MAIS

    Quem semeia vento colhe… (por Eduardo Fernandez Silva)

    Por

    Todos sabemos, alertados em 1961 pelo general Eisenhower, que devemos temer a influência do complexo industrial-militar na definição de políticas públicas. Raros, porém, são familiares com outro discurso do mesmo estrategista, pronunciado pouco após a morte de Stalin, inicialmente intitulado “Uma chance para a paz”. Nele, disse o comandante aliado na II Guerra Mundial: “Toda arma que é produzida, todo navio de guerra lançado, cada foguete disparado significa, ao fim, roubar daqueles que têm fome e não são alimentados, daqueles que sentem frio e não são abrigados. Este mundo em armas não gasta apenas dinheiro. Gasta o suor dos seus trabalhadores, o gênio dos seus cientistas, as esperanças de suas crianças”.

    Apesar desses alertas, Eisenhower permitiu o crescimento do poder daquele complexo. Trinta anos mais tarde, após colapso da União Soviética,  Yeltsin, então presidente da Rússia, buscando uma aproximação com o Ocidente, sugeriu que seu país poderia “se tornar parte de uma comunidade de segurança euro-atlântica”. Dois anos mais ele enviou carta à OTAN afirmando que a Rússia se via como potencialmente parte desta, transformada de uma aliança militar numa organização política mais ampla. Seu sucessor, Putin, em 2000, disse à BBC: “A Rússia faz parte da cultura europeia. […] não vejo por que não poderíamos considerar uma aproximação, até mesmo a adesão [à OTAN]”. Claramente, em linguagem diplomática, tais declarações são sondagens para avaliar as chances de casamento.

    Imaginem, agora, o pavor que certamente se instalou nos corredores dos dirigentes do complexo industrial-militar: “sem inimigos, como vamos continuar a roubar daqueles que têm fome e frio para lucrar fazendo armas?”

    Aquelas aproximações foram rechaçadas por Clinton, Bush e Obama. Teriam estes presidentes tido força, e vontade, para enfrentar o poderoso lobby da morte? Alguns dirigentes europeus ensaiaram dialogar com os russos, mas não aprofundaram essas conversas. Medo de quê? Medo de dar esperança às crianças, ou de perder apoio financeiro para suas campanhas políticas?

    Após rejeitarem as aproximações russas, os dirigentes do Ocidente, muitos dos quais com carreiras dependentes dos financiamentos do complexo industrial-militar, promoveram a expansão da OTAN para o leste e o norte, literalmente construindo um cerco à Rússia. Os dirigentes desta, seguidas vezes, conforme o general francês Didier Tauzin, manifestaram-se solicitando a interrupção desse movimento. Tiveram como resposta a continuidade dessa expansão.

    Apesar desse breve histórico, os dirigentes ocidentais conseguiram, no interior de suas amplas fronteiras, demonizar o Putin e fazer a maioria crer que os russos é que são belicosos. Claro, Putin de fato gerou uma tempestade ao invadir a Ucrânia, então quase certamente prestes a ingressar na OTAN.

    Sim, tempestade no planeta, consequência dos ventos semeados por aqueles que se recusaram a atender aos apelos por aplacar diferenças, construir alianças e parar de roubar de quem tem fome e frio, assim como as esperanças das crianças.

     

    Eduardo Fernandez Silva. Ex-Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados