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A 500 metros no fundo do mar, dessalinização submarina transforma água salgada em 1 milhão de litros de água potável por dia usando a própria pressão do oceano
Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 31/08/2026 às 01:09
Atualizado 31/08/2026 às 01:44
Ciência e Tecnologia
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Dessalinização submarina instalada a 500 metros de profundidade aproveita a pressão do oceano para produzir até 1 milhão de litros de água potável por dia na costa oeste da Noruega, com menor consumo energético estimado.
A dessalinização submarina alcançou escala industrial na Noruega com a entrada em operação da Flocean One, sistema instalado a mais de 500 metros de profundidade e capaz de produzir até 1 milhão de litros de água doce por dia a partir da água do mar.
Localizado em Mongstad, na costa oeste norueguesa, o equipamento começou a produzir água em 22 de junho de 2026. A abertura oficial ocorreu oito dias depois, em 30 de junho, e a unidade passou a operar continuamente no início de julho, segundo a empresa responsável pelo projeto.
A tecnologia utiliza a pressão hidrostática existente nas grandes profundidades para auxiliar a osmose reversa. Com isso, diminui a necessidade de grandes bombas terrestres destinadas a pressionar a água salgada contra as membranas responsáveis pela separação do sal.
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A Flocean estima uma redução de 40% a 50% no consumo energético em comparação com plantas convencionais instaladas na costa. O sistema, entretanto, ainda precisa de eletricidade para bombear a água doce, transportá-la até terra e manter os equipamentos de controle e monitoramento.
Dessalinização submarina começa a operar em escala industrial
A Flocean One foi montada e submetida a testes em Oslo antes de seguir para Mongstad. O deslocamento de aproximadamente 480 quilômetros foi feito por navio e caminhão em abril de 2026.
Com cerca de 22 toneladas, o equipamento foi preparado para trabalhar no fundo do mar, em uma área próxima ao complexo industrial de Mongstad. A região está situada aproximadamente 60 quilômetros ao norte de Bergen.
De acordo com o comunicado publicado pela Flocean, a unidade alcançou sua primeira produção de água potável em 22 de junho de 2026, já com capacidade máxima de até 1 milhão de litros por dia.
A empresa apresenta a instalação como o primeiro sistema comercial de dessalinização submarina em escala industrial. A estrutura foi desenvolvida para produzir água destinada a consumidores e atividades industriais, enquanto é preparada sua conexão à rede municipal.
A cerimônia oficial de abertura aconteceu em 30 de junho. Entre os participantes estava Sara Hamre Sekkingstad, prefeita do município de Alver, que experimentou a água produzida pelo equipamento.
Desde o início da operação contínua, a planta passou a ser monitorada remotamente a partir dos escritórios da Flocean em Oslo, localizados a aproximadamente 330 quilômetros da instalação. Engenheiros acompanham em tempo real as condições de funcionamento e a pressão de entrada da água.
Pressão do oceano substitui parte do trabalho das bombas
A osmose reversa convencional depende de bombas de alta pressão. Elas forçam a água do mar contra membranas semipermeáveis, que permitem a passagem das moléculas de água, mas retêm grande parte dos sais e de outras substâncias.
Na Flocean One, parte dessa pressão já existe naturalmente. A aproximadamente 500 metros abaixo da superfície, a pressão hidrostática fica próxima da faixa exigida pelo processo de osmose reversa.
O sistema trabalha de maneira diferente das instalações terrestres. Em vez de pressionar uma grande quantidade de água salgada a partir da costa, utiliza a pressão do próprio oceano e concentra o bombeamento no lado da água doce.
Isso não significa que a planta funcione sem energia. A eletricidade continua sendo necessária para retirar a água produzida, conduzi-la até terra e alimentar os sistemas auxiliares. A economia estimada está relacionada principalmente à redução da energia destinada à pressurização da água salgada.
Antes da instalação comercial, um equipamento menor passou por testes em Mongstad. Conforme a publicação especializada Aquatech, a unidade de demonstração processou mais de 5 milhões de litros durante um período de quatro meses.
A água obtida no projeto-piloto atingiu a categoria considerada excelente pelos parâmetros da Organização Mundial da Saúde e também ficou dentro dos padrões noruegueses de água potável, segundo análises atribuídas ao laboratório Eurofins.
Profundidade reduz presença de algas e necessidade de produtos químicos
A localização no fundo do mar oferece outra possível vantagem. Abaixo dos 200 metros, a disponibilidade de luz solar é muito pequena, limitando a fotossíntese e a proliferação de algas.
A água captada em grandes profundidades, portanto, tende a apresentar menor presença de algas e de parte da biomassa que pode provocar o entupimento das membranas. Temperatura e qualidade mais estáveis também podem simplificar o tratamento.
Segundo a Flocean, essas condições permitem operar sem o amplo pretratamento químico utilizado em muitas plantas costeiras. Produtos como coagulantes, desinfetantes e agentes contra incrustações são empregados em sistemas convencionais para proteger as membranas e manter a eficiência da instalação.
A redução ou eliminação dessas etapas pode diminuir o tamanho da infraestrutura necessária em terra. A companhia estima uma redução de 60% na estrutura de pretratamento e de até 95% na ocupação de terrenos costeiros.
Esses percentuais são apresentados como estimativas técnicas da desenvolvedora. O desempenho ambiental e operacional de longo prazo dependerá dos dados acumulados durante o funcionamento contínuo da unidade comercial.
Concentrado salino é liberado em águas profundas
A dessalinização não elimina o sal presente na água. O processo separa uma corrente de água doce e outra mais concentrada, frequentemente chamada de salmoura ou concentrado.
Na instalação norueguesa, esse concentrado é liberado em grandes profundidades, sem os produtos químicos de pretratamento associados a determinadas plantas convencionais. A empresa afirma que ele apresenta salinidade apenas moderadamente superior à da água ao redor e se dispersa rapidamente.
A Flocean estima que a descarga retorne a níveis próximos da salinidade ambiente em uma distância de aproximadamente 30 metros. A liberação no fundo do mar também evita concentrar a descarga em ecossistemas costeiros rasos.
Isso representa uma proposta de redução dos impactos, mas não significa a inexistência absoluta de alterações ambientais. A Aquatech destaca que a dispersão do concentrado precisa ser administrada cuidadosamente porque a região de Fensfjorden constitui um corredor marinho importante.
O acompanhamento da unidade deverá fornecer informações sobre a eficiência, a estabilidade das membranas e o comportamento da descarga durante períodos prolongados.
Unidade atual é menor que os módulos projetados
A Flocean One produz até 1.000 metros cúbicos, ou 1 milhão de litros, por dia. A própria empresa associa essa capacidade ao consumo aproximado de 6 mil residências, embora a quantidade de pessoas atendidas dependa do consumo médio adotado e do número de moradores em cada imóvel.
A cifra de 37.500 pessoas está relacionada a módulos de produção maiores, e não ao abastecimento comprovado da unidade atual. Ao incluir a tecnologia entre as melhores invenções de 2025, a revista TIME informou que cada cápsula comercial projetada poderia produzir água suficiente para aproximadamente 37.500 pessoas por dia.
Essas unidades maiores são apresentadas como parte da expansão modular da tecnologia. A proposta permite reunir diversas cápsulas no mesmo local e ampliar gradualmente a produção, de acordo com a demanda.
A Flocean trabalha com instalações situadas geralmente entre 400 e 700 metros de profundidade. A proximidade de águas profundas em relação à costa é um fator importante porque a água doce precisa ser transportada por tubulações submarinas.
Operação na Noruega servirá de referência para novos projetos
A companhia informou ter mais de 15 projetos em desenvolvimento. Entre as iniciativas mencionadas estão uma parceria com o município de Alver e um projeto para estudar o emprego da tecnologia nas Maldivas.
A unidade de Mongstad funciona como demonstração comercial e como fonte de dados para essas futuras instalações. O desempenho durante os próximos meses deverá indicar a confiabilidade do equipamento, a frequência de manutenção e a economia energética efetivamente alcançada.
Os resultados também poderão mostrar como as membranas se comportam durante diferentes condições oceânicas e estações do ano. Embora o sistema esteja protegido de tempestades e ondas superficiais, seus componentes permanecem submetidos permanentemente à pressão, à salinidade e ao ambiente corrosivo do mar.
A produção iniciada em junho representa a passagem de um projeto anteriormente testado em menor escala para uma instalação industrial em operação. A ampliação para módulos capazes de atender dezenas de milhares de pessoas permanece uma projeção ligada ao crescimento e à implantação comercial da tecnologia.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Fabio Lucas Carvalho.

