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Lago rosa do Senegal vira cenário de trabalho extremo: homens passam horas em água mais salgada que o Mar Morto para retirar 60 mil toneladas de sal por ano
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 25/09/2026 às 10:46
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Lac Rose voltou a receber extratores de sal no Senegal após enchentes. Trabalho em água hipersalina expõe trabalhadores a feridas e esforço intenso.
Em 2026, os pequenos barcos voltaram a avançar pelas águas do Lago Retba, conhecido mundialmente como Lac Rose, a poucos quilômetros de Dakar, no Senegal. Segundo a Reuters em sua reportagem no dia 22/07, a retomada ocorreu depois de anos de interrupção provocada pelas enchentes de 2022, que despejaram água doce no lago, reduziram sua salinidade e praticamente paralisaram uma atividade da qual dependem cerca de 3 mil extratores de sal, além de quase 2 mil pessoas ligadas indiretamente à economia local.
Agora, com o excesso de água retirado e as condições hipersalinas se recuperando, trabalhadores voltaram a entrar no lago para raspar do fundo uma camada mineral que há décadas abastece mercados do Senegal e de outros países da África Ocidental. Só que cada carga de sal começa com horas de trabalho dentro de uma água tão concentrada que feridas na pele fazem parte dos riscos documentados da atividade.
O sal não está apenas dissolvido na água
Para quem observa o Lac Rose da margem, pode parecer que o trabalho consiste simplesmente em recolher cristais espalhados pela superfície. Não é assim.
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Os trabalhadores entram na água com pequenos barcos de madeira e usam ferramentas para romper e retirar depósitos acumulados no fundo. O sal molhado é colocado em recipientes, levantado até a superfície e despejado dentro das embarcações.
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A elevada densidade da água ajuda a manter tanto pessoas quanto cargas mais flutuantes, mas não elimina o esforço físico necessário para romper, levantar e transportar o material. Reportagens realizadas ao longo dos anos registram jornadas de seis a oito horas dentro da água em parte dessa atividade artesanal.
Quando o barco está carregado, começa outra fase.
O sal segue para as margens, onde é descarregado e acumulado em grandes montes brancos. Depois pode passar por secagem, processamento, iodação, ensacamento e comercialização.
É uma cadeia que parece simples, mas sustenta milhares de pessoas.
Em alguns pontos, a salinidade histórica chegou perto da saturação
O ambiente de trabalho do Lac Rose é muito diferente de uma praia comum.
Um estudo microbiológico publicado pela Oxford Academic mediu, em pontos do lago durante o período seco, salinidades de aproximadamente 290‰, 330‰ e 360‰, ou seja, algo em torno de 29% a 36% em massa, dependendo do ponto analisado.
Os autores observaram que algumas áreas podiam se aproximar da saturação salina, cerca de 370‰ nas condições daquele levantamento.
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A comparação com a água oceânica mostra o tamanho da diferença.
A salinidade média do mar fica perto de 35‰, cerca de 3,5%. Em determinados períodos históricos, portanto, partes do Retba apresentaram concentrações várias vezes superiores às encontradas no Atlântico.
Esse é o mesmo ambiente em que os extratores permanecem durante horas.
A própria pele mostra o preço dessa exposição
Em junho de 2026, o fotógrafo Raghed Waked, da Reuters, registrou um trabalhador chamado Seydou Toure preparando-se para entrar novamente no lago.
Em uma das imagens, ele cobre o corpo com manteiga de karité, prática tradicional usada pelos extratores como uma barreira contra o contato prolongado com a salmoura. Em outra fotografia, Toure aparece aplicando cola sobre feridas atribuídas à exposição à alta concentração de sal.
A água rosa pode ser atração turística. Para quem trabalha dentro dela, é um ambiente químico agressivo.
Quando a pele já possui cortes, rachaduras ou abrasões, o contato com uma solução altamente concentrada de sal pode provocar dor intensa e irritação. Longos períodos de umidade também alteram a barreira natural da pele.
A proteção artesanal tenta reduzir esse problema antes de o trabalhador entrar no lago.
Manteiga de karité virou parte do equipamento de trabalho
O uso de manteiga de karité no Lac Rose foi documentado muito antes da retomada de 2026.
Reportagens sobre os extratores mostram trabalhadores cobrindo braços, pernas e tronco com uma camada oleosa antes de começar a jornada. O objetivo é reduzir o contato direto da água salgada com a pele e evitar que pequenas lesões se tornem ainda mais dolorosas.
Não é um equipamento de proteção industrial no sentido convencional. É uma solução desenvolvida dentro da própria rotina local.
Plásticos, curativos improvisados e até cola também já foram documentados sobre ferimentos enquanto os trabalhadores continuam extraindo sal.
O risco não vem de uma máquina sofisticada. Vem da repetição: entrar, quebrar sal, encher recipientes, levantar peso, descarregar e voltar para a água.
O calor acrescenta outra camada ao trabalho
O problema não termina na salinidade. A atividade é realizada ao ar livre, sob exposição solar, com esforço físico repetitivo. Trabalhadores podem passar várias horas parcialmente submersos enquanto movimentam grandes quantidades de material.
A literatura específica disponível sobre o Lac Rose ainda é limitada para quantificar todos os riscos ocupacionais desse grupo, por isso não é correto atribuir ao lago taxas de doenças que não foram medidas diretamente ali.
Há, porém, fatores evidentes de exposição: calor, esforço físico, feridas cutâneas, contato prolongado com solução hipersalina e movimentação manual de cargas.
Na margem, o sal seco ainda acrescenta outra possibilidade de exposição, especialmente quando é movimentado, moído ou processado.
Poeira de sal também pode ser um problema em outras etapas
Um estudo publicado na revista Environmental Health analisou trabalhadores da indústria salineira expostos à poeira durante operações de moagem, carregamento e processamento.
Os pesquisadores encontraram pressão arterial média e prevalência de hipertensão maiores entre trabalhadores expostos a partículas de sal no ar do que entre aqueles que trabalhavam com salmoura longe das instalações de moagem. O estudo não foi realizado no Senegal e não permite afirmar que o mesmo quadro ocorre entre trabalhadores do Lac Rose.
Ele mostra, porém, que os riscos ocupacionais da cadeia do sal não acabam quando o produto sai da água.
O material seco precisa ser manipulado, processado e preparado para o mercado. Sem proteção adequada, partículas suspensas podem entrar pelas vias respiratórias.
O lago tem apenas cerca de 3 km², mas sustenta uma cadeia muito maior
A UNESCO descreve o Lac Rose como uma área de aproximadamente 3 km², dividida em quatro setores e com profundidade máxima próxima de 3 metros. A extração comercial de sal ocorre ali desde os anos 1970, com produto destinado também a mercados da sub-região africana.
O Senegal, por sua vez, possui uma indústria salineira muito maior do que o próprio Retba.
A Nutrition International classifica o país entre os grandes produtores e exportadores de sal da África Ocidental. A produção artesanal continua tendo peso considerável nessa cadeia, embora o sal também venha de outras regiões produtoras, como Fatick.
Por isso, o Lac Rose é economicamente importante sem precisar responder sozinho por toda a indústria nacional.
Seu peso é ainda maior na comunidade que cresceu ao redor da água.
Cerca de 3 mil extratores dependiam diretamente do lago
Autoridades redirecionaram água das chuvas para o lago durante uma emergência de drenagem. A entrada repentina de água doce elevou o nível, diluiu a concentração de sal e alterou as condições que sustentavam tanto a extração quanto a famosa coloração rosa.
A Reuters estimou que aproximadamente 3 mil trabalhadores ligados diretamente à retirada de sal foram afetados.
Outras quase 2 mil pessoas dependiam de atividades relacionadas à economia do lago. A mudança aconteceu rápido.
Em vez de continuar extraindo, trabalhadores precisaram tentar salvar montes de sal já acumulados nas margens antes que a água os alcançasse.
Em 2022, a economia local praticamente perdeu seu chão
A inundação criou um paradoxo para uma atividade baseada em água. O problema não foi a falta dela, mas água demais.
Quando a concentração salina caiu, as condições necessárias para a formação dos depósitos se deterioraram. Ao mesmo tempo, a coloração característica desapareceu, atingindo outra fonte de renda importante: o turismo.
Hotéis, passeios, vendedores e pequenos negócios sentiram o efeito junto com os extratores. O lago chegou a representar, portanto, duas economias funcionando sobre a mesma superfície.
Uma retirava sal. A outra vendia a experiência de ver uma das paisagens mais conhecidas do Senegal.
As duas foram atingidas pela mesma alteração hidrológica.
A comunidade gastou milhões de francos para retirar água doce
A recuperação não aconteceu sozinha. Associações locais mobilizaram aproximadamente 23 milhões de francos CFA, cerca de US$ 40 mil na estimativa publicada pela Reuters, para ajudar a financiar o bombeamento da água excedente.
Autoridades locais também ofereceram recursos adicionais. A água foi direcionada para o mar.
Aos poucos, evaporação e redução do volume permitiram que a concentração de sal voltasse a subir.
Microrganismos adaptados à salinidade começaram a recuperar espaço.
Em julho de 2026, uma cerimônia marcou oficialmente a reabertura para a extração de sal. Os barcos voltaram.
A famosa cor rosa depende do mesmo equilíbrio que sustenta o sal
A aparência do Retba não é apenas uma decoração ao redor da mina artesanal. Ela funciona como um indicador visível das condições extremas do lago.
A literatura científica registra comunidades microbianas capazes de sobreviver em concentrações de sal muito elevadas. A Dunaliella salina, microalga associada à coloração característica de ambientes hipersalinos, produz pigmentos em resposta às condições ambientais.
Quando a água doce entrou em massa em 2022, o equilíbrio mudou. O rosa enfraqueceu junto com a salinidade.
Em 2026, a recuperação da cor foi recebida como um sinal de que o sistema estava se aproximando novamente das condições anteriores.
Para quem tira sustento dali, isso significava algo ainda mais concreto: sal voltando a se formar.
Depois de extraído, ainda existe o desafio da iodação
No Senegal, a iodação de sal para consumo humano é obrigatória, e o país mantém há anos programas para melhorar o processamento entre pequenos produtores.
A Nutrition International trabalha com governo, cooperativas e operadores para levar máquinas de iodação, treinamento e controle de qualidade às regiões salineiras.
Uma pesquisa sobre fortificação no mercado senegalês mostrou uma diferença importante.
Instalações formais apresentavam desempenho melhor na iodação, enquanto pequenas unidades artesanais registravam cumprimento mais baixo dos padrões. Entre amostras provenientes de pequenos processadores avaliados, 38,1% atendiam aos critérios analisados.
A cadeia, portanto, precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo. Produzir renda para quem extrai e garantir qualidade para quem consome.
O sal do Lac Rose é recurso natural e trabalho manual ao mesmo tempo
Não há uma gigantesca escavadeira navegando sobre o Retba. Boa parte da imagem econômica do lago continua ligada ao trabalho artesanal.
Homens entram na água, retiram sal do fundo e carregam pequenas embarcações. Na margem, outras pessoas recebem, secam, movimentam e comercializam o material.
É justamente essa característica que torna o local diferente de uma mina industrial convencional. O recurso existe em enorme concentração, mas sua exploração continua dependendo diretamente do corpo humano.
Cada tonelada começa com alguém dentro da água.
O retorno do rosa não eliminou os riscos
A recuperação de 2026 trouxe alívio econômico. Segundo a Reuters, trabalhadores voltaram a extrair sal e hotéis começaram a se preparar para a recuperação do fluxo turístico. O lago pode receber milhares de visitantes durante a temporada, ampliando a importância econômica da retomada.
Mas a normalização também significa o retorno ao ambiente hipersalino que torna a atividade possível. O mesmo sal que gera renda pode agravar feridas.
A mesma concentração que ajuda o lago a recuperar sua cor exige que trabalhadores cubram o corpo antes de entrar.
E a mesma paisagem que atrai visitantes esconde um processo de extração baseado em horas de trabalho físico dentro d’água.
Depois da inundação, a comunidade lutou para trazer o sal de volta.
Agora o desafio é manter essa economia funcionando sem tratar os riscos de quem a sustenta como parte inevitável da paisagem.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

