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Ao perceber que as pessoas olhavam para a tela em vez do rosto de sua melhor amiga com paralisia cerebral, adolescente decide mudar isso, cria um colar Bluetooth que projeta a voz pelo peito e acaba transformando um incômodo de infância em tecnologia premiada na Austrália
Escrito por Ana Alice
Publicado em 24/08/2026 às 02:36
Atualizado em 24/08/2026 às 03:41
Ciência e Tecnologia
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Um novo colar Bluetooth desenvolvido na Austrália busca melhorar a comunicação de pessoas não verbais ao transferir para a região do peito o áudio produzido por dispositivos assistivos, reduzindo a atenção sobre a tela e favorecendo o contato visual durante as conversas.
Durante anos, Annie Rogers observou uma situação que parecia pequena para quem estava de fora, mas que incomodava profundamente sua melhor amiga, Matilda.
Matilda tem paralisia cerebral e utiliza tecnologia de comunicação por rastreamento ocular.
Quando queria conversar, porém, as pessoas frequentemente dirigiam a atenção para a tela responsável por reproduzir sua fala, em vez de olhar para seu rosto.
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A consequência era curiosa: a tecnologia permitia que Matilda se comunicasse, mas ao mesmo tempo acabava desviando os olhos de quem conversava com ela.
Annie decidiu tentar mudar justamente esse detalhe.
Ainda na escola, ela criou o My Voice, um pequeno alto-falante Bluetooth preso a um colar.
O aparelho recebe o áudio do dispositivo de comunicação e faz a voz sair da região do peito do usuário, tentando direcionar novamente a atenção de quem escuta para a própria pessoa.
A ideia rendeu prêmios, apresentações e interesse fora da escola.
Em novembro de 2024, aos 16 anos, Annie venceu a categoria Young Women do Gold Coast Bulletin Women of the Year, na Austrália.
No ano seguinte, já aos 17, continuava desenvolvendo o produto enquanto concluía o ensino médio.
E a história não terminou com o prêmio.
Em 2026, Annie entrou na Bond University e segue trabalhando para transformar o protótipo em um produto comercial, com pesquisa de mercado, testes de conceito e ajustes no desenho do dispositivo.
Tecnologia de comunicação permitia a fala, mas desviava o contato visual
Annie e Matilda se conheceram ainda no segundo ano da escola e se tornaram amigas próximas.
Ao longo da infância, Annie percebeu que Matilda conseguia se comunicar por meio de um sistema que acompanha o movimento dos olhos e permite selecionar informações em uma tela.
A dificuldade aparecia justamente quando outra pessoa entrava na conversa.
Segundo Annie relatou ao Inside Gold Coast, algumas pessoas ficavam atrás de Matilda para acompanhar o que ela estava digitando ou concentravam a atenção no computador que produzia o áudio.
Matilda dizia sentir que seu “poder” estava todo dentro daquela máquina.
O desconforto não era apenas uma questão de etiqueta.
Quando alguém acompanha a tela em vez do rosto, expressões faciais, reações e parte da linguagem corporal podem se perder durante a conversa.
Annie chegou a dizer que percebia estar perdendo até as piadas da amiga, porque não via a expressão de Matilda enquanto ela se comunicava.
Foi essa percepção que transformou o contato visual no centro do projeto.
Colar Bluetooth faz a voz sair da região do peito
A solução concebida por Annie não tenta substituir o equipamento de comunicação usado por Matilda.
O My Voice funciona em conjunto com ele.
O áudio gerado pelo dispositivo de comunicação é enviado por Bluetooth para um pequeno alto-falante colocado em um colar, fazendo com que o som seja projetado a partir do corpo do usuário.
A lógica é simples.
Se a voz parece vir da região do peito, quem está conversando tem menos motivo para permanecer olhando para a tela instalada à frente ou ao lado da pessoa.
O dispositivo fica dentro de uma estrutura semelhante a um pingente, presa a uma corrente.
O projeto prevê ainda peças frontais intercambiáveis, numa tentativa de fazer o equipamento parecer mais um acessório do que um dispositivo médico tradicional.
My Voice precisa funcionar com tecnologias que o usuário já utiliza
A proposta do My Voice parte de uma escolha importante de design: não substituir o dispositivo de Comunicação Aumentativa e Alternativa usado pela pessoa, mas funcionar como uma extensão dele.
Na prática, o sistema AAC continua responsável por transformar as escolhas do usuário em palavras e frases.
O My Voice recebe esse áudio por Bluetooth e muda apenas o ponto onde o som é reproduzido, transferindo a voz da tela para um alto-falante usado próximo ao peito.
Essa decisão reduz a necessidade de desenvolver um novo comunicador completo e permite concentrar o projeto em outro problema de acessibilidade: a maneira como o áudio produzido por dispositivos eletrônicos interfere na interação entre duas pessoas.
O desafio técnico, porém, não termina na conexão Bluetooth.
Annie explicou que uma versão comercial precisa reunir características difíceis de combinar em um dispositivo tão pequeno: baixo peso, espessura reduzida, bateria recarregável e resistência à água, além de dimensões que permitam seu uso confortável como colar.
Há também uma questão de usabilidade.
Como parte do público potencial pode apresentar limitações de mobilidade nas mãos, o mecanismo usado para trocar os pingentes e manipular o aparelho não pode depender de movimentos finos ou exigir força excessiva.
Por isso, o desenvolvimento envolve não apenas eletrônica, mas também design centrado no usuário, ergonomia e acessibilidade física.
Outro elemento do projeto é a personalização.
A proposta prevê capas ou pingentes intercambiáveis para que o aparelho tenha aparência mais próxima de um acessório pessoal do que de um equipamento clínico.
Assim, embora o princípio pareça simples — deslocar por Bluetooth o áudio de um comunicador para um alto-falante no peito —, transformar essa ideia em um produto utilizável exige resolver simultaneamente conectividade, tamanho, peso, autonomia, resistência e facilidade de manusei.
My Voice nasceu durante projeto escolar de empreendedorismo
O My Voice começou em 2020, quando Annie participava de uma atividade extracurricular de empreendedorismo na escola.
Os alunos receberam o desafio de desenvolver alguma coisa voltada ao “bem maior”.
Em vez de procurar um problema distante, Annie voltou a atenção para algo que já presenciava havia anos na convivência com Matilda.
A ideia avançou dentro do programa Innovate and Create, do St Andrew’s Lutheran College.
Annie conversou com professores, trabalhou na proposta e começou a produzir os primeiros protótipos.
Com o tempo, o projeto deixou de ser apenas uma atividade escolar e passou a ser apresentado como My Voice Communications.
Transformar o colar em produto virou o maior desafio
A aparência aparentemente simples do colar escondeu um desafio maior de engenharia.
Em entrevista publicada em 2025, Annie explicou que ainda precisava conseguir um alto-falante Bluetooth que fosse ao mesmo tempo pequeno, leve, muito fino, recarregável e resistente à água.
Também era necessário desenvolver uma forma prática de trocar os pingentes frontais.
Esse detalhe tinha importância especial porque potenciais usuários podem apresentar limitações de mobilidade nas mãos.
Portanto, não bastava criar algo visualmente interessante.
O mecanismo precisava ser fácil de manipular e viável para produção em escala.
Em junho de 2025, Annie ainda descrevia o My Voice como estando em fase de prototipagem.
A situação continuava semelhante em 2026.
O site oficial do projeto mantém uma lista de espera e informa que o produto continua em desenvolvimento, com busca por parceiros de engenharia e pessoas interessadas em participar de testes.
Prêmio Young Women veio quando Annie tinha 16 anos
O reconhecimento público começou antes de o colar chegar ao mercado.
Em 2023, Annie recebeu o prêmio Young Entrepreneur of the Year, do Next Gen Awards, e também foi destacada como “One to Watch” na categoria de empreendedor de maior impacto do Young Change Agents.
No ano seguinte veio um dos reconhecimentos de maior visibilidade de sua trajetória.
Em 16 de novembro de 2024, o Gold Coast Bulletin anunciou Annie como vencedora da categoria Young Women de seu prêmio anual Women of the Year.
Ela tinha 16 anos e ainda cursava o ensino médio.
Matilda estava presente na cerimônia.
Meses depois, já com 17 anos, Annie contou que ter a amiga ao seu lado naquele momento tornou o prêmio especialmente significativo.
Em 2026, My Voice ainda caminha para chegar ao mercado
O passo seguinte passou a ser menos sobre convencer jurados e mais sobre encontrar uma maneira de fabricar o produto.
Annie começou a estudar na Bond University em 2026, no curso Bachelor of Entrepreneurial Transformation, e passou a participar também do programa Transformer da instituição.
Segundo a universidade, ela trabalha semanalmente com uma mentora para pesquisar o mercado, conversar com potenciais usuários e ajustar o desenho do My Voice.
A própria Annie afirmou à Bond que avançou mais no primeiro semestre do programa do que nos dois anos anteriores.
O objetivo continua sendo chegar a uma versão que possa ser fabricada de maneira viável e que faça sentido para pessoas que utilizam Comunicação Aumentativa e Alternativa, conhecida pela sigla AAC em inglês.
Matilda continua participando desse processo.
Em entrevista divulgada pela Bond em junho de 2026, ela afirmou acreditar que o My Voice pode ajudar muitas pessoas e destacou a importância de poder se comunicar de maneira independente.
Colar não cria a fala, mas muda de onde ela é ouvida
O diferencial do My Voice talvez esteja justamente no fato de ele não tentar reinventar os sistemas utilizados por pessoas não verbais.
O dispositivo não escolhe palavras, não interpreta movimentos dos olhos e não produz frases sozinho.
Essa tarefa continua sendo realizada pela tecnologia de comunicação que o usuário já utiliza.
O colar apenas muda o lugar de onde o áudio é reproduzido.
A alteração física é pequena, mas nasceu de uma situação que Annie observou repetidamente: quando o som vinha do computador, a atenção também seguia para o computador.
Ao trazer o áudio para o corpo, a proposta é fazer com que o interlocutor volte a encarar a pessoa.
Outro negócio ajudou Annie a financiar o My Voice
Enquanto desenvolvia o My Voice, Annie também criou a Ladybird Lane Designs, negócio de brincos de argila polimérica.
A adolescente explicou que parte da finalidade dessa segunda atividade era gerar recursos para continuar investindo no desenvolvimento do projeto de comunicação.
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Ana Alice
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Durante o ensino médio, ela passou a conciliar as duas iniciativas, estudos, emprego de meio período e apresentações sobre empreendedorismo.
O My Voice também recebeu apoio de programas voltados a jovens empreendedores.
O site oficial registra ainda uma bolsa de A$ 1 mil da Protostars, iniciativa ligada à Blackbird VC, para auxiliar no desenvolvimento.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

