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Cientistas propõem gastar R$ 46 bilhões para levar água de volta ao Mar de Aral, recuperar metade do gigante que virou deserto e impedir que seu leito seco libere outras 605 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera
Escrito por Ana Alice
Publicado em 22/07/2026 às 23:36
Ciência e Tecnologia
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Um lago que quase desapareceu da paisagem da Ásia Central voltou ao centro do debate climático após cientistas calcularem quanto carbono ainda permanece escondido sob o antigo leito e como impedir sua liberação.
Um estudo publicado em julho de 2026 na revista Science propõe restaurar parte do mar de Aral para impedir que o antigo leito continue liberando dióxido de carbono na atmosfera.
Liderada por Rafael Marcé, pesquisador do Centro de Estudos Avançados de Blanes, ligado ao Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha, a equipe estima que os sedimentos expostos emitiram 748 milhões de toneladas de CO₂ entre 1960 e 2022.
Os cálculos indicam que outras 605 milhões de toneladas de CO₂ permanecem armazenadas no solo e podem ser liberadas à medida que a matéria orgânica continua se decompondo.
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Para reduzir essas emissões, os autores defendem a recuperação do fluxo de água e a inundação de uma parcela do antigo lago.
A proposta não prevê reconstruir integralmente o mar de Aral, mas restaurar aproximadamente 50% da superfície que existia em 1960.
O cenário exigiria cerca de 8,5 bilhões de euros em melhorias na irrigação e na gestão hídrica da Ásia Central.
Além do custo elevado, qualquer intervenção dependeria da cooperação entre países que compartilham os rios e utilizam a mesma água na agricultura.
Secagem do mar de Aral transformou lago em fonte de carbono
Localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o mar de Aral é, tecnicamente, um lago salgado sem ligação direta com os oceanos.
Até o início da década de 1960, ele ocupava cerca de 68 mil quilômetros quadrados e era considerado o quarto maior lago do planeta.
A retração ganhou velocidade depois que a União Soviética desviou parte das águas dos rios Amu Dária e Syr Dária para sistemas de irrigação, principalmente para plantações de algodão e outras culturas agrícolas.
Com menos água chegando ao lago, a superfície diminuiu, a salinidade aumentou e extensas áreas do fundo ficaram expostas.
Atualmente, aproximadamente 90% da área original está seca, segundo o Instituto Leibniz de Ecologia de Água Doce e Pesca Interior, que participou da pesquisa.
A transformação afetou a pesca, a biodiversidade, a economia local e as condições ambientais das comunidades próximas.
O antigo fundo do lago também passou a formar um deserto salino conhecido como Aralkum.
A nova pesquisa acrescenta outro elemento ao desastre ambiental: o carbono acumulado durante séculos nos sedimentos está sendo devolvido à atmosfera.
Como o fundo seco libera dióxido de carbono
Lagos e áreas úmidas participam do ciclo natural do carbono.
Plantas e algas retiram CO₂ da atmosfera por meio da fotossíntese.
Parte dessa matéria orgânica chega aos rios, é transportada até os lagos e acaba depositada no fundo.
Enquanto permanece coberto por água, o sedimento recebe menos oxigênio.
Essa condição reduz a velocidade com que microrganismos decompõem a matéria orgânica e permite que parte do carbono fique armazenada por longos períodos.
Quando o lago seca, a camada de água que isolava o fundo desaparece.
O oxigênio atmosférico passa a penetrar nos sedimentos, estimulando a atividade dos microrganismos.
Ao degradarem a matéria orgânica, eles convertem parte do carbono em dióxido de carbono, que é liberado no ar.
“Quando a camada de água desaparece, o oxigênio penetra nos sedimentos e desperta as comunidades de microrganismos”, explicou Rafael Marcé ao jornal espanhol El País.
O processo não ocorre apenas no mar de Aral.
Lagos, reservatórios e áreas úmidas que perdem água também podem deixar de armazenar carbono e se transformar em fontes de gases de efeito estufa.
Expedição científica reconstruiu seis décadas de emissões
Como não existiam medições contínuas desde a década de 1960, os pesquisadores precisaram reconstruir o histórico de emissões.
Em 2022, a equipe realizou uma expedição pelo antigo leito do mar de Aral.
Amostras foram recolhidas em pontos que ficaram expostos em épocas diferentes, desde as antigas margens até áreas mais próximas das porções que ainda mantêm água.
Os trechos secos há menos tempo conservavam uma quantidade maior de carbono orgânico.
Nas regiões expostas havia décadas, parte desse material já havia sido degradada.
Essa diferença permitiu aos cientistas estimar quanto carbono foi perdido ao longo do processo de retração.
O estudo calculou a liberação de cerca de 204 milhões de toneladas de carbono, quantidade que corresponde a aproximadamente 748 milhões de toneladas de CO₂ após a conversão entre as duas medidas químicas.
A estimativa equivale, segundo os pesquisadores, à soma aproximada das emissões anuais de Espanha, França e Bélgica.
Reflorestamento não compensa emissões dos sedimentos
Parte das estratégias aplicadas no antigo leito envolve o plantio de vegetação resistente ao ambiente árido, especialmente o saxaul, arbusto adaptado à escassez de água e à elevada salinidade.
Essas plantas ajudam a fixar o solo, reduzir a erosão e limitar o transporte de sal e poeira pelo vento.
Projetos de revegetação continuam em execução no Uzbequistão e no Cazaquistão por causa desses benefícios ambientais e sociais.
Em março de 2025, uma etapa da iniciativa Green Aral Sea, coordenada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, plantou 80 mil mudas de saxaul em 80 hectares do fundo seco.
A organização manteve ações de restauração do solo na região em 2026.
No entanto, o estudo publicado na Science concluiu que a quantidade de CO₂ absorvida pela nova vegetação é pequena quando comparada ao carbono liberado pelos sedimentos.
Isso não significa que o plantio seja inútil para controlar poeira, erosão ou degradação do terreno.
A conclusão se refere especificamente à capacidade de compensar as emissões produzidas pela decomposição da matéria orgânica.
Para os autores, cobrir novamente os sedimentos com água seria a forma mais direta de reduzir o contato com o oxigênio e desacelerar a liberação de CO₂.
Modernização da irrigação poderia recuperar parte do lago
O mar de Aral dependia principalmente dos rios Amu Dária e Syr Dária.
Grande parte dessa água continua sendo retirada antes de chegar ao antigo lago, principalmente para abastecer áreas agrícolas no Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão e em outros países da bacia.
Os pesquisadores basearam o cenário de recuperação em estudos que apontam perdas elevadas nos canais e sistemas de irrigação da região.
Parte da água se perde por infiltrações, evaporação e infraestrutura pouco eficiente.
A modernização envolveria revestimento de canais, controle de vazamentos, tecnologias mais eficientes de irrigação e coordenação do uso dos rios entre os países.
Com um investimento estimado em 8,5 bilhões de euros, essas mudanças poderiam aumentar o volume de água que alcança o mar de Aral e permitir a restauração de cerca de metade de sua superfície de 1960.
A estimativa representa um cenário científico e econômico, e não uma obra aprovada ou financiada.
Também não há um cronograma oficial para a execução de uma intervenção desse porte.
Os próprios autores classificam a recuperação como um desafio técnico, social e político, porque a água destinada ao lago deixaria de ser utilizada em parte das atividades agrícolas atuais.
Créditos de carbono poderiam ajudar a financiar a obra
Para tornar o projeto economicamente possível, o grupo propõe contabilizar como créditos de carbono parte das emissões que deixariam de ocorrer.
Um crédito representa, em geral, uma tonelada de dióxido de carbono equivalente que foi retirada da atmosfera ou deixou de ser emitida por causa de determinada ação.
Empresas e instituições compram esses certificados para compensar parcelas de suas próprias emissões.
O sistema, porém, recebe críticas quando os projetos não demonstram que a redução de carbono ocorreu de maneira real, adicional e duradoura.
No caso do mar de Aral, os pesquisadores defendem que as medições dos sedimentos poderiam fornecer uma base científica para calcular o carbono preservado.
Se todas as 605 milhões de toneladas de CO₂ ainda presentes no leito fossem protegidas, o valor potencial poderia variar entre US$ 3,6 bilhões e US$ 18 bilhões, considerando preços praticados em 2024 no mercado voluntário de carbono.
Já o cenário de recuperação de 50% da área original geraria uma quantidade menor: aproximadamente 323 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em créditos comercializáveis.
As duas estimativas não devem ser confundidas.
O volume de 605 milhões corresponde ao carbono total que ainda poderia ser liberado, enquanto os 323 milhões estão associados ao cenário parcial de restauração calculado pelos autores.
O financiamento também não estaria garantido apenas pela emissão dos certificados.
A aceitação dependeria de auditorias, regras dos mercados de carbono, monitoramento prolongado e comprovação de que a água permaneceria sobre os sedimentos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

