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Concreto que deixa a luz atravessar a parede pode chegar às fachadas brutalistas brasileiras, o bloco leva 95% de cimento e 5% de fibras óticas e conduz claridade por até 20 metros
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 30/07/2026 às 18:12
Atualizado em 30/07/2026 às 18:18
Construção
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O concreto translúcido usa milhares de fibras óticas embutidas na massa para levar luz de um lado da parede ao outro. Criado na Hungria em 2001, o material aparece em fachadas, divisórias e painéis decorativos, mas o custo de importação ainda trava a chegada dele às obras brasileiras.
A ideia soa impossível na primeira leitura: uma parede maciça de concreto que deixa passar luz e revela a silhueta de quem está do outro lado. O material existe, tem nome comercial e vinte e cinco anos de história. Foi criado pelo arquiteto húngaro Áron Losonczi em 2001, registrado sob a marca LiTraCon, abreviação de light transmitting concrete, e listado pela revista TIME entre as invenções mais importantes de 2004.
O princípio é simples de descrever e difícil de executar. A massa recebe milhares de fibras óticas alinhadas em paralelo, que funcionam como canais e conduzem a claridade de uma face à outra do bloco. Reportagem publicada por O Antagonista em 30 de julho de 2026 retomou o tema apontando o interesse do material para fachadas brutalistas. A proporção mais citada na literatura técnica é de cerca de 95% de material cimentício para 5% de fibras.
Como a luz atravessa um bloco maciço
A fibra ótica não ilumina nada por conta própria. Ela transporta a luz que recebe em uma extremidade até a outra ponta, com pouca dispersão pelo caminho. Quando milhares dessas fibras ficam embutidas no concreto e orientadas na mesma direção, cada uma vira um pequeno túnel que atravessa o bloco inteiro.
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O alinhamento é o detalhe que faz tudo funcionar. Como as fibras seguem paralelas, a imagem projetada na face oposta preserva a posição relativa dos pontos de luz. É por isso que aparece a silhueta de um objeto, e não uma mancha luminosa difusa. As fibras usadas têm diâmetros que variam de dois micrômetros a dois milímetros e são distribuídas em camadas dentro da mistura, o que permite que se integrem ao material sem criar vazios.
O que entra na mistura
A base é a mesma de qualquer concreto de alto desempenho: cimento Portland de elevada resistência à compressão, agregados finos com granulometria controlada e água. A diferença está nos dois itens adicionais, as fibras condutoras de luz, que podem ser de vidro ou de polímero transparente, e os aditivos plastificantes, que aumentam a fluidez da mistura.
O papel do plastificante merece atenção. Sem ele, a massa não conseguiria envolver as fibras sem deslocá las nem formar bolhas ao redor delas. A fluidez não é um capricho de fabricação, é o que garante que o feixe ótico chegue inteiro do outro lado. Esse é também o motivo pelo qual o material exige maquinário e mão de obra especializados, algo que pesa diretamente no preço final.
Os números divulgados e o que eles significam
O dado mais repetido é o dos 20 metros. Ele não quer dizer que o bloco ilumine um ambiente a essa distância, e sim que as fibras conseguem transmitir luz atravessando uma espessura de parede de até cerca de vinte metros sem perda relevante de intensidade, segundo o que o fabricante divulga. Na prática, nenhuma parede real tem essa espessura, e o número serve para mostrar que a limitação do sistema não está na profundidade do bloco.
Os outros números pedem leitura crítica. A resistência à compressão anunciada para o bloco com fibras fica na casa dos 70 a 80 megapascals, contra os 30 a 50 megapascals de um concreto convencional, e a densidade permanece próxima de 2.400 quilos por metro cúbico. Isso não significa que o material seja várias vezes mais forte que o concreto comum, comparação que aparece em publicações antigas sem base. Significa que ele é um concreto de alto desempenho ao qual se adicionaram fibras sem prejudicar a resistência. Parte das fontes técnicas em português cita ainda transmissão de cerca de 70% da luz incidente.
Onde o material é de fato usado
Aqui vale corrigir uma impressão comum. Apesar de o bloco manter resistência mecânica compatível com a de um concreto estrutural, as aplicações listadas pelo próprio fabricante são outras: fachadas iluminadas, painéis de vedação, divisórias internas e elementos decorativos de arquitetura de interiores. O primeiro produto de design da empresa foi uma luminária, a Litracube, projetada pelo próprio inventor com blocos LiTraCon, vidro e aço inoxidável.
Existe também uma variação mais recente, o LiTraCon pXL, que substitui as fibras óticas por uma unidade plástica patenteada e permite fabricação industrializada, com custo menor. Nesse modelo, os pontos de luz podem ser posicionados na superfície do painel como pixels em uma tela, o que abre espaço para desenhos e logotipos. É uma solução pensada para escala comercial, não para estrutura de edifício. Uma empresa alemã produz material semelhante, com menos fibras e maior espessura, resistência à compressão de até 90 megapascals e densidade entre 2.100 e 2.300 quilos por metro cúbico, usado principalmente em painéis do tipo sanduíche.
O preço é o obstáculo real
Nenhum entrave técnico segura esse concreto tanto quanto o custo. Em dissertação de mestrado defendida na Universidade de Brasília em 2013, Luz Marina Cadavid Restrepo estimou o valor em torno de 2.600 reais por metro quadrado, atribuindo o peso a três fatores: o preço da fibra ótica, o custo de mão de obra e maquinário especializados e o valor agregado de um produto novo e exclusivo.
Estimativas publicadas em outros anos e outros mercados variam bastante, o que já indica que não existe preço consolidado. O que todas têm em comum é a ordem de grandeza: trata se de um material caro o suficiente para ficar restrito a peças pontuais, painéis específicos e projetos com orçamento folgado. É por isso que ele aparece em monumentos, sedes corporativas e residências de alto padrão, e praticamente em nenhum outro lugar.
O que já se pesquisa no Brasil
O interesse acadêmico brasileiro pelo material não é novo. Além da dissertação da UnB, laboratórios de duas instituições fora do eixo tradicional já trabalharam no desenvolvimento local: o Laboratório de Materiais de Construção da Universidade Estadual Vale do Acaraú, em Sobral, no Ceará, e o Laboratório de Tecnologia da Construção da Univates, em Lajeado, no Rio Grande do Sul.
A produção científica seguiu. Um artigo publicado na Revista de Engenharia e Tecnologia da Universidade Estadual de Ponta Grossa em março de 2021 revisou ensaios com painéis de concreto e fibra ótica polimérica e registrou que a transmissão de luz ocorreu em todos os protótipos testados, com silhuetas visíveis nas faces opostas. A conclusão desses estudos aponta para uso complementar de iluminação em ambientes com boa incidência solar, não para substituição de janelas.
Brutalismo brasileiro e a promessa estética
O encaixe com o brutalismo faz sentido no papel. A arquitetura brutalista se consolidou no Brasil entre as décadas de 1950 e 1970, com o concreto aparente como matéria e como discurso, em obras como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, de Afonso Eduardo Reidy, inaugurado em 1955, e o edifício da FAU USP, projetado por Vilanova Artigas em 1961.
Um bloco que mantém o aspecto cru durante o dia e revela pontos de luz à noite dialoga diretamente com essa linguagem. É importante, porém, separar o que é projeção do que é fato. Não há registro público de uma fachada brutalista brasileira já executada com concreto translúcido, com projeto, endereço e autoria identificáveis. O que existe hoje é pesquisa nacional, importação cara e um debate estético em curso, o mesmo que deu origem ao conceito de eco brutalismo, que propõe atualizar edifícios antigos com vegetação e iluminação natural.
E você, moraria ou trabalharia em um prédio com paredes que deixam passar luz e revelam silhuetas? Acha que isso é avanço em conforto e economia de energia ou perda de privacidade disfarçada de inovação? Conta aqui nos comentários.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

