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O que aconteceu com o Hyperloop: o sistema de cápsulas em tubos de baixa pressão popularizado por Elon Musk prometia viajar a quase 1.220 km/h, teve protótipo testado a quase 387 km/h no deserto de Nevada e viu a Hyperloop One fechar após captar mais de US$ 450 milhões para reinventar o transporte terrestre
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 24/07/2026 às 18:48
Ciência e Tecnologia
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Hyperloop prometia cápsulas a quase 1.220 km/h em tubos de baixa pressão, mas Hyperloop One fechou após testes, atrasos e falta de escala comercial.
Em 2013, Elon Musk apresentou uma das ideias mais futuristas do transporte moderno: um sistema de cápsulas viajando dentro de tubos de baixa pressão, com velocidade próxima à de um avião. O projeto ganhou o nome de Hyperloop.
No documento técnico Hyperloop Alpha, publicado pela Tesla, a proposta descrevia cápsulas circulando em tubos de baixa pressão e atingindo até 760 milhas por hora, o equivalente a aproximadamente 1.223 km/h. A conversão é direta: 760 × 1,609344 = 1.223 km/h.
A promessa parecia simples de entender e impossível de ignorar: conectar cidades distantes em minutos, usando cápsulas rápidas, baixa resistência do ar e uma infraestrutura elevada sobre pilares. Mas, mais de uma década depois, a empresa mais conhecida tentando transformar essa visão em sistema comercial, a Hyperloop One, acabou encerrando suas operações.
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Segundo a Bloomberg Law, a Hyperloop One fechou após levantar mais de US$ 450 milhões desde sua fundação em 2014, construir uma pista de testes perto de Las Vegas e tentar desenvolver a tecnologia por anos.
A promessa era criar um quinto modo de transporte
O Hyperloop foi apresentado como algo maior do que um trem rápido. A proposta original descrevia um sistema capaz de transportar passageiros em cápsulas dentro de tubos de baixa pressão, reduzindo a resistência do ar e permitindo velocidades muito superiores às de trens convencionais.
No documento Hyperloop Alpha, a cápsula de passageiros era projetada para viajar a até 760 mph, ou cerca de 1.220 km/h, valor próximo à velocidade do som em condições atmosféricas padrão.
A ideia era competir com avião em rotas médias e com trem de alta velocidade em corredores terrestres. Em vez de usar trilhos expostos, o sistema dependeria de tubos fechados.
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Em vez de enfrentar o ar como um trem comum, a cápsula circularia em um ambiente de baixa pressão, com muito menos arrasto aerodinâmico.
Essa era a essência técnica do Hyperloop: reduzir drasticamente o atrito e a resistência do ar para permitir velocidades extremas em terra.
O conceito parecia revolucionário no papel
O Hyperloop Alpha descrevia uma rota conceitual entre Los Angeles e San Francisco.
A proposta indicava que a viagem poderia ser feita em cerca de 35 minutos, tempo muito inferior ao deslocamento rodoviário e competitivo com o avião quando se considera embarque, deslocamento até aeroportos e espera.
O sistema imaginado usaria cápsulas menores que trens tradicionais, com circulação frequente, tubos elevados e infraestrutura mais leve do que uma ferrovia de alta velocidade convencional.
O documento também propunha o uso de painéis solares sobre os tubos como parte da estratégia energética do sistema. Era uma visão sedutora.
Pouco terreno ocupado, velocidade altíssima, operação elétrica, cápsulas automatizadas e promessa de custo menor do que grandes projetos ferroviários.
Mas o salto entre conceito e obra pública real se mostrou muito maior do que a apresentação inicial sugeria.
Hyperloop One virou a grande vitrine da tecnologia
Depois da publicação do conceito, várias empresas tentaram levar o Hyperloop para a prática. A mais famosa foi a Hyperloop One, posteriormente chamada de Virgin Hyperloop One após investimento associado ao grupo Virgin, de Richard Branson.
A empresa construiu o DevLoop, uma pista de testes no deserto de Nevada, perto de Las Vegas.
Segundo a TechCrunch, o DevLoop tinha cerca de 500 metros e foi construído para demonstrar aspectos do sistema em escala real, servindo como prova de conceito para futuras instalações comerciais.
A estrutura era importante porque tirava o Hyperloop do campo das simulações e levava a tecnologia para um ambiente físico. Ali, a empresa poderia testar tubo, cápsula, vácuo parcial, propulsão, levitação magnética, controle e segurança.
O teste mais chamativo chegou a 386 km/h
Em dezembro de 2017, a Virgin Hyperloop One anunciou um dos marcos mais conhecidos do projeto. Segundo a Wired, a cápsula da empresa atingiu 240 milhas por hora no DevLoop, no deserto de Nevada. Convertendo para o sistema usado no Brasil, isso equivale a cerca de 386 km/h. A conta é: 240 × 1,609344 = 386,24 km/h.
O teste foi realizado em um tubo de concreto de 1.600 pés, ou cerca de 488 metros, com uma cápsula de 28 pés, aproximadamente 8,5 metros. A Wired também informou que o sistema usava ambiente quase sem ar e levitação magnética para reduzir resistência e atrito.
O número impressionava. A cápsula era muito mais rápida do que um trem comum. Mas ainda estava distante da promessa original de quase 1.220 km/h.
O teste mostrava avanço técnico, mas também revelava a distância entre uma pista curta de demonstração e uma linha comercial de centenas de quilômetros.
Primeiro teste com passageiros foi simbólico, mas limitado
Em 2020, a Virgin Hyperloop realizou outro marco: o primeiro teste com passageiros.
Segundo comunicado da própria empresa publicado pela GlobeNewswire, Josh Giegel, cofundador e diretor de tecnologia, e Sara Luchian, diretora de experiência de passageiros, viajaram em uma cápsula no DevLoop, em Nevada.
O teste ocorreu em uma pista de 500 metros, depois de mais de 400 testes sem ocupantes.
A demonstração foi histórica do ponto de vista simbólico. Pela primeira vez, pessoas entravam em uma cápsula Hyperloop em operação real.
Mas, tecnicamente, o teste estava longe da visão original de transporte interurbano ultrarrápido. A VOA News, citando informações da empresa, informou que os ocupantes chegaram a 107 milhas por hora, cerca de 172 km/h, no DevLoop.
Ou seja, o Hyperloop conseguiu transportar pessoas em teste, mas ainda não demonstrava em escala comercial a velocidade prometida no conceito original.
O salto difícil era sair do teste e virar infraestrutura pública
O grande problema do Hyperloop nunca foi apenas fazer uma cápsula se mover dentro de um tubo. O desafio real era transformar isso em um sistema de transporte público ou logístico em escala.
Para funcionar comercialmente, seria necessário construir centenas de quilômetros de tubos alinhados com precisão, manter baixa pressão ao longo de toda a rota, garantir segurança em evacuações, lidar com dilatação térmica, cruzar áreas urbanas, obter licenças, desapropriar terrenos, integrar estações e provar viabilidade econômica.
A pista de Nevada tinha centenas de metros. Uma rota comercial teria dezenas ou centenas de quilômetros.
Essa diferença muda tudo. Manter um tubo experimental controlado no deserto é uma coisa.
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Operar um corredor de transporte real, com manutenção, passageiros, emergência, clima, terremotos, falhas elétricas e regulação pública, é outra completamente diferente.
A promessa de velocidade esbarrava em segurança e conforto
Viajar a mais de 1.000 km/h em terra não é apenas uma questão de motor. Também envolve curvas, frenagem, vibração, pressão, evacuação e resposta a falhas.
Quanto maior a velocidade, maiores os raios de curva necessários para manter conforto e segurança.
O próprio documento Hyperloop Alpha tratava de limites de aceleração lateral e do traçado necessário para evitar desconforto aos passageiros.
Em um sistema real, isso significa que a rota não pode simplesmente seguir qualquer estrada, ferrovia ou corredor urbano já existente.
Curvas fechadas, mudanças bruscas de altitude e passagens por áreas densas criam limitações. Esse é um dos motivos pelos quais a promessa de “velocidade de avião no solo” é tão difícil: a cápsula pode até ser rápida, mas a infraestrutura precisa permitir essa velocidade com segurança.
A empresa mudou o foco para carga antes de fechar
Outro sinal de dificuldade apareceu quando a empresa deixou de priorizar passageiros. Segundo a Bloomberg Law, a Virgin retirou sua marca depois que a startup decidiu focar em carga em vez de pessoas.
A mesma reportagem informa que a Hyperloop One construiu uma pequena pista de testes perto de Las Vegas, mas acabou encerrando as operações.
Essa mudança foi relevante. Transportar carga é, em tese, menos complexo do que transportar passageiros.
Cargas não precisam do mesmo nível de conforto, evacuação, experiência interna, sensação de segurança ou aceitação pública. Mesmo assim, nem essa mudança levou a empresa a uma operação comercial de grande escala.
O fechamento mostrou que o obstáculo era estrutural: custo, infraestrutura, contratos, engenharia, regulação e modelo de negócio.
Mais de US$ 450 milhões não bastaram
A Hyperloop One levantou mais de US$ 450 milhões desde 2014, segundo a Bloomberg Law com base em dados da PitchBook.
Esse número mostra que o projeto não fracassou por falta total de atenção ou dinheiro. Houve capital, mídia, investidores, testes, protótipos e ambição. O problema foi converter tudo isso em uma solução comercial. No transporte, a prova de conceito não basta.
É preciso demonstrar custo por quilômetro, confiabilidade, licenciamento, manutenção, segurança, capacidade de passageiros ou carga, integração com cidades e retorno econômico.
Foi nesse ponto que o Hyperloop encontrou a parte mais dura da realidade.
O Hyperloop não morreu como ideia, mas perdeu sua maior vitrine
É importante separar duas coisas. O conceito de Hyperloop ainda é estudado, testado e defendido por grupos menores, universidades e empresas em diferentes países.
Mas a Hyperloop One era a principal vitrine privada da tecnologia. Quando essa empresa fechou, a promessa perdeu seu nome mais conhecido e um dos principais símbolos de viabilidade.
A Bloomberg Law informou que a empresa estava encerrando atividades, vendendo ativos e dispensando funcionários. Isso não significa que todo experimento com cápsulas em tubos acabou.
Mas significa que a tentativa mais famosa de transformar o Hyperloop em negócio global não conseguiu chegar ao destino prometido.
Por que o projeto virou um alerta para tecnologias futuristas
O Hyperloop virou um caso emblemático porque reunia tudo que costuma gerar fascínio público: velocidade extrema, design futurista, promessa de energia limpa, viagens em minutos e um nome ligado a Elon Musk.
Mas transporte não é apenas tecnologia.
- É infraestrutura pesada.
- É obra civil.
- É legislação.
- É segurança pública.
- É financiamento de longo prazo.
- É manutenção por décadas.
- É aceitação social.
Uma cápsula rápida em um tubo curto prova que parte da física funciona. Mas não prova que o sistema inteiro será barato, seguro, confortável, financiável e replicável entre cidades reais. Essa diferença explica por que tantos projetos futuristas chegam ao protótipo, mas não chegam à escala.
O que aconteceu com o Hyperloop
O Hyperloop nasceu como uma promessa de transporte terrestre quase tão rápido quanto um avião. No papel, o conceito apontava cápsulas em tubos de baixa pressão viajando a até 760 mph, aproximadamente 1.223 km/h.
Na prática, a Hyperloop One chegou a construir o DevLoop no deserto de Nevada, realizou testes sem passageiros, atingiu 240 mph, cerca de 386 km/h, e fez o primeiro teste com ocupantes em 2020.
Mas o projeto não avançou para uma linha comercial de transporte terrestre em escala. Depois de anos de promessa, mudança de foco e mais de US$ 450 milhões levantados, a Hyperloop One fechou.
No fim, o Hyperloop mostrou que a distância entre uma ideia brilhante e uma infraestrutura real pode ser maior do que a própria rota que ele prometia encurtar. A cápsula até correu no tubo. Mas a revolução do transporte terrestre nunca saiu da pista de testes.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

