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China volta os olhos para a energia eólica brasileira e fala em ampliar investimentos, Mingyang destacou o potencial eólico brasileiro, a cadeia industrial existente e a mão de obra qualificada
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 07/10/2026 às 09:25
Atualizado em 07/10/2026 às 10:00
Energia Renovável
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Mingyang vê enorme potencial eólico no Brasil, destaca indústria e mão de obra local e condiciona novos investimentos à previsibilidade do mercado.
A chinesa Mingyang Smart Energy, uma das grandes fabricantes globais de turbinas eólicas, voltou a colocar o Brasil no centro de sua estratégia internacional. Em declaração feita durante o Fórum Nacional Brasil Export 2026 e publicada pelo BE News em 6 de outubro, o gerente-geral da companhia para as Américas, Marco Wobeto, afirmou que o país reúne alguns dos melhores recursos eólicos do mundo, possui indústria desenvolvida e mão de obra qualificada para receber uma nova onda de investimentos. Mas colocou uma condição clara: para fabricantes globais ampliarem fábricas, fornecedores e contratos, o Brasil precisa oferecer previsibilidade de demanda.
A fala ganha peso porque a Mingyang não está apenas estudando o mercado brasileiro. A empresa já trouxe seu primeiro aerogerador ao país, conectou uma turbina de 6,25 MW da Copel à rede no Rio Grande do Norte em 2025 e já havia firmado um acordo de fornecimento preferencial para um projeto de 240 MW, envolvendo 49 turbinas.
Mingyang diz que Brasil possui condições raras para a indústria eólica
A avaliação apresentada por Marco Wobeto reúne três pontos que interessam diretamente a qualquer fabricante de turbinas.
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O primeiro é a qualidade do vento. O Brasil possui extensas áreas, principalmente no Nordeste, onde os ventos apresentam velocidade elevada e comportamento relativamente previsível durante boa parte do ano.
O segundo é a existência de uma cadeia industrial já formada. Torres, pás, componentes elétricos, estruturas metálicas, serviços de engenharia, transporte especial e manutenção já são produzidos ou executados no país.
O terceiro é mão de obra.
A indústria eólica brasileira formou ao longo dos últimos anos profissionais especializados em montagem, engenharia, manutenção, logística e operação de parques.
Para a Mingyang, portanto, o problema brasileiro não está na falta de recurso natural nem na inexistência de uma indústria capaz de receber novos fornecedores.
O ponto central está na demanda futura.
Fabricante quer saber quantas turbinas o Brasil comprará nos próximos anos
Uma fábrica de aerogeradores exige investimentos elevados. Linhas de montagem são grandes, componentes pesados precisam de instalações especiais e cada modelo pode exigir novos equipamentos, fornecedores e treinamento.
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Uma empresa dificilmente investirá centenas de milhões em uma planta industrial se não conseguir enxergar pedidos suficientes para manter a fábrica trabalhando durante vários anos.
Foi exatamente esse ponto levantado pela Mingyang. Segundo Wobeto, a previsibilidade dos investimentos é fundamental.
Na prática, fabricantes querem saber se existirão leilões, contratos de energia, linhas de transmissão e projetos capazes de criar demanda contínua por novas turbinas.
Sem isso, um mercado pode ter os melhores ventos do planeta e ainda assim não justificar uma nova fábrica.
Mingyang já colocou uma turbina de 6,25 MW para funcionar no Brasil
A relação da empresa chinesa com o Brasil já passou da fase de apresentação comercial. Em agosto de 2025, a Mingyang anunciou a conexão à rede de sua primeira turbina instalada no país.
O equipamento, modelo MySE 6.25-172, foi colocado em um projeto da Copel no Rio Grande do Norte. A turbina possui potência nominal de 6,25 MW e rotor de 172 metros de diâmetro.
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A instalação marcou a entrada física da tecnologia da Mingyang no mercado brasileiro.
Segundo a fabricante, o projeto também serviu para demonstrar sua capacidade de atuar na engenharia, logística, instalação, comissionamento e futura manutenção dos equipamentos no país.
Esse tipo de projeto piloto é importante porque uma turbina eólica precisa provar que consegue trabalhar com as características da rede brasileira, do clima local e das condições operacionais exigidas pelos clientes.
Um acordo anterior previa 49 turbinas e 240 MW
Antes mesmo da primeira máquina da Copel entrar em operação, a Mingyang já havia fechado um negócio muito maior.
A empresa assinou um acordo de fornecedor preferencial para um projeto eólico terrestre de 240 MW no Brasil. O projeto foi estruturado em duas fases.
O plano divulgado previa 30 turbinas MySE 4.0-156, de 4 MW cada, e outras 19 unidades MySE 6.25-172, de 6,25 MW.
Somadas, as máquinas chegariam a aproximadamente 240 MW de capacidade. A fabricante também discutia um contrato de operação e manutenção por 20 anos.
Isso mostra que a estratégia da companhia não envolve apenas vender uma turbina e sair do país. Contratos de manutenção podem manter equipes, peças, centros técnicos e fornecedores ativos durante décadas.
Mingyang vendeu 18,3 GW de turbinas em apenas um ano
A escala global da fabricante ajuda a entender por que sua movimentação interessa ao mercado brasileiro.
Segundo o relatório anual de 2025, a Mingyang vendeu externamente cerca de 18,3 GW em turbinas eólicas durante aquele ano.
Desse total, aproximadamente 16,1 GW vieram de turbinas terrestres e 2,2 GW de modelos offshore. A receita obtida com turbinas e componentes relacionados chegou a 31,01 bilhões de yuans.
No primeiro semestre de 2026, a fabricante informou vendas externas adicionais de aproximadamente 8,9 GW.
A empresa também afirma possuir cerca de 155 GW de capacidade instalada acumulada em seus projetos e equipamentos pelo mundo.
Essa escala coloca a companhia entre os fabricantes capazes de disputar grandes contratos internacionais.
Brasil já possui mais de mil parques eólicos
A Mingyang chega a um mercado que deixou de ser pequeno há muitos anos.
Dados consolidados utilizados pela Empresa de Pesquisa Energética indicavam mais de 1.100 parques eólicos em funcionamento no país e aproximadamente 33 GW de potência instalada da fonte.
A grande concentração está no Nordeste. Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e outros estados formam um gigantesco corredor de geração movido pelos ventos do interior e do litoral.
Em determinados períodos do ano, a geração eólica chega a atender parcela muito elevada da carga elétrica nordestina.
Esse desempenho transformou regiões que antes tinham pouca infraestrutura elétrica em grandes exportadoras de eletricidade para outras partes do Sistema Interligado Nacional.
Mesmo com bons ventos, novas encomendas desaceleraram
É justamente aqui que aparece a preocupação levantada pela fabricante chinesa. O Brasil possui parques, fornecedores, fabricantes e excelente recurso natural, mas novos projetos eólicos precisam de contratos para avançar.
Nos últimos anos, a expansão acelerada da geração solar, mudanças no mercado livre, problemas de transmissão e cortes de geração alteraram o ritmo de contratação de novos parques eólicos.
Fabricantes sentem esse movimento rapidamente.
Uma usina eólica pode usar dezenas de aerogeradores. Quando vários projetos são adiados ao mesmo tempo, linhas de produção inteiras podem ficar com menos pedidos.
É por isso que previsibilidade se tornou uma palavra central para empresas que avaliam investimentos de longo prazo.
Outros fabricantes chineses já estão construindo fábricas no Brasil
A Mingyang não é a única companhia chinesa observando esse mercado.
A Goldwind inaugurou em Camaçari, na Bahia, sua primeira fábrica de aerogeradores fora da China.
O investimento divulgado foi de aproximadamente R$ 150 milhões. A unidade possui capacidade para fabricar até 150 aerogeradores por ano, com modelos entre 6,2 MW e 8,3 MW.
Outra chinesa, a Windey, iniciou em 2026 a implantação de sua primeira fábrica brasileira também em Camaçari.
A concentração de fabricantes na Bahia mostra como o Nordeste está deixando de ser apenas local de instalação de parques eólicos para se tornar também polo industrial da cadeia.
Uma eventual ampliação da presença da Mingyang aumentaria ainda mais essa competição.
Turbinas maiores estão mudando completamente a economia dos parques
A nova geração de máquinas também altera a escala dos empreendimentos. Há pouco mais de uma década, uma turbina terrestre de 2 MW era considerada grande no mercado brasileiro.
Hoje, fabricantes trabalham com equipamentos superiores a 6 MW. Uma turbina de 6,25 MW pode substituir, em capacidade nominal, mais de três máquinas antigas de 2 MW.
Assista o vídeo
Isso significa menos torres, menos fundações e menor quantidade de posições para alcançar uma mesma potência total. Ao mesmo tempo, os componentes ficam gigantescos.
Pás podem ultrapassar dezenas de metros, torres ficam mais altas e naceles precisam transportar geradores, sistemas eletrônicos e componentes mecânicos de enorme peso.
Toda essa evolução exige fábricas, portos, estradas e equipamentos logísticos adaptados.
Próxima fronteira pode estar no oceano
O Brasil ainda não possui parques eólicos offshore comerciais em operação. Mas essa realidade começa a mudar do ponto de vista regulatório.
A Lei nº 15.097, sancionada em janeiro de 2025, criou o marco legal para aproveitamento do potencial energético eólico no mar.
Em 2026, o governo avançou na regulamentação e publicou uma metodologia destinada a selecionar áreas que poderão futuramente ser ofertadas. A expansão marítima interessa diretamente à Mingyang.
A empresa possui experiência em turbinas offshore e desenvolve equipamentos de grande porte, inclusive modelos flutuantes voltados a águas profundas.
Em mercados internacionais, a fabricante trabalha com turbinas acima de 18 MW.
Uma única máquina offshore desse porte possui capacidade semelhante à de várias turbinas terrestres instaladas juntas.
Offshore poderia criar uma nova indústria pesada no litoral
Um grande parque eólico no mar exige uma cadeia diferente da eólica terrestre.
São necessárias turbinas gigantes, fundações, cabos submarinos, subestações offshore, embarcações especiais, portos e centros de montagem próximos do litoral.
Uma indústria desse tamanho poderia atrair investimentos para regiões portuárias brasileiras.
Fabricantes interessados no mercado precisam decidir se importarão equipamentos completos ou se produzirão partes no país.
É justamente essa escolha que depende de escala. Se o Brasil contratar apenas alguns parques isolados, importar pode ser economicamente mais simples.
Se existir uma sequência clara de projetos durante vários anos, fabricar localmente começa a fazer mais sentido.
China já demonstra estratégia de fabricar perto dos mercados consumidores
A própria Mingyang oferece exemplos internacionais dessa lógica.
A companhia anunciou planos para construir uma grande base industrial no Reino Unido voltada a turbinas offshore e flutuantes.
O investimento originalmente planejado chegou a 1,5 bilhão de libras, embora o projeto tenha enfrentado incertezas regulatórias e políticas.
Na Itália, a empresa também participou de discussões envolvendo uma fábrica destinada a componentes de turbinas offshore.
O objetivo é simples: aproximar fabricação dos futuros parques. Transportar estruturas eólicas gigantes por milhares de quilômetros é caro e complexo.
Quando um mercado possui volume suficiente, montar a cadeia produtiva perto dos projetos pode reduzir custos logísticos.
Nova onda chinesa pode aumentar concorrência entre fabricantes no Brasil
A entrada de mais fabricantes pode produzir uma disputa importante. Empresas europeias dominaram grande parte da primeira onda da eólica brasileira.
Agora, companhias chinesas chegam com turbinas maiores, cadeias industriais próprias e forte capacidade de produção.
Goldwind, Windey e Mingyang são exemplos dessa movimentação. Essa concorrência pode pressionar preços de equipamentos e criar novas opções para desenvolvedores.
Ao mesmo tempo, aumenta a disputa entre estados brasileiros para receber fábricas, centros de manutenção e fornecedores.
Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte e outros estados do Nordeste possuem vantagens naturais por estarem próximos das principais regiões de geração eólica.
Uma nova disputa industrial começa ao redor dos ventos brasileiros
A Mingyang já conseguiu colocar sua primeira turbina de 6,25 MW em funcionamento no Brasil.
Já fechou um acordo envolvendo 49 máquinas e 240 MW. Ao mesmo tempo, outros fabricantes chineses já começaram a construir fábricas no Nordeste.
A próxima etapa será decidir se o mercado brasileiro possui volume suficiente para receber uma expansão industrial ainda maior.
O recurso natural não parece ser o problema. O Nordeste continua oferecendo alguns dos melhores ventos para geração elétrica do planeta.
A tecnologia também existe. Fabricantes chineses já produzem turbinas terrestres acima de 6 MW e equipamentos offshore que ultrapassam 18 MW.
A decisão agora depende de contratos.
Se o Brasil conseguir transformar seu enorme potencial eólico em uma sequência previsível de novos projetos, a próxima grande disputa do setor pode não acontecer apenas por quem construirá os parques.
Ela poderá acontecer por quem instalará no país as fábricas capazes de produzir as gigantescas máquinas que transformarão esses ventos em eletricidade durante as próximas décadas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

