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Auxiliar de serviços gerais que só tinha até a quarta série e limpava um centro de educação infantil em São José, na Grande Florianópolis, fez o EJA, emendou a faculdade de Pedagogia e, no último semestre, já dava aula na mesma instituição onde entrou como faxineira
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 30/07/2026 às 17:45
Atualizado 30/07/2026 às 17:52
Curiosidades
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Roseli Kusster tinha até a quarta série quando chegou a Florianópolis aos 32 anos. Trabalhou como doméstica, foi parar na limpeza de um centro de educação infantil em São José, fez o EJA e emendou a faculdade de Pedagogia. Voltou à mesma unidade, agora contratada pela rede municipal de ensino.
Aos 45 anos, no último semestre da faculdade de Pedagogia, Roseli Kusster trabalhava dentro do mesmo prédio onde tinha passado pano no chão. A história foi contada em reportagem de Caroline Borges publicada pela NSC em 14 de outubro de 2022, com fotos de Tiago Ghizoni, na véspera do Dia do Professor. Ela havia entrado no Centro de Educação Infantil Los Angeles, em São José, na Grande Florianópolis, como auxiliar de serviços gerais de uma empresa terceirizada.
O trecho decisivo do relato dela é curto: “Sair como auxiliar de serviços gerais e voltar como professora é uma vitória”. Entre uma coisa e outra houve a saída de uma cidade de 2,8 mil habitantes aos 32 anos, o fim de um relacionamento que durava desde os 16, um período como doméstica na capital e a descoberta de que dava para retomar os estudos interrompidos na quarta série.
Da quarta série a Florianópolis
Roseli é natural de Rancho Queimado, município da Serra catarinense com pouco menos de três mil moradores. Saiu de lá aos 32 anos, depois de encerrar um relacionamento que mantinha desde a adolescência, e chegou à capital carregando uma escolaridade que parava no ensino fundamental incompleto. Trabalhou primeiro como empregada doméstica.
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Depois veio o emprego na limpeza de uma escola de São José. Foi ali, circulando pelos corredores com o material de trabalho na mão, que ela começou a olhar de perto o que acontecia dentro das salas. A frase que ela repete sobre esse período é direta: a educação mudou a vida dela e tudo ao redor. Segundo o relato dela à reportagem, foi esse contato diário que fez a ideia de estudar de novo deixar de parecer impossível.
O EJA e o Encceja destravaram o caminho até a faculdade
O primeiro passo veio de uma colega da própria escola, que ajudou Roseli a se matricular na Educação de Jovens e Adultos. O EJA é a modalidade pensada exatamente para quem ficou fora da escola na idade regular e precisa recuperar etapas inteiras da formação básica.
Ela concluiu o ensino médio pelo Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos, o Encceja, prova aplicada pelo governo federal que certifica quem domina o conteúdo mesmo sem ter cursado as séries formalmente. Com o certificado na mão, emendou a faculdade sem intervalo. Entre não ter concluído o ensino fundamental e estar matriculada em Pedagogia, o caminho passou por uma indicação de colega, uma matrícula no EJA e uma prova de certificação. É um roteiro que existe na lei brasileira e que muita gente na mesma situação desconhece.
A saída e a volta ao mesmo prédio
Em fevereiro de 2022, Roseli pediu demissão da empresa terceirizada responsável pela limpeza das unidades escolares do município e deixou o CEI Los Angeles. O motivo era um estágio em uma escola particular, exigência da própria faculdade e passo natural de quem está fechando o curso.
O retorno aconteceu cerca de três meses depois, em maio, e não por convite ou favor. Ela passou pelo processo seletivo da rede municipal para contratação de professores em caráter temporário, o modelo conhecido como ACT, que envolve inscrição, classificação e chamada. Voltou ao mesmo endereço de onde havia saído três meses antes, com outro vínculo, outro cargo e outra função. Entre as colegas, continuou sendo chamada de Rose.
O trabalho com educação especial
Na volta, Roseli passou a atuar como auxiliar de sala, responsável por dois alunos, na área de educação especial. A escolha não estava no plano original. Uma colega comentou que ela tinha perfil para esse tipo de trabalho, e ela seguiu a sugestão.
Existe uma camada pessoal nessa decisão que a reportagem registra: Roseli é mãe de um menino de 10 anos com diagnóstico de autismo. A convivência com a deficiência dentro de casa e o trabalho com inclusão dentro da escola passaram a caminhar juntos. É importante marcar a diferença de função aqui, porque ela costuma se perder no resumo da história: o cargo ocupado no retorno era o de auxiliar de sala em educação especial, ainda que a contratação tenha vindo pelo processo seletivo de professores e que ela mesma descreva o movimento como voltar na condição de professora.
A escola já era um lugar querido muito antes
O interesse pela sala de aula não nasceu na faculdade nem no emprego de limpeza. Roseli conta que amava a escola desde criança e que era apaixonada pela professora da quarta série, a última que chegou a cursar antes da interrupção.
A memória que ela guarda é sensorial e específica: o cheiro daquela sala, o giz riscando o quadro, a borracha. Um lugar especial, nas palavras dela. Chama atenção que o ponto onde a escolaridade parou, a quarta série, seja também o ponto mais vivo da lembrança. A retomada dos estudos, décadas depois, funcionou menos como descoberta e mais como retorno a um lugar de onde ela tinha sido tirada cedo demais.
A reportagem saiu na véspera de uma data com origem catarinense
O relato foi publicado em 14 de outubro de 2022, um dia antes do Dia do Professor. A data tem uma origem que envolve diretamente Santa Catarina e que costuma ser esquecida no país inteiro. Quem a criou foi Antonieta de Barros, professora, jornalista e a primeira mulher negra eleita para um parlamento no Brasil, escolhida deputada estadual em Santa Catarina em 1934.
Foi ela a autora da Lei nº 145, de 12 de outubro de 1948, que instituiu o Dia do Professor e o feriado escolar no estado. A oficialização nacional só veio quinze anos depois, por decreto assinado pelo presidente João Goulart em outubro de 1963. A escolha do dia 15 remete a 15 de outubro de 1827, quando dom Pedro I assinou o decreto que criou o ensino elementar no Brasil, com diretrizes curriculares e condições de trabalho para os professores. Na justificativa da lei, Antonieta escreveu que ninguém deixa de reconhecer o serviço inestimável do professor.
O que a história conta e o que ela não conta
Vale ser preciso sobre o alcance do relato. Tudo o que está descrito aqui corresponde à situação de Roseli Kusster em outubro de 2022: 45 anos, último semestre da faculdade de Pedagogia, auxiliar de sala em educação especial no CEI Los Angeles por contrato temporário. Não há registro público posterior sobre a conclusão do curso nem sobre a trajetória dela nos anos seguintes.
Também não é uma história de atalho. Foram treze anos entre a chegada a Florianópolis aos 32 e a reportagem aos 45, com trabalho em tempo integral em paralelo aos estudos em praticamente todo o percurso. O que a trajetória mostra é que os instrumentos existem, EJA, Encceja e processo seletivo público, mas que percorrê-los depende de tempo, apoio e resistência. Ela credita boa parte disso às colegas de trabalho e ao companheiro.
E você, conhece alguém que voltou a estudar depois dos 30 e mudou de vida? Conta aqui nos comentários como foi essa história, e diga também se você acha que o EJA e o Encceja são suficientemente divulgados para quem precisa deles.
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educação
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

