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Nordeste perde 507 projetos de usinas solares que pediram à Aneel a revogação das outorgas em 2026, com cerca de 22 GW previstos (perto de 1,5 Itaipu), segundo levantamento da agência, e executivos ouvidos pelo Movimento Econômico culpam os cortes de geração
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 26/09/2026 às 21:27
Atualizado em 26/09/2026 às 21:28
Energia Solar
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Bahia e Piauí concentram 287 das usinas solares desistentes, e o ONS calcula que o corte nas solares pode passar de 20% se todas as usinas com acesso contratado entrarem em operação
Só em 2026, 507 usinas solares planejadas para o Nordeste pediram à Aneel a revogação da outorga, mostra levantamento da agência. Juntas, somariam cerca de 22 GW, perto de 1,5 Itaipu.
O mapa das 507 desistências, estado por estado
A equipe técnica da Aneel fez o levantamento a pedido do Movimento Econômico, que publicou os números na sexta-feira (25). A lista reúne só usinas solares centralizadas, as de grande porte.
A tabela da Aneel mostra a Bahia na frente, com 158 usinas solares na lista, e o Piauí logo atrás, com 129. Os dois estados somam 287 desistências, ou 56,6% do total da região.
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Depois vêm o Rio Grande do Norte, com 91, o Ceará, com 67, a Paraíba, com 28, e Pernambuco, com 22. Sergipe teve 8 pedidos, e o Maranhão, 4.
Alagoas foi o único estado nordestino sem nenhuma revogação a pedido das empresas, informou a Aneel. Somados, os oito números (158 + 129 + 91 + 67 + 28 + 22 + 8 + 4) dão exatamente 507.
A conta dos 22 GW contra os 14 GW de Itaipu
Das 507 usinas solares, 506 declararam a potência prevista, e a soma chega a cerca de 22 GW, mostra o levantamento. A única exceção é uma usina revogada que não declarou esse número.
Para dar escala, o Movimento Econômico compara o total com Itaipu, uma das maiores hidrelétricas do mundo, com 14 GW. Seriam “aproximadamente uma vez e meia” a potência da binacional.
Dividindo 22 GW por 14 GW, chega-se a 1,57 Itaipu. Falar em perto de 1,5 Itaipu é, portanto, arredondar para baixo, e não exagerar.
Potência instalada, explica o Movimento Econômico, é o quanto as usinas poderiam gerar em condições ideais, caso fossem de fato construídas.
Na média, cada projeto desistente teria cerca de 43,5 MW, porque 22.000 MW divididos por 506 usinas solares dão 43,48 MW. São empreendimentos de grande porte, longe da escala dos painéis de telhado.
Um levantamento da ABSolar, a associação do setor, registra 21,22 GW em usinas solares centralizadas em operação no país. Os 22 GW que desistiram só no Nordeste, só em 2026, passam dessa soma nacional.
O que acontece com a outorga devolvida
A outorga é a autorização que a Aneel dá para uma empresa construir e explorar uma usina. “A outorga é o primeiro passo para um empreendimento de geração nascer”, explica Donato da Silva Filho, fundador e CEO da Volt Robotics.
Com a revogação, as empresas deixam de ter a obrigação de implantar as usinas solares, registra o Movimento Econômico. O que já gastaram no desenvolvimento dos projetos é considerado pequeno diante do investimento que as obras exigiriam.
Na opinião de Donato, o grande prejudicado pela onda de revogações é o Nordeste. “Alguém sonhou em implantar um projeto e este sonho foi anulado”, resume o executivo.
A corrida do ouro de 2022, nas palavras da Aneel
Em nota ao Movimento Econômico, a Aneel descreve o que houve como uma “Corrida do Ouro”. Muitas empresas pediram outorga num período de desconto nas tarifas das linhas de transmissão “sem a viabilidade econômica comprovada”.
O desconto valia para quem pedisse a outorga até 2 de março de 2022, detalha a nota.
A agência afirma que, depois, muitos empreendedores esbarraram em “restrições de escoamento na rede” e no “curtailment (corte de geração)”. Também pesou o “excesso de oferta de geração em relação à demanda (consumo) atual do país”.
A causa principal, segundo quatro executivos ouvidos pelo Movimento Econômico, são os cortes de geração e a imprevisibilidade que eles trouxeram às empresas. É a avaliação de quem acompanha o setor.
A nota da Aneel mostra os cortes como um dos fatores, ao lado da falta de linhas e do excesso de oferta. Os executivos dão a eles o peso maior.
Como funciona o corte de geração
O corte de geração, o curtailment, acontece quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) manda uma usina produzir menos do que poderia. Num relatório de maio de 2025, o operador separa esses cortes em três tipos.
O primeiro é a indisponibilidade externa, quando falha uma linha ou um equipamento fora da usina. Outro é o corte por confiabilidade, usado quando a rede não consegue escoar toda a energia com segurança.
O terceiro é a razão energética, quando há mais geração do que consumo e alguma usina precisa reduzir a produção. O relatório do ONS mostra que, até 2029, esse corte deve pesar mais entre 9h e 15h59.
Por que o Nordeste sente mais os cortes
O parque de eólicas e solares de grande porte do Nordeste quase dobrou entre 2021 e o início de 2025. O relatório do ONS registra 21,1 GW em 2021 e 39,4 GW em fevereiro de 2025.
A conta mostra a velocidade: 39,4 dividido por 21,1 dá 1,87, uma alta de 87%. O ONS informa que, desde agosto de 2023, eólicas, solares e painéis de telhado ganharam cerca de 30 GW no país.
Esse salto de cerca de 50%, concentrado principalmente no Nordeste, superou o crescimento do consumo no mesmo período, segundo o operador.
Para Donato, o curtailment é um problema de falta de flexibilização. “E flexibilidade a gente planeja, investe, contrata. A gente não fez isso, está atrasado e sofrendo pela falta de flexibilidade no sistema”, afirma.
O apagão de agosto de 2023 virou o ponto de virada
A perturbação de 15 de agosto de 2023, o apagão daquele dia, é tratada pelo ONS como “um marco no Setor Elétrico Brasileiro”. Depois dela, os cortes por confiabilidade subiram rápido.
O ONS explica que, naquele dia, o controle de tensão das eólicas e solares ficou muito aquém do previsto nos modelos das empresas. Em resposta, o operador reduziu os limites de troca de energia entre as regiões.
A partir de 2023, registra o Movimento Econômico, os cortes de geração começaram a aumentar. Nas eólicas, pelo gráfico do ONS, o corte foi de 0,3% do potencial em janeiro e chegou a 12,6% em setembro.
Muitos projetos nasceram antes dessa virada. Cerca de 30 GW de eólicas e solares do Nordeste já tinham parecer de acesso viável, informou o ONS, com base em análises feitas antes do apagão.
Nem todo corte dá direito a ressarcimento
Nem todo corte é compensado. Pela regra da Aneel descrita pelo ONS em maio de 2025, o ressarcimento, chamado de constrained-off, vale só para a indisponibilidade externa, e apenas quando a contingência foi identificada antes e o corte passa de um limite de tempo.
Os cortes por confiabilidade e por excesso de oferta ficam fora dessa regra. Eólicas e solares tentam fechar um termo de compromisso para o ressarcimento dos cortes, relata o Movimento Econômico, mas ainda não há entendimento sobre todos os tipos de corte. Donato afirma que “não há segurança com relação aos valores a serem ressarcidos devido aos cortes de geração”.
O executivo classifica os riscos como “imprecificáveis” e diz que a incerteza dificulta a aprovação dos investimentos e a captação de recursos. A classificação dos cortes, afirma, “não é auditável pelas empresas”.
“Não é previsível de quanto vai ser o corte, por que razão vai ocorrer, quanto tempo vai durar. E isso traz muitas incertezas, inclusive sobre a receita dos projetos”, resumiu Donato.
Quanto de energia o país já deixou de gerar
A Volt Robotics estima que, em 2025, o Brasil desperdiçou cerca de 20% da energia que as renováveis poderiam gerar, relata o Movimento Econômico. A receita ficou abaixo do previsto, sobretudo nas eólicas e solares do Nordeste.
Em 2024, só os cortes por razão energética somaram cerca de 4.330 GWh, registra o ONS. O pico, medido em intervalos de meia hora, chegou a 22.766 MW médios.
A média anual pode ser conferida: 4.330 GWh divididos pelas 8.784 horas de 2024, ano bissexto, dão 493 MW médios. É como se uma usina de quase 500 MW, gerando sem parar, ficasse desligada o ano todo.
O que o ONS projeta para as solares até 2029
O relatório do ONS mostra cerca de 25 GW em usinas com contrato de uso da rede, o CUST, assinado. Elas ainda não começaram a obra ou não fecharam venda de longo prazo, e a maioria é solar.
Se todas as usinas com CUST entrarem em operação, o corte médio chegaria a mais de 10% nas eólicas, calcula o ONS. Nas solares, passaria de 20%, e o operador registra que a conta pode até subestimar o problema.
Em 2029, os cortes por excesso de oferta devem chegar a cerca de 96% do total, mostra o relatório. Eles ocorrem qualquer que seja a capacidade das linhas de transmissão.
Já os cortes por confiabilidade nas interligações do Norte e do Nordeste com o Sudeste/Centro-Oeste tendem a cair, afirma o operador. A queda vem do aumento dos limites de transmissão, com a entrada de novas obras.
Os telhados solares também entram na conta
A micro e minigeração distribuída, a MMGD, que inclui os painéis de telhado, opera sem controle centralizado. O relatório do ONS explica que ela reduz a demanda atendida pelas usinas centralizadas e aumenta a necessidade de cortes sobre elas.
Num dia útil típico de 2029, simulado no relatório, a demanda líquida mínima do sistema ocorre às 13h. Nessa hora, mostra o ONS, a MMGD e a geração distribuída atendem quase 44% da carga.
Para equilibrar carga e geração nesse dia, seria preciso cortar até 18.897 MW de eólicas e solares centralizadas. O ONS registra que cortes desse tamanho podem ficar cada vez mais frequentes, inclusive em dias úteis.
A China cortava 17,2% e desceu para 2,7%
Donato destaca lugares que flexibilizaram o uso do sistema elétrico e conseguiram diminuir os cortes de geração, como Texas, Itália e China.
A China chegou a cortar 17,2% da geração renovável em 2016, registra o Movimento Econômico. Depois, reforçou as conexões entre regiões, mudou as regras de operação e investiu na flexibilidade das térmicas, que passaram a ligar mais rápido.
Em 2023, os cortes chineses caíram para 2,7% das renováveis. Pela conta, a fatia cortada ficou 6,4 vezes menor, já que 17,2 dividido por 2,7 dá 6,37.
No Brasil também há térmicas inflexíveis, registra o Movimento Econômico. Às vezes, elas começam a produzir pela manhã, quando sobra energia renovável, porque o sistema vai precisar delas no fim da tarde.
Para onde vão os projetos: Goiás e o Sul
Parte do investimento muda de endereço. Donato afirma que já ocorre uma migração das eólicas para o Sul, onde os ventos são menos favoráveis, mas há rede para escoar a energia.
As usinas solares, afirmou o executivo, seguem para Goiás, no Centro-Oeste, embora o estado também enfrente cortes de geração. Para Donato, o ritmo de crescimento das renováveis no Nordeste vai diminuir.
O mesmo levantamento da ABSolar mostra Goiás em sexto lugar em potência solar centralizada, somando usinas em operação e as que não saíram do papel. Minas Gerais lidera esse ranking.
Depois de Minas vêm Bahia, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Os quatro nordestinos do topo são justamente os estados que mais perderam projetos em 2026, pela tabela da Aneel.
O que o Nordeste deixa de ganhar
Donato afirma que a região perde empreendimentos que iriam atrair investimentos e gerar trabalho, principalmente na instalação das usinas. A economia local também sente, com menos gastos em refeições e aluguéis.
“O Nordeste perde uma grande oportunidade por falta de uma coordenação estrutural”, afirmou Donato. Mesmo assim, diz ele, a região continua muito competitiva nesse tipo de geração.
Anísio Coelho preside o Conselho Temático do Meio Ambiente da Fiepe, a federação das indústrias de Pernambuco. Ele disse que “a desistência das usinas solares ocorreu por falhas de planejamento, limitações na transmissão e incertezas regulatórias”.
Ele também afirma que menos usinas significam menos trabalho na montagem e na operação dos parques. A mão de obra especializada que atuava nesses projetos, na avaliação dele, tende a se dispersar.
Falta linha de transmissão ou sobra energia?
As duas coisas aparecem na nota da Aneel: a falta de linhas e o excesso de oferta diante do consumo. Já o relatório do ONS mostra que a sobra de energia é o que mais deve pesar até 2029.
As concorrências de transmissão de 2023 e 2024 somaram investimentos de R$ 37,4 bilhões e R$ 18 bilhões, registra o ONS, com obras planejadas em particular para o Nordeste.
O próprio operador afirma que esse planejamento não considerou reforços para os problemas de estabilidade de tensão. Eles ainda não tinham sido identificados pelos modelos matemáticos disponíveis na época.
Para reduzir os cortes na região, o ONS indicou três compensadores síncronos para o Rio Grande do Norte, mostra o relatório. São equipamentos que ajudam a controlar a tensão da rede.
Anísio Coelho, da Fiepe, olha para o lado do consumo e fala das indústrias eletrointensivas, que gastam muita energia. “Não precisaríamos de tantas linhas de transmissão se tivessem induzido as empresas eletrointensivas a se instalarem na região”, afirmou.
O que a ABSolar diz sobre o risco de faltar energia
Eduardo Azevedo, vice-presidente de Geração Centralizada da ABSolar, afirmou que a revogação reflete a inviabilidade técnica e econômica dos projetos nas condições atuais.
Para ele, os projetos foram concebidos com premissas que não se concretizaram, como a infraestrutura necessária. Até usinas em operação, afirma o executivo, “têm sofrido com esse descasamento, que compromete o retorno dos investimentos e a credibilidade do setor”.
Azevedo disse também que a incapacidade de transportar a energia renovável, por vezes, obriga o ONS a despachar térmicas. Elas são mais caras e poluentes e entram para atender cargas que ficaram sem suprimento.
Sobre o abastecimento, Azevedo diz que a revogação não constitui risco para o suprimento de novas cargas. Mas, na visão dele, ela sinaliza a necessidade urgente de uma revisão estrutural do sistema elétrico nacional.
Donato cobra um diagnóstico mais preciso das causas dos cortes e um plano “com prazos e metas”, que devolva previsibilidade a quem investe. “Sem isso, o Nordeste tende a receber menos investimentos em energia renovável”, contou.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

