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Ele cresceu ouvindo os agricultores da região reclamarem de tontura e dor de cabeça depois de aplicar veneno na lavoura, e com dois colegas criou um pulverizador de controle remoto que afasta o trabalhador do agrotóxico, por uma fração do preço de mercado
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 31/07/2026 às 09:05
Ciência e Tecnologia
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Três estudantes de escola pública de Mossoró, no Rio Grande do Norte, desenvolveram um pulverizador automático que custa cerca de R$ 2,5 mil, contra os R$ 50 mil a R$ 1 milhão dos modelos comerciais. O equipamento é operado à distância e passou por três versões em dois anos.
O contato diário com agricultores familiares de Mossoró, no Rio Grande do Norte, foi o ponto de partida de um projeto que resultou em um pulverizador automático de baixo custo, conforme reportagem publicada pelo portal Brasil Escola. O equipamento foi desenvolvido pelos estudantes Andreilson Lima Fonseca Filho, Karla Karoline Pereira Bezerra e Ellen Alcântara de Sousa Ferreira, egressos do Centro Estadual de Educação Profissional Professor Francisco de Assis Pedrosa, sob orientação do professor Tiago Pereira da Cruz.
A proposta ataca um problema concreto: reduzir o contato direto do trabalhador rural com o agrotóxico durante a aplicação na lavoura. O protótipo final ficou em torno de R$ 2,5 mil, enquanto pulverizadores automáticos de mercado custam de R$ 50 mil a R$ 1 milhão, faixa de preço que exclui de saída a agricultura familiar.
A infância que virou pergunta de pesquisa
Crédito da Imagem: Foto – Arquivo Pessoal
A ideia não nasceu em laboratório nem em uma aula de robótica. Andreilson cresceu convivendo com pequenos produtores da região e ouvia com frequência os mesmos relatos depois das aplicações: tontura e dor de cabeça, sintomas que se repetiam a cada rodada de pulverização.
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Esses relatos são o sintoma visível de um problema de saúde ocupacional que costuma ficar sem registro formal. O pulverizador costal, equipamento carregado nas costas com a mangueira operada manualmente, mantém o aplicador dentro da nuvem do produto durante todo o trabalho, sem barreira efetiva entre o corpo e a substância.
A pergunta que os três estudantes levaram para a escola foi direta: se a robótica pode afastar a pessoa do risco, por que ela não chegou até esses agricultores? A resposta apareceu na etapa seguinte do projeto, e tinha menos a ver com tecnologia do que com preço.
Vinte agricultores ouvidos antes da primeira peça
Antes de montar qualquer protótipo, o grupo foi a campo. Os estudantes entrevistaram 20 pequenos produtores da comunidade do Sítio Pau Branco e de outras áreas rurais do município, levantamento que deu base numérica ao que até então era percepção.
Os resultados desenharam o cenário com clareza. Entre os entrevistados, 70% utilizavam agrotóxicos nas plantações. Desse grupo, 93% faziam a aplicação com pulverizadores costais e declararam não ter condições financeiras de comprar equipamentos automáticos.
Esse recorte é o coração do projeto. Não se trata de falta de conhecimento sobre o risco, nem de resistência à tecnologia. Os agricultores sabiam que existia uma alternativa mais segura e ficavam de fora dela por uma questão de preço, o que transformou o desafio técnico em um desafio de custo.
Dois anos, três versões e uma máquina que ficou em pé
Crédito: Arquivo Pessoal.
O desenvolvimento durou dois anos e passou por três versões do equipamento. A base eletrônica foi construída com Arduino, plataforma de prototipagem que permite programar sensores e motores a partir de componentes acessíveis, escolha compatível com o que a escola tinha disponível.
Cada versão corrigiu limitações da anterior. O modelo que se firmou como final ganhou estrutura reforçada, rodas adaptadas a diferentes tipos de solo, reservatório de quatro litros e sistema de comando remoto, que permite ao produtor conduzir a aplicação à distância.
O detalhe das rodas merece atenção porque revela conhecimento do terreno real. Lavoura de agricultura familiar raramente oferece piso regular, e um equipamento que atola ou tomba na primeira irregularidade não serve para nada além de exposição em feira. Fazer o protótipo andar no solo em que ele vai trabalhar é metade do problema resolvido.
O comando remoto que tira o corpo da nuvem
O princípio de funcionamento é simples de descrever e decisivo na prática. Com o sistema de comando à distância, o operador deixa de caminhar dentro da área que está sendo pulverizada e passa a conduzir o equipamento de fora, sem carregar o reservatório nas costas.
Segundo a estudante Ellen, o ganho central é justamente esse: o agricultor deixa de ter contato direto com o agrotóxico, que era a origem da maior parte das intoxicações relatadas. A tontura e a dor de cabeça que motivaram o projeto estão ligadas exatamente a esse contato durante a aplicação.
Vale registrar o limite do que o equipamento resolve. Ele reduz a exposição na etapa de pulverização, que é a mais crítica, mas não elimina o manuseio do produto no preparo da calda nem substitui equipamentos de proteção individual. A tecnologia diminui o risco em um ponto específico da cadeia, e é assim que ela deve ser entendida.
R$ 2,5 mil contra R$ 50 mil: a conta que muda tudo
Crédito: Arquivo Pessoal.
O número mais impactante do projeto é o comparativo de custo. O professor orientador aponta que pulverizadores automáticos disponíveis no mercado variam de R$ 50 mil a R$ 1 milhão, dependendo do porte e da tecnologia embarcada. O protótipo dos estudantes ficou em aproximadamente R$ 2,5 mil.
Mesmo na comparação com o modelo mais barato do mercado, a diferença é de cerca de vinte vezes. Isso desloca o equipamento de uma categoria que exige financiamento agrícola de longo prazo para uma faixa que pode caber em uma compra coletiva de associação, em uma linha de microcrédito rural ou em um programa municipal de apoio à produção.
É importante ser preciso sobre a natureza desse valor: trata se do custo de construção de um protótipo escolar, não do preço de um produto industrializado, com escala de produção, garantia, assistência técnica e certificação. A comparação mostra a ordem de grandeza possível, e não um preço de prateleira.
Da horta da escola de volta para a comunidade
Os testes seguiram uma sequência que começou controlada e terminou próxima do uso real. O protótipo foi avaliado primeiro em laboratório, depois na horta da própria escola e em ambientes semelhantes aos de pequenas plantações.
Terminada essa rodada inicial, os estudantes voltaram a conversar com os agricultores da comunidade para ajustar o equipamento. Foi desse retorno que saiu uma das melhorias mais concretas do projeto: o aumento da capacidade do reservatório, apontado pelos próprios produtores como necessário para aproximar a máquina das condições reais de trabalho.
Esse vaivém entre bancada e lavoura é o que separa um trabalho de feira de ciências de uma solução com chance de uso. Quem aplica defensivo sabe quantos litros a área consome e quantas paradas para reabastecer o serviço aguenta antes de virar perda de tempo. Foi o usuário final que definiu o tamanho do tanque, não o cronograma escolar.
O modelo de ensino por trás do protótipo
O projeto foi desenvolvido durante o ensino médio na modalidade de Educação Profissional Tecnológica em Tempo Integral, formato que organiza a rotina escolar em torno de aprendizagem prática, iniciação científica e protagonismo dos estudantes.
Na execução, o grupo precisou combinar áreas que normalmente aparecem separadas na grade: física, robótica, programação, pesquisa científica e análise de dados. Aplicar esse conjunto a um problema da própria comunidade é o que dá sentido à formação técnica, porque a questão investigada não veio de um enunciado de livro.
O professor orientador descreve uma mudança de comportamento visível na escola. Antes, os docentes precisavam procurar os alunos para propor projetos. Agora são os estudantes que chegam com ideias e pedem orientação para desenvolvê las. Karla, uma das autoras, resume o efeito do contato com os produtores e da participação em feiras: a percepção de que um protótipo criado por eles poderia mudar a vida de muita gente.
Dez feiras científicas e um convite que não pôde ser aceito
Em dois anos, o trabalho circulou por dez feiras científicas em diferentes estados do país, incluindo a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, a Febrace, realizada na Universidade de São Paulo. É um volume de exposição alto para um projeto de escola pública do interior.
O reconhecimento chegou também do exterior. O projeto recebeu credencial para uma mostra internacional em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A participação, porém, não se concretizou por falta de recursos.
Esse desfecho diz muito sobre o funcionamento da iniciação científica no país. A credencial internacional foi conquistada por mérito técnico, e a ausência na mostra foi decidida por logística e dinheiro, dois fatores que não têm relação nenhuma com a qualidade do que foi construído em Mossoró.
Um problema local resolvido por quem convive com ele
O que diferencia esse pulverizador de tantos protótipos apresentados em feiras é a origem da pergunta. Ela não veio de uma tendência tecnológica nem de um tema sugerido em sala: veio da convivência de um dos autores com produtores que voltavam da lavoura passando mal.
O caminho seguido foi o de uma pesquisa aplicada, com entrevista de campo, coleta de dados, prototipagem iterativa, teste em condição próxima da real e retorno ao usuário para ajuste. É o método que se espera de um projeto de engenharia, executado por três estudantes de ensino médio com os materiais que a escola tinha.
E você, acha que esse tipo de tecnologia deveria receber apoio público para chegar às lavouras? Conhece alguém que aplica defensivo com pulverizador costal e sente os efeitos depois? Conta nos comentários o que faria mais diferença na vida dos agricultores da sua região.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

