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Golpistas usam IA, WhatsApp e voz clonada para enganar presidente de banco e liberar € 95 milhões em transferências no exterior; € 36 milhões ainda seguem desaparecidos
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 29/09/2026 às 16:29
Atualizado em 29/09/2026 às 16:48
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Golpistas usam IA, WhatsApp e voz clonada para enganar presidente de banco e liberar € 95 milhões em transferências no exterior; € 36 milhões ainda seguem desaparecidos
Um golpe que começou com uma mensagem de WhatsApp aparentemente enviada pelo presidente executivo de um dos maiores bancos da Europa terminou com aproximadamente € 95 milhões transferidos para contas no exterior. Na sequência, uma ligação com voz reproduzida por inteligência artificial ajudou a tornar a operação falsa ainda mais convincente.
A vítima foi Paolo Molesini, então presidente da Fideuram, braço de private banking do Intesa Sanpaolo. Segundo Reuters e Corriere della Sera, os criminosos se passaram pelo CEO do grupo, Carlo Messina, por mensagem e depois criaram uma segunda camada de confirmação ao simular por telefone a voz de um advogado conhecido. O caso mostra como golpes com IA já conseguem combinar identidade corporativa, pressão psicológica e clonagem de voz para atravessar controles internos de organizações bilionárias.
Golpe começou com mensagem atribuída ao CEO Carlo Messina
O episódio ocorreu em fevereiro de 2026. Molesini recebeu uma mensagem de WhatsApp que parecia ter sido enviada por Carlo Messina, CEO do Intesa Sanpaolo. O texto falava de uma operação internacional urgente e dizia que seria necessário usar a tesouraria da Fideuram para realizar transferências ao exterior.
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A história foi construída para parecer plausível dentro da estrutura do grupo. A Fideuram administra centenas de bilhões de euros em patrimônio e movimentações de dezenas de milhões, embora enormes para qualquer pessoa comum, não fossem necessariamente incompatíveis com a escala de suas operações.
Depois da mensagem, os golpistas adicionaram um elemento decisivo. Molesini recebeu uma ligação que parecia vir de um advogado sênior de um importante escritório internacional. Segundo as fontes, a voz do advogado foi reproduzida com tecnologia de inteligência artificial.
Esse detalhe ajudou a transformar uma simples mensagem suspeita em uma instrução aparentemente confirmada por uma segunda autoridade. Convencido de que a operação era verdadeira, Molesini orientou o departamento financeiro a executar uma série de transferências para contas estrangeiras.
Dinheiro foi enviado principalmente para China e Hong Kong
Ao todo, aproximadamente € 95 milhões saíram da Fideuram. As transferências foram direcionadas principalmente para contas na China e em Hong Kong, segundo pessoas familiarizadas com o caso ouvidas pela Reuters.
O banco percebeu irregularidades rapidamente e acionou instituições financeiras e autoridades de vários países. A reação permitiu recuperar uma parte expressiva do dinheiro antes que toda a quantia desaparecesse em uma cadeia de transferências sucessivas.
Cerca de € 53 milhões foram recuperados por meio da cooperação entre autoridades e bancos na China, em Portugal e na Itália. Ainda assim, aproximadamente € 36 milhões permaneciam sem localização quando o caso veio a público.
O caminho do dinheiro mostra outra dificuldade para investigações modernas. Parte dos recursos passou por contas em vários países e terminou convertida em criptomoedas, o que ampliou a complexidade do rastreamento.
Investigação rastreou contas, plataforma de transferência e carteiras de Bitcoin
Uma investigação da Promotoria de Milão passou a acompanhar o percurso internacional do dinheiro. Reportagem posterior do Corriere della Sera informou que parte dos valores transitou por contas em Malta, Luxemburgo e Holanda, além de uma plataforma canadense de transferência de dinheiro e carteiras de Bitcoin.
As autoridades identificaram um estrangeiro residente fora da Europa como investigado por suspeita de fraude informática. Reuters afirmou que nem Molesini nem outros executivos da Fideuram estavam sob investigação.
Molesini deixou a presidência em março alegando razões pessoais. As reportagens disponíveis não estabelecem que sua saída tenha sido causada pelo golpe, portanto os dois fatos não podem ser tratados como uma relação de causa e efeito comprovada.
A voz clonada não era a do CEO do banco
Um detalhe é importante para entender exatamente como a fraude funcionou. Os criminosos se passaram por Carlo Messina na mensagem de WhatsApp, mas as fontes não dizem que clonaram a voz do CEO. A voz reproduzida por IA durante a ligação era a de um advogado apresentado como participante da suposta operação.
A combinação de canais diferentes tornou o golpe mais convincente. A vítima não recebeu apenas uma ordem por texto: recebeu uma segunda confirmação, por telefone, atribuída a outra pessoa com posição compatível com a história contada pelos criminosos.
Esse modelo de fraude é conhecido como engenharia social. Em vez de atacar diretamente os sistemas de informática do banco, os criminosos atacaram o processo de tomada de decisão de uma pessoa que tinha autoridade para iniciar operações financeiras de grande porte.
IA transforma um golpe antigo em algo muito mais difícil de identificar
Golpes baseados em falsos executivos existem há anos, mas ferramentas de inteligência artificial reduziram a dificuldade de reproduzir vozes, escrever mensagens convincentes e adaptar uma fraude ao perfil da vítima. O resultado é um ataque que pode parecer muito mais sofisticado sem exigir acesso direto aos sistemas internos da empresa.
A própria Itália já havia registrado outro episódio desse tipo. Em 2025, fraudadores usaram IA para imitar a voz de um ministro e convencer o empresário Massimo Moratti a transferir quase € 1 milhão para uma conta no exterior. Nesse caso, o dinheiro também foi recuperado.
O caso da Fideuram chama atenção principalmente pela escala. Mesmo em uma instituição acostumada a operações de grande valor, uma mensagem falsa e uma ligação fabricada foram suficientes para colocar dezenas de milhões de euros em movimento antes que a fraude fosse percebida.
Para empresas e bancos, o episódio reforça uma regra cada vez mais necessária: instruções financeiras urgentes recebidas por mensagem ou voz precisam ser confirmadas por um canal independente, mesmo quando parecem vir de pessoas conhecidas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

