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Caminhão-tanque com 44 mil litros de etanol desceu a Serra do Mar a até 132 km/h, e dez anos depois o júri deu ao motorista mais de meio século de prisão e absolveu o supervisor
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 06/11/2026 às 11:55
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Laudos estimaram que o caminhão-tanque vinha de 116 a 132 km/h, num trecho com limite de 60 km/h para pesados. A pena soma reclusão e detenção, por isso o noticiário oscila entre 52 anos e 54 anos e 4 meses.
O Tribunal do Júri de Morretes (PR) condenou a 54 anos e 4 meses de prisão o motorista de um caminhão-tanque carregado de etanol, segundo a nota do Ministério Público do Paraná (MPPR). A colisão foi na BR-277, na descida da Serra do Mar, em 3 de julho de 2016. O supervisor dele foi julgado no mesmo processo e acabou absolvido.
A sentença saiu na noite de 29 de outubro de 2026, informou o g1, mais de dez anos depois da colisão que matou seis pessoas. O motorista deixou o fórum preso, para começar a cumprir a pena. A defesa dele promete recorrer.
Os laudos da época estimaram a velocidade do caminhão-tanque entre 116 e 132 km/h. No sentido Curitiba-Paranaguá, ele bateu na mureta e invadiu a pista contrária. Atingiu 11 veículos, nove deles incendiados. Foram cerca de 44 mil litros de etanol derramados às margens da rodovia.
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Por que uns falam em 52 anos de prisão e outros em 54?
As duas parcelas não têm o mesmo peso na lei. Só a reclusão admite começar em regime fechado: o artigo 33 do Código Penal reserva à detenção o semiaberto ou o aberto, salvo necessidade de transferência.
Os 16 crimes também fecham com a denúncia descrita pelo g1: seis homicídios, três lesões graves e sete leves (a soma é nossa).
Essa soma ajuda a ler outra diferença, a dos feridos. A nota da sentença fala em 10, o mesmo total das lesões da denúncia. A nota do MPPR de 21 de outubro citava 14, número repetido por TVCI, CBN e Tribuna do Paraná.
Quão acima do limite estava o caminhão-tanque na Serra do Mar?
O teto para veículos pesados naquele trecho da BR-277 era de 60 km/h, segundo o g1. A comparação com os laudos parece simples, mas a segunda coluna da tabela conta só metade da história.
As duas colunas de multiplicação são conta nossa. Para a mesma massa, a energia cresce com o quadrado da velocidade. Assim, pouco mais que o dobro do limite significa quase cinco vezes mais energia para dissipar: 2,2 ao quadrado dá 4,84.
Em tempo de reação a diferença também aparece. A 132 km/h, um veículo percorre quase 37 metros a cada segundo. A 60 km/h, menos de 17.
A massa do caminhão-tanque entrou na discussão por outro lado. O Ministério Público também alegou excesso de peso, registrou a TVCI ao relatar o júri.
O que a acusação e as defesas disseram ao júri?
Jurado vota em sigilo e não escreve justificativa, então ninguém sabe qual argumento separou os dois réus. O MPPR descreve o resultado como acolhimento parcial das teses dele. O resto é o que cada lado sustentou em plenário.
A acusação disse que os dois assumiram o risco de provocar as mortes e os ferimentos. Pela denúncia descrita pelo g1, o caminhão-tanque tinha problema nos freios, o motorista avisou o supervisor e a viagem foi mantida.
A Tribuna do Paraná lembra depoimentos da época, exibidos pela RPC, em que o motorista relatou saber dos problemas de freio e disse que luzes de frenagem acenderam na véspera.
A defesa dele chamou o caso de “lamentável e imponderável fatalidade” causada por falha mecânica, em nota à Tribuna. Também negou o dolo eventual, o nome técnico para assumir o risco de matar.
Já a defesa do supervisor sustentou que ele não sabia de irregularidade e seguia os protocolos, conforme a TVCI. O advogado Márcio Dal Piva classificou a absolvição como “acertada e justa”, disse ao g1.
O que a defesa quer mudar no recurso?
O advogado Ricardo dos Santos, que defende o motorista, afirmou ao g1 que a pena é “desconexa” e chamou o julgamento de “justiçamento”. Ele promete levar a decisão do júri às instâncias superiores.
São dois pedidos com efeito enorme na conta. O primeiro é trocar o crime doloso pelo culposo de trânsito. O artigo 302 do Código de Trânsito prevê, na forma simples, detenção de dois a quatro anos por homicídio culposo ao volante.
O segundo é a tese de que houve uma única conduta. Para a defesa, segundo a TVCI, a sentença multiplicou as penas por vítima.
E a ação pelos 44 mil litros de etanol no solo e na água?
Corre em separado e ficou fora da pena dada pelo júri. O MPPR denunciou a empresa responsável pelo caminhão-tanque, o motorista e o supervisor por crimes ambientais. O derramamento atingiu uma área de preservação permanente e contaminou água e solo.
Nesse processo, o motorista recebeu um ano de detenção e 20 dias-multa, em regime aberto. A detenção foi trocada por pena restritiva de direitos. O supervisor foi absolvido por insuficiência de provas. Ainda há recursos pendentes de julgamento, informa a nota do MPPR.
O que mudou na descida da Serra do Mar depois de 2016?
A mudança mais visível é uma rampa de fuga. Em dezembro de 2018, a então concessionária Ecovia inaugurou uma área de escape na descida da BR-277, com quase R$ 3 milhões e oito meses de obra. O piso de argila expandida segura o veículo que perde o freio.
A quilometragem muda de um registro para outro: km 37,9 na inauguração, km 36 nos relatos de 2024 e km 36+800 no mais recente. A TVCI situa a colisão de 2016 no km 33.
Para quem desce rumo a Paranaguá, a contagem diminui, então a área de escape vem cerca de 3 km antes daquele ponto (conta nossa). Não há como afirmar se uma rampa assim teria mudado o desfecho daquele domingo.
Quantas vezes a área de escape já segurou um veículo sem freio?
A atual concessionária, EPR Litoral Pioneiro, diz que a estrutura já preservou mais de 116 vidas, informou a TVCI em julho de 2026. O número é da empresa, que prevê uma segunda área no km 46.
O ano de 2024 mostra o tamanho do problema. Até o começo de setembro, ela já havia sido acionada oito vezes, segundo o Diário do Transporte. O dado saiu no relato de um ônibus com falha nos freios.
O primeiro caso da lista é o que mais lembra 2016: uma carga de combustível do mesmo porte, 45 mil litros contra 44 mil, na mesma descida da Serra do Mar, relatou o Bem Paraná.
A concessionária também oferece a motoristas um simulador 4D de caminhão sem freio, noticiado nesta semana, com cerca de 2 minutos de duração. No cenário virtual da BR-277, a velocidade passa de 130 km/h e a saída é a área de escape. É a mesma faixa que os laudos de 2016 atribuíram ao caminhão-tanque. Na fala do gerente de Operações, Paulo Linck, o recado é manutenção preventiva. Freio, dez anos depois, segue no centro do processo.
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BR-277
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

