6 min de leitura
Aluno cego enfrentou materiais que leitores de tela não conseguiam interpretar, tornou-se o primeiro a cursar ciências no ensino médio da Índia, chegou a Stanford e criou uma plataforma de inteligência artificial que já auxiliou mais de 12 mil estudantes
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 14/08/2026 às 22:45
Ciência e Tecnologia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
A trajetória de Kartik Sawhney mostra como inteligência artificial e acessibilidade digital podem transformar gráficos, equações e documentos em conteúdos acessíveis, além de oferecer formação técnica, mentoria e oportunidades práticas para estudantes cegos que ainda encontram barreiras na educação.
Um gráfico aparecia na tela, mas o leitor de tela não explicava os dados. Uma equação era inserida como imagem, mas o programa não conseguia interpretar seus símbolos. Foi diante de materiais escolares inacessíveis que Kartik Sawhney iniciou uma trajetória que o levaria da Índia à Universidade Stanford.
Kartik passou a ser reconhecido como o primeiro aluno cego a cursar ciências no ensino médio da Índia. Mais tarde, transformou as dificuldades que viveu na escola em uma plataforma de inteligência artificial que já havia auxiliado mais de 12 mil estudantes até 2024.
O caso foi publicado em 29 de maio de 2024 pelo UNICEF, organismo das Nações Unidas dedicado aos direitos das crianças. A publicação também registrou impacto declarado sobre mais de 28 mil pessoas por meio da iniciativa.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A barreira invisível dos gráficos, equações e diagramas
O leitor de tela identifica textos e os transforma em voz. Porém, ele depende de um arquivo organizado corretamente para reconhecer títulos, parágrafos, botões, tabelas e outros elementos presentes na página.
Quando uma equação aparece apenas como fotografia, o programa pode anunciar somente a existência de uma imagem. O estudante sabe que existe algo naquele espaço, mas não recebe os números, os símbolos nem a relação entre eles. O conteúdo está na tela, mas permanece fora de alcance.
Assista o vídeo
Gráficos e diagramas criam uma dificuldade parecida. Se não houver uma descrição, a pessoa pode não saber quais dados estão sendo comparados, por que uma linha subiu ou qual parte da figura representa o resultado mais importante.
Essa barreira ganha ainda mais peso em disciplinas como matemática, física, química e biologia. Nelas, uma imagem pode carregar a informação principal da aula, e não apenas servir como ilustração.
O caminho que levou Kartik Sawhney até Stanford
Kartik cresceu enfrentando dificuldades para acessar conteúdos educacionais por ser cego. Mesmo assim, escolheu uma área escolar marcada pelo uso constante de fórmulas, representações visuais e exercícios científicos.
Sua entrada no campo das ciências durante o ensino médio indiano quebrou uma barreira educacional. Depois dessa etapa, ele avançou nos estudos e concluiu sua graduação na Universidade Stanford, nos Estados Unidos.
Em 2016, Kartik também recebeu o prêmio Jovens Líderes da Rainha. A distinção reconhecia jovens envolvidos em ações de impacto em suas comunidades.
A trajetória acadêmica não apagou os obstáculos encontrados na escola. Pelo contrário, as dificuldades ajudaram a orientar a criação de uma tecnologia voltada a pessoas que ainda enfrentam limitações semelhantes no acesso ao conhecimento.
Como a inteligência artificial transforma materiais inacessíveis
Tornar um documento acessível exige mais do que copiar suas palavras. O arquivo precisa apresentar uma estrutura que permita ao leitor de tela identificar o que é título, parágrafo, tabela, imagem, gráfico ou expressão matemática.
A inteligência artificial pode ajudar a reconhecer esses elementos e reorganizar o conteúdo em uma sequência compreensível. Assim, um material que antes dependia apenas da visão pode ganhar texto identificável, descrições e uma ordem correta de leitura.
No caso de uma equação, números e símbolos precisam aparecer na posição certa. Em um gráfico, a descrição deve comunicar os dados, as comparações e as mudanças representadas. Já um diagrama necessita explicar como suas partes estão relacionadas.
A conversão automática também exige cuidado. Uma interpretação errada pode trocar símbolos ou alterar o sentido de uma fórmula. Por isso, a revisão continua importante, principalmente em conteúdos científicos nos quais um pequeno erro pode mudar completamente o resultado.
I Stem combina acessibilidade, formação e mentoria
Kartik cofundou a I Stem, plataforma que utiliza inteligência artificial para ampliar o acesso de pessoas com deficiência a conteúdos e serviços digitais. A iniciativa atua principalmente nos campos da matemática e das ciências.
O trabalho não termina na conversão de materiais. A plataforma também reúne formação técnica, mentoria e oportunidades práticas, criando caminhos para que os participantes desenvolvam habilidades acadêmicas e profissionais.
Instituições de ensino, empresas e governos participam dessa rede. Essa aproximação permite tratar diferentes partes do problema, desde o acesso ao material escolar até a preparação para experiências profissionais.
O UNICEF, organismo das Nações Unidas dedicado aos direitos das crianças, registrou que a I Stem havia auxiliado mais de 12 mil estudantes e alcançado impacto declarado sobre mais de 28 mil pessoas até maio de 2024.
Nem toda pessoa com deficiência visual enfrenta a mesma barreira
Pessoas cegas e pessoas com baixa visão não utilizam necessariamente os mesmos recursos. Algumas dependem do leitor de tela, enquanto outras preferem ampliar letras, aumentar o contraste ou ajustar as cores do dispositivo.
Também existem estudantes que combinam diferentes ferramentas. Uma pessoa pode usar ampliação para determinadas atividades e recorrer ao áudio para ler documentos mais longos. Por isso, não existe uma única experiência de deficiência visual.
Uma solução acessível precisa permitir diferentes formas de navegação e leitura. Oferecer apenas um formato pode resolver a dificuldade de parte dos usuários e manter outra parte excluída.
A inteligência artificial amplia as possibilidades, mas não substitui a participação das pessoas que utilizarão o material. Acessibilidade eficiente começa pela compreensão das necessidades reais, não por uma solução aplicada da mesma maneira para todos.
O que a experiência revela sobre a educação brasileira
A história de Kartik também permite olhar para escolas e universidades brasileiras. Receber a matrícula de um estudante com deficiência visual não garante, por si só, que ele conseguirá acompanhar as aulas com autonomia.
Uma instituição pode possuir computadores, plataformas digitais e salas adaptadas. Porém, se apostilas forem publicadas como imagens, se gráficos não tiverem descrição e se atividades dependerem apenas de cores, o acesso ao conteúdo continuará incompleto.
A acessibilidade precisa começar durante a preparação do material. Textos organizados, imagens descritas, botões identificados e documentos compatíveis com leitores de tela beneficiam estudantes com diferentes necessidades.
Isso também reduz a dependência constante de outra pessoa para explicar o que aparece na tela. Quando o conteúdo nasce acessível, o estudante ganha mais autonomia para estudar, revisar exercícios e realizar tarefas.
Tecnologia assistiva precisa ir além da caridade
Kartik defende que a deficiência deixe de ser apresentada apenas por meio da caridade e da simpatia. Para ele, a conversa precisa incluir realização, capacidade e sucesso.
Essa mudança aparece na proposta da I Stem. Os participantes não recebem somente ajuda para abrir um documento. Eles encontram recursos para estudar, desenvolver habilidades e buscar oportunidades acadêmicas e profissionais.
A tecnologia assistiva passa, assim, a funcionar como instrumento de independência. Ela não elimina todas as barreiras, mas pode impedir que um gráfico sem descrição ou uma equação inserida como imagem interrompa uma trajetória educacional.
A caminhada de Kartik começou diante de materiais que seus recursos de leitura não conseguiam interpretar. Depois de chegar a Stanford, ele transformou essa experiência em uma plataforma voltada a milhares de estudantes.
Mais do que converter arquivos, a iniciativa mostra que inclusão exige acesso ao conhecimento, formação e oportunidades concretas. Colocar o aluno dentro da escola é apenas o começo quando o conteúdo ainda não consegue chegar até ele.
Se o estudante entra na sala, mas não consegue acessar o conteúdo, existe inclusão de verdade? Deixe sua opinião nos comentários.
Fonte
UNICEF
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

