8 min de leitura
Navio carregado de bombas permanece há 80 anos no Canal da Mancha e, após tentativa de salvamento detonar parte da carga em 1967, gerar abalo de magnitude 4,5 e abrir cratera de 47 metros, continua cercado por incerteza porque o manifesto das munições nunca foi localizado
Escrito por Carla Teles
Publicado em 27/07/2026 às 16:30
Curiosidades
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
O SS Kielce afundou em 1946 perto de Folkestone com bombas e munições, teve parte da carga detonada durante uma operação de salvamento em 1967 e continua no fundo do Canal da Mancha, onde corrosão, sedimentos e a ausência do manifesto impedem calcular o volume de explosivos remanescentes com segurança.
Um navio carregado de bombas permanece no fundo do Canal da Mancha desde 1946, quando o cargueiro SS Kielce colidiu com outra embarcação e afundou perto de Folkestone, no litoral inglês. Parte das munições explodiu durante uma operação de salvamento realizada em 22 de julho de 1967, mas não se sabe quanto material permaneceu espalhado no leito marinho.
As informações foram publicadas pelo Daily Galaxy em 21 de julho de 2026, com base no relatório da Maritime and Coastguard Agency sobre o SS Richard Montgomery, no registro arqueológico e marítimo do SS Kielce mantido pelo Historic England Research Records e no estudo do University College London sobre riscos ligados a naufrágios com munições submersas. Esses documentos registram a explosão, a dispersão dos destroços e a ausência do manifesto de carga, que impede determinar o número, o tipo e o peso total dos explosivos originalmente transportados.
Colisão em 1946 levou o cargueiro ao fundo do mar
O SS Kielce navegava de Southampton para Bremerhaven quando colidiu com o vapor Lombardy em 1946. O cargueiro estava fretado pelas forças armadas dos Estados Unidos e transportava bombas e outras munições destinadas à Alemanha no período posterior à Segunda Guerra Mundial.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O navio afundou a poucos quilômetros de Folkestone, em uma área com aproximadamente 27 metros de profundidade. A tripulação foi resgatada pelo Lombardy, e não houve mortes registradas durante a colisão nem no naufrágio.
Embarcação havia sido construída durante a guerra
O cargueiro foi construído nos Estados Unidos em 1943 com o nome Edgar Wakeman. Tratava-se de um navio a vapor do tipo N3, movido a óleo e desenvolvido para realizar operações de transporte durante a Segunda Guerra Mundial.
Posteriormente, a embarcação foi transferida ao governo polonês no exílio e recebeu o nome Kielce, em referência à cidade polonesa. Antes do naufrágio, o navio participou de comboios costeiros britânicos e de operações no Atlântico.
Manifesto das munições nunca foi encontrado
De acordo com o relatório da Maritime and Coastguard Agency britânica, o SS Kielce transportava uma carga completa de bombas e munições. O mesmo documento informa que nenhum manifesto detalhado foi localizado depois do naufrágio.
Sem esse documento, os investigadores não conseguem estabelecer quantos explosivos estavam a bordo, quais modelos de bombas eram transportados nem o peso total da carga. Essa lacuna documental permanece como a principal fonte de incerteza sobre o risco atual do naufrágio.
Destroço foi identificado durante operação de desobstrução
Inicialmente, o naufrágio foi registrado sem identidade confirmada. O reconhecimento ocorreu posteriormente, durante trabalhos destinados a localizar e remover obstáculos perigosos das rotas utilizadas por embarcações no Canal da Mancha.
Os registros históricos reunidos pelo Historic England Research Records informam que o destroço foi identificado como o SS Kielce e que transportava explosivos, grandes bombas e munições. A documentação também registra advertências aos navegadores e levantamentos posteriores sobre a dispersão dos restos.
Empresa recebeu contrato para limpar a passagem
Em 1966, a Folkestone Salvage Company foi contratada para remover partes do destroço e aumentar a profundidade de água navegável sobre o local. O trabalho envolvia cortar chapas metálicas colapsadas e acessar partes do casco onde as munições estavam escondidas.
A intervenção exigia o uso de cargas explosivas para romper o aço deformado. O objetivo era abrir o casco e dispersar os materiais perigosos, mas o procedimento acabou alcançando parte das bombas armazenadas internamente.
Terceira carga provocou explosão muito maior
Os trabalhadores detonaram duas cargas de corte sem consequências graves. Às 11h59 de 22 de julho de 1967, uma terceira carga acionou parte das munições presentes no SS Kielce.
A explosão danificou chaminés, deslocou telhas e abriu rachaduras em tetos de imóveis em Folkestone. Apesar da intensidade do abalo e dos danos materiais, o relatório oficial não registrou pessoas feridas.
Pessoas próximas viram pouca movimentação na água
Dois funcionários da operação estavam em uma pequena embarcação a cerca de 370 metros do naufrágio no momento da detonação. Eles relataram apenas uma ondulação pequena e um pouco de spray sobre a superfície.
Cálculos posteriores indicaram que a onda marítima não teria ultrapassado aproximadamente 0,6 metro. A maior parte da energia seguiu pelo fundo do mar, e não pela água ou pelo ar, explicando a diferença entre o forte registro sísmico e a movimentação relativamente limitada da superfície.
Abalo foi registrado em diferentes continentes
A detonação foi detectada por pelo menos 25 observatórios sísmicos. Alguns deles estavam localizados a quase 8 mil quilômetros de Folkestone, incluindo estações instaladas na Europa e na América do Norte.
Os analistas atribuíram ao evento magnitude aproximada de 4,5. Esse número representa a energia sísmica registrada pelos instrumentos e não permite calcular diretamente a quantidade de munições que explodiu dentro do navio.
Cratera mudou o fundo do Canal da Mancha
Um levantamento realizado depois da explosão encontrou uma cratera aproximadamente elíptica com 47 metros de comprimento, 20 metros de largura e seis metros de profundidade. As bordas elevadas ficaram vários metros acima do nível normal do leito marinho.
Antes da detonação, o SS Kielce repousava sobre uma camada de sedimentos a aproximadamente 27 metros de profundidade. A explosão fragmentou o casco e alterou permanentemente a configuração daquela parte do Canal da Mancha.
Comparação sugeriu energia equivalente a milhares de toneladas
O relatório oficial comparou as dimensões da cratera com resultados de testes de explosões subaquáticas. O formato seria compatível com uma detonação totalmente confinada equivalente a cerca de 2 mil toneladas de TNT.
Essa comparação não significa que exatamente essa quantidade de explosivos tenha detonado no naufrágio. Como a explosão não estava totalmente confinada, o cálculo indica a energia transferida ao solo e à água, não o peso real da carga acionada.
Destroços foram espalhados por uma grande área
One of the reasons explosives not removed was unfortunate outcome of similar incident in July 1967 to remove ordnance from Polish vessel SS Kielce, sunk in 1946 off Folkstone. Preliminary ordnance removal resulted in an explosion of 4.5 on Richter Scale, fortunately no injuries. pic.twitter.com/ezmgFSwQYS
— Michael Burt (@mikeyb7248_burt) August 23, 2018
Segundo o registro histórico inglês, uma inspeção realizada em 1977 encontrou os destroços espalhados por uma área estimada em 120 por 80 metros. O próprio documento considera a medição pouco confiável, devido à ampla dispersão dos fragmentos.
As próprias medições foram consideradas incertas porque os restos ficaram amplamente distribuídos. Partes metálicas ainda se elevam alguns metros acima do leito marinho e podem estar misturadas a munições não detonadas.
Quantidade de bombas remanescentes continua desconhecida
Parte da carga do navio carregado de bombas certamente explodiu em 1967. Contudo, a falta do manifesto impede comparar o inventário original com o material detonado e com aquilo que talvez continue enterrado.
O casco fragmentado, a corrosão e o acúmulo de sedimentos dificultam qualquer avaliação visual. Não existe hoje uma estimativa segura sobre o número de explosivos restantes nem sobre a posição exata de cada artefato.
Décadas debaixo d’água não eliminam o perigo
Explosivos antigos não se tornam automaticamente inofensivos depois de permanecerem décadas no mar. Os invólucros metálicos podem enferrujar, materiais de proteção podem se deteriorar e as munições podem se deslocar conforme o destroço desaba ou o fundo marinho muda.
Esses processos modificam o estado físico dos artefatos, mas não oferecem um prazo confiável para que possam ser manuseados sem risco. A corrosão pode dificultar a identificação e tornar qualquer nova intervenção ainda mais imprevisível.
Investigar o naufrágio também cria riscos
Uma análise mais próxima poderia revelar quais munições permanecem no local, mas tocar ou remover os destroços pode deslocar explosivos instáveis. O próprio acidente de 1967 demonstrou como uma carga externa destinada a abrir o casco pode alcançar bombas escondidas.
Por isso, o SS Kielce tornou-se um estudo de caso sobre o equilíbrio entre investigação e segurança. Quanto mais o naufrágio se degrada, mais difícil fica conhecê-lo sem introduzir uma nova fonte de perigo.
Caso é comparado a outro navio com munições
O estudo “The Strange Case of the Richard Montgomery: On the Evolution of Intractable Risk”, produzido no University College London, analisa os desafios de avaliar naufrágios carregados de munições e utiliza o caso do Kielce como referência comparativa.
O trabalho ressalta que dados incompletos, estimativas divergentes e alterações físicas nos destroços impedem avaliações totalmente precisas. O Richard Montgomery permanece parcialmente intacto, enquanto o Kielce foi fragmentado pela explosão de 1967, dificultando ainda mais a análise de sua carga remanescente.
Área não possui proteção patrimonial formal
Assista o vídeo
Os registros históricos de Kent não indicam uma designação patrimonial protegida para o local. Mesmo assim, a documentação regional reconhece os destroços como um risco marítimo relacionado à presença de munições.
O SS Kielce já não existe como um cargueiro intacto. O que permanece é uma área de fragmentos, sedimentos e explosivos não contabilizados que ainda limita qualquer tentativa de limpeza completa do leito marinho.
Navio carregado de bombas mantém mistério após oito décadas
O navio carregado de bombas continua cercado por perguntas 80 anos depois do naufrágio e quase seis décadas após a explosão que abriu a cratera. A ausência do manifesto impede saber quanto material foi transportado, quanto explodiu e quanto ainda pode estar enterrado no Canal da Mancha.
A história reúne guerra, engenharia, sismologia e um risco que não pode ser medido com precisão. Na sua avaliação, o local deveria permanecer intocado ou receber uma nova operação de investigação e retirada das munições? Conte nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

