Faça um comentário
9 min de leitura
Juros elevados preocupam 4 em cada 10 empresários da construção civil e aumentam a busca por alternativas de crédito para financiar obras no Brasil
Escrito por Carla Teles
Publicado em 30/10/2026 às 21:26
Construção
Grupo
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Levantamento da CNI e da CBIC revela dificuldades de acesso ao financiamento, pressão sobre os custos e menor disposição para investir; modalidades como o crédito com garantia de imóvel surgem como alternativas para viabilizar construções e reformas.
O custo elevado do crédito continua sendo um dos principais obstáculos para a construção civil brasileira em 2026. Mesmo com a redução gradual da taxa básica de juros, empresas do setor enfrentam dificuldades para financiar novos empreendimentos, manter o capital de giro e preservar a rentabilidade das operações.
Segundo a Sondagem Indústria da Construção, divulgada em outubro pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), quatro em cada dez empresários apontaram os juros elevados como o principal problema enfrentado pelo setor no terceiro trimestre de 2026.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O percentual aumentou 3,8 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior e atingiu o segundo maior patamar da série histórica, iniciada em 2015. O resultado demonstra que, apesar da flexibilização monetária, o financiamento permanece entre os principais desafios da atividade.
O cenário também chama a atenção para modalidades alternativas de financiamento, especialmente aquelas que permitem utilizar patrimônio imobiliário como garantia para obter recursos destinados à construção, ampliação ou reforma de imóveis.
Juros elevados e dificuldade de financiamento pressionam a construção civil
Os resultados da pesquisa CNI/CBIC mostram que os desafios financeiros da construção vão além das taxas de juros.
A carga tributária elevada foi apontada por 31% dos empresários como um dos principais problemas enfrentados no terceiro trimestre, enquanto a falta ou o alto custo da mão de obra não qualificada apareceu em 29% das respostas.
Outro indicador relevante é o de facilidade de acesso ao crédito, que recuou de 39,3 para 37,9 pontos. Como a escala utiliza 50 pontos como referência, o resultado demonstra uma percepção mais negativa dos empresários sobre as condições para contratar empréstimos e financiamentos.
A rentabilidade também apresentou deterioração. O índice de satisfação com o lucro operacional caiu para 40,7 pontos, o menor nível desde o primeiro trimestre de 2021. Já a satisfação com a situação financeira permaneceu em 45,2 pontos, indicando que o descontentamento continua predominando entre as empresas do setor.
Na prática, essa combinação pode dificultar o planejamento financeiro das construtoras, especialmente em empreendimentos que exigem desembolsos elevados antes da comercialização ou conclusão das unidades.
Obras residenciais e comerciais dependem de recursos para aquisição de materiais, contratação de profissionais, equipamentos e cumprimento de cronogramas. Quando o financiamento fica mais caro, o custo total do empreendimento tende a aumentar, pressionando as margens e exigindo maior capacidade financeira de quem investe.
Pesquisa aponta que 76% das indústrias com dificuldade de crédito citam juros altos
Uma segunda pesquisa da CNI reforça a dimensão do problema no ambiente industrial brasileiro.
Divulgada em outubro de 2026, a Sondagem Especial sobre Condições de Acesso ao Crédito mostrou que 76% das empresas industriais que enfrentaram dificuldades para obter financiamentos de curto ou médio prazo apontaram os juros elevados entre os principais obstáculos.
Nas operações de longo prazo, superiores a cinco anos, o problema foi mencionado por aproximadamente 69% dos empresários que relataram dificuldades.
O levantamento ouviu 1.701 empresas industriais, sendo 692 pequenas, 612 médias e 397 grandes, entre os dias 3 e 12 de agosto de 2026. Os dados se referem às condições de crédito enfrentadas entre fevereiro e julho daquele ano.
Além das taxas de juros, as exigências de garantias reais foram apontadas por 33,4% das empresas com dificuldades de acesso a financiamentos de curto e médio prazo. Nas operações de longo prazo, o percentual chegou a 31,5%.
A burocracia e os prazos de carência também apareceram entre os obstáculos identificados.
Embora essa segunda pesquisa considere a indústria de maneira geral, e não exclusivamente a construção civil, os resultados ajudam a compreender as dificuldades de financiamento enfrentadas por empresas que dependem de investimentos de longo prazo.
Custos dos materiais e mão de obra ampliam o desafio de construir no Brasil
O financiamento não é a única preocupação de quem pretende iniciar uma obra. A evolução dos preços dos materiais e da mão de obra também influencia diretamente o orçamento de construções residenciais, comerciais e industriais.
Dados do Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (SINAPI), produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o custo médio nacional da construção atingiu R$ 1.999,73 por metro quadrado em setembro de 2026.
O indicador apresentou crescimento de 0,30% no mês, acumulando alta de 5,72% no ano e de 6,81% nos últimos 12 meses.
Com base nessa média nacional, uma construção de 100 metros quadrados representaria aproximadamente R$ 199.973 em custos de referência. Entretanto, esse cálculo não corresponde necessariamente ao orçamento completo de uma residência, pois despesas como terreno, projetos, licenças, características de acabamento e outros custos específicos podem elevar o investimento final.
O impacto é ainda mais significativo em obras de maior porte, nas quais pequenas variações percentuais podem representar dezenas ou centenas de milhares de reais adicionais.
Além disso, o indicador de evolução dos preços de insumos e matérias-primas da sondagem CNI/CBIC permaneceu em 65,5 pontos no terceiro trimestre de 2026. Apesar da redução em relação aos 66,2 pontos anteriores, o resultado acima de 50 indica que os empresários continuam percebendo aumento nos preços dos materiais.
Nesse contexto, a disponibilidade de recursos financeiros passa a ter importância estratégica. A falta de capital durante a execução pode provocar interrupções, atrasos na entrega e necessidade de renegociação com fornecedores.
Crédito com garantia de imóvel ganha espaço como alternativa para financiar obras
Em meio às dificuldades de acesso ao financiamento, o crédito com garantia de imóvel, conhecido como home equity, aparece como uma alternativa para proprietários que precisam de recursos para construir, reformar ou ampliar imóveis.
Nessa modalidade, um imóvel é oferecido como garantia da operação, permitindo a contratação de crédito com condições que podem ser diferentes das oferecidas em empréstimos pessoais sem garantia.
Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), reproduzidos em levantamento publicado pela CashMe, indicam que as concessões de crédito com garantia de imóvel somaram R$ 6,67 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 30,9% em relação ao mesmo período de 2025.
Segundo os números apresentados, a carteira total da modalidade alcançou R$ 34,1 bilhões.
A expansão indica maior utilização desse instrumento no mercado de crédito brasileiro, embora não seja possível atribuir todo o crescimento especificamente à demanda por financiamento de obras.
Uma das empresas que atuam nesse segmento é a CashMe, fintech do Grupo Cyrela, que disponibiliza soluções de crédito para pessoas físicas e jurídicas, incluindo modalidades voltadas à construção e à utilização de imóveis como garantia.
De acordo com informações divulgadas pela companhia, sua linha de crédito com garantia de imóvel permite operações de R$ 50 mil a R$ 25 milhões, com possibilidade de utilização de até 60% do valor do bem e prazo de pagamento de até 240 meses, conforme análise e condições contratuais.
A empresa também oferece uma modalidade específica de financiamento para construção, destinada a obras residenciais e comerciais. Nesse produto, o financiamento pode chegar a 50% do valor avaliado do imóvel concluído, com liberação de recursos de acordo com o andamento da construção.
O modelo prevê desembolsos por etapas, após a verificação da evolução física da obra. Segundo a CashMe, os juros incidem sobre os valores efetivamente liberados, permitindo adequar o fluxo financeiro ao cronograma do empreendimento.
A possibilidade de distribuir os desembolsos ao longo da execução pode ser relevante para projetos que exigem diferentes volumes de investimento em cada fase, desde a fundação até o acabamento.
Entretanto, a contratação exige avaliação cuidadosa das condições financeiras. Operações com garantia imobiliária envolvem riscos, incluindo a possibilidade de perda do bem em caso de inadimplência, conforme as regras contratuais e legais aplicáveis.
Intenção de investimento na construção tem pior outubro desde 2020
Os desafios financeiros também se refletem nas perspectivas de expansão do setor.
Segundo a Sondagem Indústria da Construção, o índice de intenção de investimento avançou 2,2 pontos entre setembro e outubro de 2026, chegando a 41,9 pontos.
Apesar da recuperação mensal, o indicador apresentou o menor resultado para outubro desde 2020, revelando que os empresários continuam cautelosos em relação à realização de novos investimentos.
A atividade industrial da construção apresentou melhora parcial em setembro. O índice de evolução do nível de atividade subiu 0,9 ponto, alcançando 45,6 pontos, enquanto a Utilização da Capacidade Operacional avançou para 68%.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial da Construção também registrou recuperação, atingindo 49 pontos. Entretanto, permaneceu abaixo dos 50 pontos, patamar que separa confiança de falta de confiança.
A pesquisa ouviu 305 empresas, sendo 120 pequenas, 125 médias e 60 grandes, entre 1º e 13 de outubro de 2026.
Os resultados mostram um cenário de recuperação limitada, no qual a disposição para investir depende não apenas das perspectivas de demanda, mas também das condições de financiamento, dos custos operacionais e da rentabilidade esperada.
Planejamento financeiro se torna decisivo para evitar obras paralisadas
Para empresas e proprietários que pretendem iniciar projetos de construção, a combinação de juros elevados e custos crescentes reforça a necessidade de planejamento financeiro.
Antes de contratar financiamento, é importante calcular o custo total da obra, estimar eventuais reajustes de materiais e mão de obra e definir uma reserva para imprevistos.
Também é necessário comparar o Custo Efetivo Total (CET) das operações de crédito, considerando não apenas os juros anunciados, mas tarifas, seguros, tributos e outros encargos aplicáveis.
Em financiamentos vinculados ao andamento da construção, o cronograma de liberação dos recursos deve ser compatível com as etapas previstas no projeto. Caso contrário, podem surgir dificuldades para pagar fornecedores e manter a execução dentro do prazo.
Outro ponto importante é avaliar a capacidade de pagamento durante e depois da conclusão do empreendimento. Prazos mais longos podem reduzir o valor das prestações, mas também podem aumentar o montante total de juros pagos ao longo do contrato.
Para quem utiliza um imóvel como garantia, essa análise deve ser ainda mais criteriosa, já que o patrimônio oferecido fica vinculado à operação.
Perspectivas para a construção civil dependem da evolução do crédito
Os resultados divulgados pela CNI e pela CBIC mostram que a construção civil brasileira chega ao último trimestre de 2026 enfrentando um conjunto de desafios financeiros.
Embora alguns indicadores de atividade e confiança tenham apresentado melhora, os juros elevados continuam liderando as preocupações empresariais, enquanto a dificuldade de acesso ao crédito e a pressão sobre os custos limitam a capacidade de investimento.
Ao mesmo tempo, o crescimento de modalidades como o crédito com garantia de imóvel amplia o conjunto de alternativas disponíveis para financiar construções, reformas e projetos de expansão.
Essas soluções não eliminam os riscos financeiros associados ao endividamento, mas podem oferecer diferentes estruturas de prazo, garantia e liberação de recursos, de acordo com as necessidades de cada projeto.
Para os próximos meses, a evolução das taxas de juros, das condições de financiamento e dos custos da construção deverá continuar influenciando as decisões de empresas, investidores e proprietários que pretendem tirar novas obras do papel.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

