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Por mais de uma década, o autismo nível 1 fez parte do espectro; agora pesquisadores defendem retirá-lo do espectro autista
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 29/07/2026 às 11:36
Ciência e Tecnologia
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Uma corrente crescente de pesquisadores defende que pessoas atualmente diagnosticadas com autismo nível 1 passem a receber uma classificação própria, deixando de integrar o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A proposta, apoiada por alguns dos cientistas que ajudaram a consolidar o conceito moderno de espectro, pode representar a maior mudança nos critérios diagnósticos desde a publicação do DSM-5, em 2013.
O conceito de Transtorno do Espectro Autista (TEA), adotado internacionalmente há mais de uma década, voltou ao centro de um intenso debate científico. Pesquisadores de referência na área defendem que o atual autismo nível 1 deixe de fazer parte da mesma classificação que reúne pessoas com necessidades muito mais intensas de suporte, passando a integrar um diagnóstico próprio.
A discussão ganhou força porque o espectro, segundo parte da comunidade científica, passou a reunir perfis extremamente distintos. Hoje, uma mesma classificação pode incluir desde pessoas altamente independentes até indivíduos que não desenvolvem linguagem funcional e necessitam de acompanhamento permanente ao longo da vida.
Essa mudança de posicionamento chama atenção porque parte justamente de especialistas que contribuíram para construir o entendimento moderno do autismo. Quando pesquisadores que ajudaram a ampliar um conceito passam a questioná-lo, o debate costuma sinalizar que novas evidências estão sendo acumuladas e merecem atenção.
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Pesquisadora que ajudou a consolidar o conceito de espectro agora propõe revisão
Uma das principais vozes desse movimento é a psicóloga britânica Dame Uta Frith, considerada uma das pesquisadoras mais influentes da história do autismo.
Em entrevista ao The Times, concedida em março, Frith afirmou que já não enxerga um elemento comum capaz de justificar que todas as pessoas atualmente diagnosticadas permaneçam dentro da mesma categoria clínica.
“Já não existe um denominador comum para todas as pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista”, afirmou.
A posição tem peso especial porque Frith participou, ao longo de décadas, da construção da compreensão atual sobre o autismo e foi uma das pesquisadoras que defenderam a ampliação dos critérios diagnósticos.
Em entrevista publicada pela revista New Scientist, em maio de 2026, ela reconheceu que ampliar o conceito foi importante para impulsionar pesquisas, mas acredita que o processo pode ter avançado além do necessário.
Segundo Frith, algumas características atualmente interpretadas como sinais de autismo podem representar, em determinados casos, variações naturais da personalidade, especialmente em pessoas altamente funcionais.
Ela também alertou que o crescimento expressivo dos diagnósticos tardios pode acabar reduzindo a visibilidade daqueles que apresentam deficiência intelectual e dependem de suporte muito mais intensivo.
Como surgiu o atual conceito de espectro autista
Até a década de 1990, o autismo era dividido em diferentes categorias diagnósticas.
Com a publicação do DSM-4, em 1994, o manual passou a incluir diagnósticos como a síndrome de Asperger, ampliando significativamente os critérios utilizados pelos profissionais.
A mudança mais profunda ocorreu em 2013, quando entrou em vigor o DSM-5, principal referência internacional para transtornos mentais e do neurodesenvolvimento.
As antigas categorias foram unificadas sob um único diagnóstico: o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Desde então, a classificação passou a utilizar níveis de suporte:
- Nível 1: requer apoio;
- Nível 2: requer apoio substancial;
- Nível 3: requer apoio muito substancial.
A unificação foi influenciada por pesquisas lideradas pela psicóloga Catherine Lord, que apontaram dificuldades para estabelecer critérios objetivos capazes de diferenciar com confiabilidade diagnósticos como a síndrome de Asperger.
Mesmo antes da adoção do DSM-5, porém, alguns pesquisadores já demonstravam preocupação.
O professor Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge, escreveu em artigo publicado no The New York Times, em 2009, que apoiava a ideia de espectro, mas alertava que diferenças importantes entre determinados grupos poderiam acabar sendo perdidas com a unificação.
Pesquisadores acreditam que um novo diagnóstico pode surgir
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O debate não está restrito à Europa.
No Brasil, o pesquisador Lucelmo Lacerda, doutor em Educação e pesquisador da Universidade da Carolina do Norte, afirmou que acredita que o conceito atual poderá ser revisto na próxima atualização do DSM.
Segundo ele, sua expectativa é que o atual autismo nível 1 passe a integrar uma nova categoria diagnóstica.
A futura nomenclatura ainda é desconhecida.
Lacerda mencionou que ela poderia fazer referência a algo como “personalidade autística” ou receber um nome completamente diferente, sem ligação direta com o termo autismo.
Até o momento, porém, nenhuma proposta oficial foi apresentada pelos responsáveis pela elaboração do manual.
Mudança também pode gerar impactos jurídicos e sociais
Especialistas estimam que uma nova edição do DSM possa ser publicada entre 2029 e 2030, embora ainda não exista cronograma oficial.
Caso uma mudança desse porte seja aprovada, seus efeitos poderão ultrapassar a área médica.
No Brasil, pessoas diagnosticadas com TEA são reconhecidas legalmente como pessoas com deficiência pela Lei nº 12.764/2012, condição que garante acesso a políticas públicas de inclusão, atendimento prioritário, adaptações educacionais e trabalhistas, além de outros direitos previstos em lei.
Uma eventual separação diagnóstica levanta dúvidas sobre como essas garantias seriam aplicadas caso parte das pessoas atualmente enquadradas no espectro passe a integrar uma classificação diferente.
Esse é justamente um dos pontos que tornam a discussão mais complexa. O debate deixou de envolver apenas critérios científicos e passou a considerar também seus reflexos sociais, jurídicos e assistenciais.
Por enquanto, não há qualquer decisão oficial para alterar o DSM. O que existe é um movimento crescente dentro da comunidade científica que questiona se o modelo criado em 2013 continua sendo o mais adequado diante do conhecimento acumulado nos últimos anos.
Com informações de: Gazeta do Povo
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

