. A companhia informou a agências de checagem que mantém quatro fábricas no Brasil e que a planta de Ciudad del Este foi criada como uma operação complementar.
A empresa também declarou que a nova unidade não substituiu nem reduziu a produção das fábricas brasileiras. Esse ponto é importante porque o movimento observado no setor inclui expansão internacional e redistribuição de novos investimentos, não necessariamente fechamento automático de plantas no Brasil.
Mais de 50 empresários têxteis brasileiros foram ao Paraguai avaliar investimentos
O interesse não se resume à Lupo. Em junho de 2026, mais de 50 empresários brasileiros dos setores têxtil e de confecção participaram de uma missão ao Paraguai para conhecer incentivos, parques industriais e condições de produção.
A delegação se reuniu com autoridades do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai e representantes da Rediex. O governo paraguaio apresentou o regime de maquila, disponibilidade de energia, localização próxima ao mercado brasileiro e estrutura de custos como fatores de atração para novos projetos.
Sawary Jeans também entrou no radar de novos projetos industriais no país vizinho
No mesmo período, o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai informou que a brasileira Sawary Jeans avaliava a instalação de uma unidade produtiva no país. O fundador e CEO da empresa, Miled El Khoury, reuniu-se com autoridades paraguaias para discutir incentivos e possibilidades de investimento.
O projeto ainda era apresentado como uma avaliação, sem anúncio de fábrica concluída. O episódio reforça, porém, que diferentes companhias do setor estão comparando custos e alternativas de produção além da fronteira brasileira.
Fim da taxa das blusinhas zerou imposto federal, mas ICMS continua sendo cobrado
A mudança tributária que intensificou o debate foi iniciada em maio, quando uma medida provisória zerou o Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. Em setembro, a mudança foi aprovada pelo Congresso e sancionada, tornando a isenção federal definitiva.
Isso não significa que essas encomendas ficaram livres de todos os tributos. O ICMS estadual continua sendo cobrado, com alíquotas definidas pelos estados e pelo Distrito Federal. Para compras acima de US$ 50, outras regras federais também permanecem.
Indústria critica a isenção, enquanto plataformas defendem os efeitos sobre consumo e logística
Entidades da indústria e do varejo nacional, entre elas Abit e ABVTEX, sustentam que a diferença de tributação pressiona a competitividade da produção brasileira diante das plataformas estrangeiras. Do outro lado, representantes do comércio digital defendem que a redução do imposto amplia acesso a produtos e movimenta atividades ligadas ao e-commerce.
Um estudo da LCA Consultoria Econômica citado pelo UOL encontrou criação líquida de mais de 218 mil empregos formais na economia entre maio e junho de 2026, embora comércio e indústria têxtil tenham apresentado perdas no mesmo recorte. O levantamento cobre apenas os primeiros meses após a mudança e não resolve, sozinho, o debate sobre efeitos de longo prazo.
Próximos investimentos vão mostrar se a diferença de custos vira nova onda de fábricas
Por enquanto, os fatos mostram duas tendências simultâneas: compras internacionais cresceram após a redução do imposto federal, e empresários brasileiros continuam avaliando o Paraguai como base produtiva. O tamanho desse movimento ainda dependerá de decisões concretas de investimento, câmbio, consumo, custos trabalhistas, energia e regras tributárias nos dois países.
A Lupo já opera no Paraguai, a Sawary avaliou uma nova unidade e dezenas de empresários visitaram o país em busca de informações. A pergunta agora é quantos desses contatos realmente se transformarão em fábricas e quanto da nova capacidade produtiva do setor permanecerá no Brasil.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

