Por trás da formalidade das sustentações orais nos tribunais superiores, uma inquietação crescente deu origem a um projeto que promete transformar a advocacia criminal no Brasil. Em um momento em que o colapso estrutural da Justiça se manifesta em números alarmantes, surge a Inova by Tigre, um método que une tecnologia, tradição jurídica e estratégia artesanal.
A iniciativa foi idealizada por Diego Cavalcante, desenvolvida pelo advogado criminalista Marcelo Tigre e conta com a supervisão acadêmica do jurista César Caputo.
A proposta nasceu de uma constatação prática: muitas boas teses jurídicas estão sendo rejeitadas nos tribunais superiores por falhas processuais ou por não atenderem requisitos mínimos de admissibilidade.
Atualmente, só o STJ recebe cerca de 500 mil processos por ano, julgados por apenas 33 ministros. Segundo Diego, muitos processos chegam ao STJ ou ao STF sem que tenham sequer o necessário debate jurídico nas instâncias ordinárias.
“Faltam elementos básicos, há denúncias ineptas e erros na construção das teses. Tudo isso compromete o sistema e impede que os casos realmente relevantes tenham a atenção devida”, afirma o fundador da plataforma.
Marcelo Tigre reforça esse diagnóstico com base na experiência direta: já participou de mais de 600 defesas orais e conduziu mais de 100 júris.
“A oralidade é o método mais eficaz para amplificar a interação do Judiciário com a sociedade”, argumenta. Para ele, a figura do chamado “Advogado Ampliado” surge justamente da combinação entre técnica jurídica, estratégia e dados tratados com inteligência artificial.
Não é um software. É um método
A Inova não é um sistema de petições automáticas nem uma ferramenta de consulta jurisprudencial. Trata-se de uma metodologia proprietária que atua em 10 etapas estratégicas, da triagem inicial da ação penal até a checagem final da tese jurídica.
Inspirado na teoria dos jogos aplicada ao processo penal, o método antecipa movimentos da acusação, mapeia padrões decisórios e propõe estratégias viáveis com base em dados reais.
“A inteligência artificial, sozinha, não redige petições nem compreende a complexidade de cada caso”, explica Tigre.
Segundo ele, a proposta é usar a tecnologia para empilhar dados, identificar padrões e condensar precedentes, sempre em diálogo com o olhar artesanal do advogado especialista. “Cada etapa é calibrada para maximizar a eficácia da defesa, com base em precedentes e fundamentos sólidos”, resume.
A equipe da Inova começou catalogando milhares de votos proferidos por ministros e organizando-os por temas, expressões recorrentes e critérios objetivos. Com isso, construíram parâmetros de julgamento que permitem aos advogados avaliar a viabilidade das teses antes de baterem às portas dos tribunais superiores.
Mentoria e atuação de ponta a ponta
A partir dessa base, foi estruturada uma mentoria jurídica especializada voltada a advogados, escritórios e departamentos jurídicos de todo o país.
A proposta é atuar em toda a linha do tempo processual, desde a fase de admissibilidade da denúncia até o recurso final. O foco, explica Tigre, é oferecer clareza estratégica para que os profissionais saibam quando é possível seguir com uma tese e quando é necessário recuar.
“Muitos nos procuram já com o processo no STJ ou STF. Mas, em muitos casos, identificamos vícios desde a origem. Nesses casos, orientamos que voltem à instância ordinária, reconstruam a tese e ingressem novamente com base sólida”, conta o criminalista.
Segundo ele, esse movimento não é retrocesso, mas estratégia: “É reconstrução com foco em resultado real”.
A iniciativa também atua na orientação de departamentos jurídicos e mira parcerias com defensorias públicas. Parte da metodologia será disponibilizada gratuitamente para essas instituições, com o objetivo de democratizar o acesso à defesa técnica qualificada.
Para os idealizadores, a convivência entre a tradição artesanal e a inteligência artificial não é mais uma possibilidade: é uma urgência.
Base teórica, compromisso ético e expansão seletiva
Com a curadoria acadêmica de César Caputo, a metodologia respeita os princípios do direito processual penal, integra a investigação defensiva como ferramenta de paridade de armas — conforme previsto no provimento 188/2018 da OAB — e propõe um modelo de expansão seletiva.
Por essa razão, os escritórios e profissionais interessados passarão por uma triagem para poder ter acesso exclusivo à mentoria e ao selo “Inova by Tigre”.
A empresa divide a estrutura em dois núcleos. O primeiro é voltado para compliance e prevenção de litígios empresariais. O segundo foca no contencioso estratégico penal, com atuação direta em teses de alta complexidade e recursos extraordinários.
“Nosso maior desafio técnico”, explica Tigre, “é romper com a confusão entre as etapas da prova no processo penal. O que não pode ser admitido, não será valorado. E enquanto isso não for compreendido de forma ampla, seguiremos vendo injustiças sendo produzidas por falhas técnicas básicas”.
Embora o mercado já conte com plataformas automatizadas, a Inova se diferencia por organizar raciocínios, interpretar dados e identificar oportunidades jurídicas antes invisíveis, mesmo em casos com recursos fadados ao indeferimento.
Em vez de seguir com uma tese inviável, o método orienta a substituí-la por outra mais sólida, com base no processo de origem, sempre com olhar humano durante todo o processo.
“O que entregamos é clareza”, resume Diego Cavalcante. Para ele, elevar o nível técnico da atuação nos tribunais superiores é uma forma concreta de contribuir para um sistema de justiça mais justo, eficiente e respeitoso com o tempo, do Judiciário, dos advogados e dos cidadãos.
Inova by Tigre
* Produção do conteúdo: Mateus Pires @matpires10 / Fotos: Rafael Freitas @flary.films / Reportagem: Luísa Ágnes @luuagnes