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Bryan Johnson, o empresário americano que gasta milhões para tentar não envelhecer, afirmou ter criado um clone de si mesmo em laboratório, mas o chamado ‘Baby Bryan’ não é um ser humano, e sim células do próprio sangue reprogramadas para pesquisa
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 22/07/2026 às 23:37
Atualizado em 22/07/2026 às 23:48
Ciência e Tecnologia
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O empresário Bryan Johnson, de 48 anos, publicou que criou um clone de si mesmo. Geneticistas ouvidos pelo g1 rebatem: o material é um conjunto de células do próprio sangue reprogramadas em laboratório, sem qualquer possibilidade de virar uma pessoa. A técnica por trás disso existe desde 2006.
O empresário americano Bryan Johnson, de 48 anos, afirmou ter criado um clone de si mesmo em laboratório a partir da reprogramação de células do próprio corpo para um estado semelhante ao embrionário. O anúncio foi feito por ele em publicação na rede social X e ganhou repercussão internacional em 22 de julho de 2026. O próprio empresário esclarece que o material não é um bebê nem um organismo completo, e sim um conjunto de células obtidas do seu sangue, batizado por ele de Baby-Bryan.
Onde ele vê um marco, especialistas veem um problema de vocabulário. Dois médicos geneticistas ouvidos pelo g1 afirmam que o termo é incorreto do ponto de vista científico e alimenta alarmismo desnecessário. O que existe na placa de Petri, segundo eles, são células reprogramadas, uma tecnologia real, promissora e já usada em pesquisa, mas que está muito longe de gerar uma cópia de uma pessoa.
O que Bryan Johnson disse ter feito
Pela descrição do próprio empresário, o processo começou com uma coleta de sangue e a extração de células. Em seguida veio a aplicação dos chamados fatores de Yamanaka, um conjunto de proteínas capaz de levar células adultas de volta a um estado parecido com o das células-tronco embrionárias.
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Segundo Johnson, essa reprogramação reinicia as células e faz com que elas passem a ser capazes de dar origem a diferentes tipos celulares, como neurônios, células do músculo cardíaco e da retina. Ele afirma que, por ora, o Baby-Bryan vive em uma placa de Petri.
Na mesma publicação, o empresário listou os usos que imagina para o material no futuro: tornar-se seu próprio doador de sangue, testar terapias, cultivar órgãos para transplante, desenvolver novos tratamentos e injetar células no próprio corpo. Nenhum desses usos foi realizado. São planos, não resultados, e é essa distinção que costuma sumir quando a palavra clone entra na manchete.
Por que os geneticistas dizem que não é um clone
O médico geneticista Paulo Zattar Ribeiro é direto ao rejeitar a palavra. Para ele, o processo se assemelha a apertar um botão de reinício em células adultas dentro do laboratório, levando-as a um estado mais primitivo. Isso, na avaliação dele, não é criar uma cópia de si mesmo.
Ciro Martinhago, médico geneticista e especialista em doenças raras pela Sociedade Brasileira de Genética Médica, explica a diferença de forma prática. Na clonagem propriamente dita, uma célula do indivíduo é usada com um óvulo para gerar um novo ser, que cresce e nasce. Na técnica descrita pelo empresário, as células apenas ganham a capacidade de se transformar em qualquer tecido. Há reprodução de células, não de uma pessoa.
A distinção não é preciosismo de especialista. Ela muda completamente o que o leitor entende ao ver a manchete, e é a razão pela qual a palavra clone aparece entre aspas em boa parte da cobertura séria sobre o caso. Vale registrar ainda que a clonagem reprodutiva humana é proibida nos Estados Unidos e na maior parte dos países, o que por si só descarta a leitura literal do anúncio.
Os fatores de Yamanaka e uma tecnologia com quase duas décadas
A tecnologia que Johnson usou não é novidade de 2026. Ela nasceu em 2006, no Japão, do trabalho de Shinya Yamanaka e Kazutoshi Takahashi, que demonstraram ser possível converter células adultas em células pluripotentes com a introdução de quatro genes específicos, hoje conhecidos como fatores de Yamanaka.
O reconhecimento veio rápido. Yamanaka recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2012, dividido com o britânico John Gurdon, justamente pela descoberta de que células maduras podem ser reprogramadas para se tornar pluripotentes. Desde então, laboratórios do mundo inteiro geram esse tipo de célula rotineiramente para pesquisa.
É essa maturidade que ajuda a colocar o anúncio em perspectiva. O que o empresário descreve é um procedimento estabelecido, feito em centenas de laboratórios, e não um avanço inédito nascido do seu projeto pessoal de longevidade. Chamar o resultado de clone é dar nome de fronteira científica a algo que já virou rotina de bancada.
Os limites que o anúncio não menciona
Zattar avalia que a descrição feita pelo empresário simplifica demais um processo complexo e omite desafios importantes. O primeiro deles é a eficiência. Em geral, apenas 1% a 5% das células são reprogramadas com sucesso, o que já dá a dimensão do quanto o procedimento está longe de ser trivial.
Há também a questão do controle de qualidade. Cada linhagem de células novas precisa ser rigorosamente testada para confirmar pluripotência, estabilidade genética e ausência de mutações, e esses processos são caros e demorados. Some-se a isso a instabilidade genômica: células pluripotentes podem acumular aberrações cromossômicas, mutações e alterações genéticas durante a reprogramação ou o cultivo, o que levanta preocupações concretas de segurança.
Martinhago é ainda mais explícito sobre o risco. Segundo ele, é possível obter essas células sanguíneas pluripotentes, mas muitas delas ainda acabam se tornando tumores, e o controle continua sendo um problema. A escala comercial praticamente não existe, tanto pelo custo elevado quanto pela quantidade de especulação sobre o real potencial dessas células e sobre sua segurança a longo prazo.
Juntando as peças, fica claro por que a palavra clone atrapalha o entendimento. Ela sugere um produto pronto, estável e replicável, quando o que existe é uma linhagem celular que precisa passar por bateria de testes só para provar que é segura o suficiente para continuar sendo estudada. O anúncio descreve o começo de um processo, não o fim dele.
O que já funciona hoje na medicina
Nada disso significa que a linha de pesquisa seja fantasia. Martinhago lembra que tratamentos como o da anemia falciforme e até casos de leucemia utilizam com sucesso células do próprio paciente, embora normalmente envolvam engenharia genética e transplante de medula óssea.
A linha que separa o real do ficcional, na avaliação dele, passa exatamente pelo que se promete. Multiplicar células em laboratório é ciência consolidada. Falar em clone de uma pessoa é outra conversa. O tipo de trabalho descrito pelo empresário é semelhante ao que já se faz e dá certo em laboratório. Restaurar um órgão inteiro para prolongar a vida ou criar uma pessoa igual a você, esse é o território da ficção científica.
Existe ainda um ponto favorável que costuma ser mencionado nesse tipo de pesquisa. Por serem derivadas das células do próprio paciente, essas linhagens teriam menor risco de rejeição pelo organismo em comparação com material de doadores, o que é uma vantagem real em terapia celular.
Os números que dimensionam o estágio atual
Segundo Zattar, até dezembro de 2024 havia 116 ensaios clínicos aprovados no mundo testando produtos derivados de células pluripotentes, com mais de 1.200 pacientes tratados. É um volume respeitável para uma tecnologia que ainda não completou vinte anos.
Só que o número precisa ser lido com o que vem depois dele. Nenhuma terapia baseada nessa técnica é indicada para uso clínico rotineiro até agora. Os resultados preliminares apontam segurança aceitável, mas os dados ainda são muito limitados, e é justamente essa a fronteira entre promessa e prática médica.
Vale traduzir o que significa ensaio clínico aprovado. É pesquisa autorizada, com protocolo, comitê de ética e pacientes voluntários acompanhados de perto, e não tratamento disponível em consultório. Quem lê sobre o clone do empresário e imagina que já dá para encomendar um fígado novo está confundindo etapa de pesquisa com oferta de serviço. As duas coisas estão separadas por anos e por muitas aprovações regulatórias.
O que essa técnica não resolve
Há um limite que nenhuma reprogramação celular contorna. Como as células são do próprio paciente, elas carregam o mesmo material genético dele. Isso significa que a técnica é incapaz de resolver doenças hereditárias, aquelas que estão inscritas no gene da pessoa.
É uma limitação estrutural, e não uma questão de tempo ou de investimento. Multiplicar células que já trazem a alteração genética não elimina a alteração. Para esses casos, o caminho passa por engenharia genética, que é outra tecnologia, com outras regras e outros riscos.
Esse detalhe derruba de vez a leitura mágica do anúncio. Um clone celular do próprio paciente é útil justamente por ser idêntico a ele, o que reduz rejeição, e é limitado exatamente pelo mesmo motivo, porque carrega junto tudo o que o organismo já tinha de problema herdado. Não existe atalho aí.
Quem é Bryan Johnson e por que o anúncio saiu agora
Johnson ficou conhecido por investir milhões de dólares em um projeto pessoal para retardar o envelhecimento, com rotina rígida de exames, dieta e monitoramento de indicadores do corpo. Alguns de seus experimentos anteriores viraram notícia internacional, incluindo uma troca de plasma envolvendo o próprio filho adolescente e o pai, cujo resultado ele mesmo classificou depois como sem benefício detectado.
O contexto do anúncio atual também tem um componente pessoal. O empresário revelou recentemente um diagnóstico de gastrite autoimune e afirmou que descobrir uma doença sem cura abriu para ele uma fronteira de novos caminhos para reparar e fortalecer o corpo, apresentando o Baby-Bryan como o primeiro exemplo disso.
Ele próprio antecipa a reação do público ao anúncio do clone. Na publicação, escreveu que a tecnologia pode assustar algumas pessoas e parecer um futuro distópico, enquanto para outras será vista como o futuro inevitável da saúde. É uma frase que resume bem a mistura de ciência real e narrativa pessoal que marca o caso.
No fim, o que existe é menos espetacular e mais interessante do que a palavra clone sugere. Um empresário com dinheiro e apetite por manchete usou uma técnica premiada com o Nobel em 2012 para reprogramar as próprias células sanguíneas, algo que laboratórios fazem há quase duas décadas. O material não é uma pessoa, não vai virar uma pessoa e ainda não tem uso clínico de rotina em lugar nenhum do mundo. A pesquisa é legítima e o vocabulário é que foi esticado.
E você, acha que anúncios assim ajudam a popularizar a ciência ou atrapalham ao criar expectativa que a medicina não consegue cumprir? Conta nos comentários se você acompanharia um projeto desses ou se prefere distância desse tipo de experimento.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

