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USP cria sistema com realidade virtual que monitora cérebro e olhos para detectar sinais precoces de perda de memória e demência
Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/10/2026 às 22:00
Atualizado em 24/10/2026 às 22:05
Ciência e Tecnologia
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Plataforma desenvolvida em São Carlos combina realidade virtual, inteligência artificial e sinais cerebrais para ampliar a análise de alterações cognitivas que podem surgir antes de quadros mais avançados.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, desenvolveram uma plataforma que combina realidade virtual, inteligência artificial, eletroencefalografia e rastreamento dos olhos para identificar alterações associadas ao comprometimento cognitivo leve.
A tecnologia está em fase de desenvolvimento e busca fornecer informações adicionais para a avaliação médica de pessoas com sinais iniciais de declínio cognitivo.
O trabalho é conduzido no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP e tem como foco o comprometimento cognitivo leve, conhecido pela sigla CCL.
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Essa condição envolve alterações de memória, linguagem, atenção ou outras funções cognitivas que podem ser percebidas pelo paciente e pelas pessoas próximas, mas ainda não provocam necessariamente perda importante de autonomia no cotidiano.
O CCL merece atenção porque pode permanecer estável em alguns pacientes, enquanto em outros pode anteceder quadros demenciais.
Isso não significa, porém, que todas as pessoas diagnosticadas com a condição desenvolverão Alzheimer ou outra demência. A American Psychiatric Association estima que entre 10% e 20% dos indivíduos com mais de 65 anos apresentem comprometimento cognitivo leve e ressalta que a evolução varia de pessoa para pessoa.
Realidade virtual acompanha cérebro e movimentos dos olhos
É justamente nessa fase inicial que o projeto da USP pretende atuar. Em vez de depender apenas das respostas fornecidas em testes neuropsicológicos convencionais, a plataforma reúne diferentes tipos de dados durante uma mesma avaliação para procurar padrões relacionados ao funcionamento cognitivo.
Na prática, o participante usa um ambiente de realidade virtual e executa tarefas que simulam atividades rotineiras. Ao mesmo tempo, um eletroencefalograma registra a atividade elétrica cerebral, enquanto um sistema de rastreamento ocular acompanha a movimentação dos olhos e o tempo de fixação do olhar.
Esses registros permitem observar diferentes aspectos da resposta do participante aos estímulos apresentados.
Segundo os pesquisadores, os movimentos dos olhos podem fornecer informações sobre a forma como a atenção é distribuída, enquanto determinados padrões das ondas cerebrais ajudam a analisar o esforço relacionado à memória operacional.
A inteligência artificial entra depois no cruzamento dessa quantidade de informações. O projeto utiliza técnicas de aprendizado de máquina e redes neurais profundas para processar simultaneamente os dados cerebrais, visuais e comportamentais e procurar padrões estatísticos associados ao declínio cognitivo.
O pesquisador Roberto Douglas Guimarães de Aquino explica que a proposta não é simplesmente produzir uma resposta automática dizendo se uma pessoa apresenta ou não comprometimento.
A intenção é desenvolver modelos interpretáveis, capazes de apontar quais elementos contribuíram para determinada análise e gerar informações que possam auxiliar o neurologista.
Por isso, embora a tecnologia esteja relacionada à identificação precoce de alterações que podem anteceder quadros de demência, ela não deve ser interpretada como um sistema que diagnostica sozinho a doença de Alzheimer.
A própria descrição do projeto indica que a plataforma está sendo desenvolvida e validada para avaliar funções cognitivas e detectar biomarcadores associados ao declínio cognitivo.
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Projeto da USP reúne diferentes tecnologias de avaliação
A pesquisa integra o projeto de pós-doutorado de Aquino, supervisionado pelo professor Alexandre Cláudio Botazzo Delbem, do ICMC-USP.
Segundo a Biblioteca Virtual da FAPESP, a proposta envolve realidade virtual, realidade aumentada, interfaces cérebro-computador, eletroencefalografia e algoritmos de inteligência artificial voltados à avaliação de pacientes com comprometimento cognitivo leve.
A documentação da FAPESP mostra ainda que o projeto foi estruturado em diferentes etapas, incluindo revisão de literatura, integração e testes dos equipamentos, desenvolvimento de uma bateria de avaliação cognitiva e criação de algoritmos capazes de analisar a atividade cerebral.
A pesquisa está vinculada ao ICMC, em São Carlos.
Um dos pontos observados pelos pesquisadores é a possibilidade de complementar testes já utilizados na avaliação cognitiva, como o Miniexame do Estado Mental e o Montreal Cognitive Assessment, conhecido como MoCA.
Esses instrumentos continuam tendo papel clínico, mas a equipe busca acrescentar medidas fisiológicas e comportamentais que não dependam apenas das respostas dadas pelo paciente.
Aquino afirmou à assessoria do ICMC que testes tradicionais podem ser influenciados por fatores como escolaridade e características socioculturais.
A plataforma tenta acrescentar outra camada de análise ao registrar, em intervalos muito pequenos de tempo, a reação cerebral e o comportamento visual diante de estímulos apresentados no ambiente virtual.
Inteligência artificial ainda passa por validação
A pesquisa inclui participantes de grupos clínicos e voluntários saudáveis usados como controle, pareados por fatores como idade e escolaridade.
De acordo com a Agência FAPESP, os dados são armazenados de forma segura e mantidos anônimos durante o desenvolvimento do trabalho.
Esse processo de validação é importante porque sistemas de inteligência artificial aplicados à saúde precisam demonstrar desempenho adequado antes de serem incorporados à prática clínica.
No caso da plataforma da USP, os pesquisadores ainda trabalham na validação dos algoritmos e da metodologia, portanto a ferramenta não foi apresentada como substituta da avaliação realizada por profissionais de saúde.
Além da identificação do declínio cognitivo, o grupo estuda aplicações futuras relacionadas à neurorreabilitação.
Segundo Alexandre Delbem, os dados produzidos pelo sistema poderão contribuir, em outra etapa do trabalho, para pesquisas sobre intervenções cognitivas e motoras personalizadas.
O projeto também prevê disponibilizar parte dos resultados para outros pesquisadores.
Após o término das validações clínicas, a equipe pretende publicar em código aberto o software de análise integrada e os algoritmos desenvolvidos, além de conjuntos de dados anonimizados.
A intenção informada pelos responsáveis é permitir que outros grupos científicos possam reproduzir e testar a metodologia.
A pesquisa ganhou divulgação nesta sexta-feira (23), em publicação da Agência FAPESP e do Jornal da USP.
O trabalho coloca no mesmo sistema tecnologias que normalmente produzem informações distintas — realidade virtual, acompanhamento do olhar, atividade elétrica cerebral e inteligência artificial — para estudar sinais que podem surgir antes de um quadro de comprometimento cognitivo mais avançado.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

