8 min de leitura
Nova tecnologia usa tintas, vidros, géis e revestimentos inteligentes para resfriar prédios sem eletricidade, refletir até 97% da energia solar e reduzir superfícies em até 7 °C, enquanto cientistas buscam frear o avanço do ar-condicionado, que já consome quase 10% da eletricidade mundial e aquece ainda mais as cidades
Escrito por Carla Teles
Publicado em 24/07/2026 às 18:57
Ciência e Tecnologia
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
O resfriamento de prédios pode ganhar uma nova geração de soluções passivas capazes de controlar o calor sem consumo contínuo de eletricidade. Tintas, vidros, hidrogéis e revestimentos especiais refletem a radiação solar, liberam calor para o ambiente externo e podem diminuir a temperatura de superfícies expostas em vários graus.
O resfriamento de prédios está entrando em uma nova etapa com o desenvolvimento de materiais capazes de reduzir o calor sem depender de equipamentos elétricos funcionando durante todo o dia. Tintas especiais, vidros, géis e revestimentos inteligentes podem refletir a energia solar, controlar a entrada de calor e diminuir a temperatura de telhados e fachadas.
Essas tecnologias surgem em um momento de aumento das ondas de calor e de forte expansão do uso de ar-condicionado. O resfriamento de edifícios já representa quase 10% do consumo mundial de eletricidade, enquanto a energia necessária para essa finalidade pode crescer 210% até 2050 em comparação com os níveis de 2024.
Resfriamento de prédios já consome quase 10% da eletricidade mundial
A climatização tornou-se essencial em residências, escritórios, hospitais, escolas e espaços comerciais. O problema é que os sistemas convencionais exigem grandes quantidades de energia para retirar o calor dos ambientes internos.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O resfriamento de prédios já responde por quase 10% de toda a eletricidade consumida no mundo. Com temperaturas mais altas e ondas de calor mais frequentes, a tendência é que mais pessoas passem a depender de aparelhos de climatização.
A projeção é que o consumo elétrico destinado ao resfriamento de prédios aumente 210% até 2050 em relação a 2024. No mesmo período, as emissões de gases de efeito estufa associadas ao uso de ar-condicionado podem triplicar.
Esse crescimento pressiona redes elétricas, amplia gastos com energia e cria dificuldades adicionais para países e cidades que já enfrentam períodos de demanda elevada durante o verão.
Ar-condicionado também libera calor nas cidades
O ar-condicionado não elimina o calor. O equipamento retira energia térmica do interior dos edifícios e a libera no lado externo, onde ficam os condensadores.
Em áreas urbanas densamente construídas, milhões de aparelhos funcionando ao mesmo tempo descarregam calor em ruas, fachadas e coberturas. Esse processo pode contribuir para elevar a temperatura local e intensificar as chamadas ilhas de calor urbanas.
Quanto mais quente fica o ambiente externo, maior tende a ser a necessidade de climatização. Forma-se, assim, um ciclo no qual o aumento da temperatura leva ao uso mais intenso de aparelhos, que consomem mais energia e liberam ainda mais calor.
As emissões associadas à geração de eletricidade também aumentam quando a matriz energética depende de combustíveis fósseis. Por isso, o problema envolve tanto o consumo dentro dos prédios quanto os efeitos produzidos do lado de fora.
Milhões de famílias ainda não terão acesso à climatização
Além dos impactos ambientais, o custo dos aparelhos e da eletricidade limita o acesso ao resfriamento. A presença de energia elétrica em uma residência não significa necessariamente que a família consiga comprar e manter um ar-condicionado.
Até 2040, cerca de 100 milhões de famílias na Índia, no México, na Indonésia e no Brasil ainda poderão permanecer sem condições financeiras para adquirir esses equipamentos.
A busca por alternativas passivas também é uma questão de adaptação social ao calor extremo. Materiais capazes de reduzir a temperatura de edifícios sem consumo permanente podem ajudar construções localizadas em regiões com infraestrutura elétrica limitada ou renda mais baixa.
Essas soluções, porém, não substituem automaticamente todos os sistemas de climatização. O desempenho depende do clima, do projeto arquitetônico, da ventilação, do nível de exposição solar e dos materiais utilizados na construção.
Materiais inteligentes dispensam consumo contínuo de energia
O resfriamento de prédios passivo reúne técnicas que reduzem a temperatura de uma construção com pouca ou nenhuma eletricidade. Algumas soluções bloqueiam a entrada de radiação solar, enquanto outras facilitam a saída do calor acumulado.
Persianas automatizadas, por exemplo, podem acompanhar a posição do Sol e impedir que a radiação aqueça excessivamente o interior de edifícios comerciais. Elas utilizam energia para movimentação, mas reduzem a carga exigida dos sistemas de climatização.
Outras tecnologias funcionam sem componentes móveis. Tintas, vidros, géis e revestimentos inteligentes podem controlar a forma como uma superfície absorve, reflete ou libera energia térmica.
Quando aplicados em telhados e fachadas, esses materiais atacam o problema antes que o calor atravesse a estrutura e alcance os ambientes internos.
Revestimentos refletem até 97% da energia solar
Uma das linhas mais avançadas utiliza revestimentos formados por múltiplas camadas ou por micro e nanopartículas. A estrutura dos materiais é projetada para aumentar a reflexão da radiação que atinge uma superfície.
Um dos revestimentos desenvolvidos conseguiu refletir 97% da energia solar incidente. Nos testes, a temperatura da superfície tratada foi reduzida em 5,26 °C.
Essa diferença pode diminuir a quantidade de calor transferida para o interior do prédio. O efeito tende a ser mais relevante em coberturas, que recebem radiação solar direta durante várias horas do dia.
A redução observada na superfície não significa necessariamente que o ambiente interno apresentará exatamente a mesma queda de temperatura. Isolamento, ventilação, orientação solar e características da construção influenciam o resultado final.
Resfriamento radiativo libera calor pela atmosfera
Parte das pesquisas utiliza o chamado resfriamento radiativo passivo. O princípio permite que determinados materiais liberem energia térmica por comprimentos de onda capazes de atravessar a atmosfera.
Esse intervalo é conhecido como janela atmosférica. Por meio dele, o calor emitido pela superfície consegue escapar com menor absorção pelos gases presentes na atmosfera.
O material pode, ao mesmo tempo, refletir grande parte da luz solar e emitir o calor acumulado. Essa combinação reduz o aquecimento durante o dia e favorece a perda de energia térmica.
Tintas especiais, vidros e películas podem ser projetados para explorar esse processo. O desafio é garantir desempenho, durabilidade, resistência às condições externas e custos compatíveis com aplicações em grande escala.
Hidrogel reduz superfície em aproximadamente 7 °C
Outra tecnologia combina resfriamento radiativo com evaporação. Um filme plástico desenvolvido em 2021 utiliza um hidrogel capaz de interagir com a umidade presente no ar.
Durante a noite, o material absorve vapor de água. Ao longo do dia, a água participa do processo de dissipação térmica, ajudando a retirar calor da superfície protegida.
Em testes realizados sob luz solar direta, o filme com hidrogel reduziu a temperatura da superfície em aproximadamente 7 °C.
O resultado mostra como materiais relativamente finos podem atuar como sistemas passivos de controle térmico. Ainda assim, o desempenho pode variar de acordo com a umidade do ar, a intensidade da radiação e as condições de instalação.
Telhados e fachadas concentram as principais aplicações
Telhados são uma das áreas mais indicadas para receber revestimentos de alta refletância porque permanecem diretamente expostos ao Sol. Em edifícios baixos, a cobertura pode representar uma parcela importante da entrada total de calor.
Fachadas também recebem radiação durante o dia, especialmente quando possuem grandes superfícies de vidro ou estão orientadas para direções com maior exposição solar.
Aplicar tecnologias de resfriamento passivo nessas áreas reduz o calor antes que ele alcance os ambientes internos. Isso pode diminuir o tempo de funcionamento do ar-condicionado e reduzir picos de consumo.
A combinação com isolamento térmico, sombreamento, ventilação natural e projetos adaptados ao clima tende a produzir resultados superiores ao uso isolado de apenas um material.
Vidros inteligentes ajudam a controlar a entrada de calor
Janelas são pontos importantes de troca térmica. A radiação solar atravessa o vidro, aquece pisos, móveis e paredes e permanece parcialmente presa no interior do edifício.
Vidros desenvolvidos para controlar determinados comprimentos de onda podem reduzir a entrada de calor sem bloquear completamente a iluminação natural. Algumas soluções também alteram suas propriedades conforme a temperatura ou a intensidade da luz.
O uso de vidros inteligentes pode diminuir a carga térmica sem transformar os ambientes em espaços permanentemente escuros.
O equilíbrio entre transparência, reflexão, conforto visual e eficiência térmica é fundamental. Materiais que bloqueiam luz demais podem aumentar a necessidade de iluminação artificial e reduzir parte da economia obtida com o resfriamento.
Tecnologia ainda enfrenta custos e limitações práticas
Embora os resultados experimentais sejam promissores, a adoção em larga escala depende de fatores técnicos e econômicos. Um material eficiente em laboratório precisa manter o desempenho depois de anos exposto a chuva, poluição, poeira e variações de temperatura.
Também é necessário avaliar manutenção, facilidade de aplicação, disponibilidade de matérias-primas e possibilidade de reciclagem. Uma tecnologia ambientalmente eficiente não pode depender de processos de fabricação excessivamente caros ou poluentes.
Diferenças climáticas representam outro desafio. Um revestimento projetado para regiões muito quentes pode não ser adequado para locais que precisam reter calor durante parte do ano.
A implantação precisa considerar as características de cada edifício e evitar soluções padronizadas para realidades climáticas completamente diferentes.
Normas de construção podem acelerar a adoção
A expansão do resfriamento passivo depende de incentivos para que arquitetos, construtoras e proprietários adotem materiais térmicos desde a fase de projeto.
Normas de construção podem estabelecer níveis mínimos de refletância, isolamento, sombreamento e eficiência das fachadas. Programas públicos também podem estimular reformas em escolas, hospitais e moradias populares.
Projetar edifícios preparados para enfrentar o calor costuma ser mais eficiente do que corrigir problemas depois que a construção está pronta.
As tecnologias também precisam ser integradas ao planejamento urbano, com ampliação de áreas verdes, redução de superfícies escuras, criação de sombras e melhoria da circulação de ar entre os edifícios.
Resfriamento de prédios passivo não representa o fim imediato do ar-condicionado
Tintas refletivas, vidros inteligentes, hidrogéis e revestimentos radiativos podem reduzir a necessidade de climatização, mas não significam que aparelhos de ar-condicionado deixarão de existir.
Hospitais, laboratórios, centros de dados e diversas atividades industriais exigem controle rigoroso de temperatura e umidade. Em ondas de calor extremas, sistemas ativos também podem continuar necessários para proteger a saúde.
O principal objetivo é evitar que o ar-condicionado seja a única resposta disponível para o aumento das temperaturas. Quanto menor a carga térmica de um prédio, menos energia será necessária para manter condições internas seguras.
Você acredita que tintas, vidros e revestimentos inteligentes deveriam se tornar obrigatórios em novas construções nas cidades mais quentes do Brasil? Deixe sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

